domingo, 6 de março de 2016

Pistas para homilia


4º Domingo da Quaresma

06/03/2016
Pistas homiléticas
Liturgia da Palavra: Js 5, 9a.10-12; Sl 33 (34); 2 Cor 5, 17-21; Lc 15, 1-3.11-32
Tema ou mensagem: Tínhamos de fazer festa e alegrar-nos porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, perdido e foi reencontrado.
Imagem ou cena: O reencontro, a reconciliação entre o filho e o pai
Sentimento: Alegria do encontro e da reconciliação
Introdução
Domingo passado, celebramos a graça da conversão contrita e frutuosa (Cf. parábola da figueira que recebeu mais uma chance de dar frutos). Hoje, somos convidados a celebrar a alegria do reencontro do Pai com seu filho. Por isso, o domingo de hoje é chamado “Dominica laetare” 1, isto é, Domingo da alegria. (Cf. antífona de entrada). A alegria é recíproca: nossa e de Deus. Nossa por sermos recebidos de volta nos braços e na casa do Pai. Dele porque seu filho que estava morto voltou à vida e perdido foi encontrado.
  1. Alegria que vem de uma longa e sofrida história
A primeira leitura da Palavra de Deus deste domingo, tirada do servo de Deus Josué, trata da primeira páscoa celebrada pelos hebreus na planície de Jericó, na terra de Canaã dada de graça por Deus a seu povo eleito. Esta celebração marca o fim da travessia no deserto e da escravidão do Egito e o começo de uma nova vida na terra da promessa: terra livre, acolhedora e frutuosa, terra de filhos e irmãos e não de escravos. Nesta celebração, alegre e festiva, além de comer a páscoa (o cordeiro) e os frutos da terra, comeram também “pães ázimos” (sem fermento) e espigas tostadas que se ofereciam nas festas de colheitas como primícias. É a alegria da antiga Aliança, sombra daquela que brotará da nova que será inaugurada pelo futuro Messias.
  1. A alegria do reencontro
Na verdade, a parábola do Evangelho de hoje deveria se chamar de “parábola do Pai misericordioso e compassivo”. A história é comovedora e dramática ao mesmo tempo. Tudo começa com a murmuração dos fariseus e escribas contra Jesus porque Ele não só acolhia os pecadores e publicanos, mas ousava, até, sentar-se à mesa, comer e fazer festa com eles. E tudo isto em nome de Deus. De fato, o que Jesus faz é algo realmente inaudito, coisa nova, nunca vista: uma Boa Nova para os publicanos e pecadores, mas uma blasfêmia, um escândalo para os “santos” e “religiosos praticantes” da época e de todos os tempos.
O filho mais novo – Adão - não apenas quer ver-se livre do pai, mas, também, quer a parte do patrimônio que lhe cabe por herança. Ele anseia por autonomia – viver por si e para si, autocentrado em sua autorreferencialidade, diria nosso papa. Apesar deste rompimento, o pai, porém, continua sendo o pai dele, um pai que em vez de ser ciumento, é generoso, um pai que prefere negar-se a si mesmo, para deixar-ser o manancial que dele emana, a vida, o filho querido e muito amado. O que este filho – Adão – fez para si foi “matar” seu Pai, seu Deus, mas o que fez para seu Pai, seu Deus foi proporcionar-Lhe um novo “nascimento”, isto é, obrigou o Pai ser mais Pai, Deus a “ser mais Deus ainda”.
Na verdade, quem morre é ele, o filho. Assim, longe da casa paterna, morto em relação ao Pai foi obrigado a fazer-se servo de um estranho e a ser “pastor de porcos” que, segundo os Padres da Igreja equivale a servir ao diabo e, por extensão, à sofreguidão dos desejos sensuais, das paixões desregradas, dos pensamentos sórdidos, dos vícios (Cf. Mc 5,12ss). Surge, então a fome. Mas, o alimento que encontra não é mais a Palavra, o amor do Pai e sim a comida dos porcos. É o sentido negativo da palavra “pródigo”, que quer dizer, aqui, “dissipador” dos bens paternos.
A necessidade, porém quando bem aceita torna-se uma bênção. Assim, aos poucos, no fundo da memória deste filho ressurge, esplendoroso, o rosto misericordioso do Pai; um rosto que co-move o filho a encetar o caminho da “volta”. Vem-lhe, então à mente a generosidade do pai: seus diaristas tão bem tratados enquanto ele morrendo de fome tem de contentar-se com a comida, as alfarrobas dos porcos. Distante da Casa paterna tornara-se escravo de si e dos outros. Precisava voltar para o Pai, nem que fosse para ser um de seus empregados. Note-se, porém, que na origem deste sentimento está a presença do rosto misericordioso do Pai na memória do filho. Ou seja, antes do filho é o Pai quem suscita no coração do filho o desejo da volta.
Por isso, diz o evangelho que estando o filho ainda longe o Pai correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. Comentando este gesto do Pai diz nosso Papa. “Misericórdia é a atitude divina que abraça, é o doar-se de Deus que acolhe, que se dedica a perdoar [...]. Você pode renegar a Deus, você pode pecar contra Ele, mas Deus não poderá renegar-se a si próprio, Ele permanece fiel” (“O nome de Deus é Misericórdia”, p. 37 e 38). Em Deus perdoar não é ato, mas ser. Por isso sua nome é Perdão, Misericórdia, Compaixão, ou quem sabe “Miserando atque elegendo” (“Msericordiando e escolhendo” Trata-se do lema episcopal do atual papa).
Consequência imediata deste reencontro o Pai manda os servos trazerem a “primeira roupa”, um anel para o dedo, as sandálias para os pés. Ele é revestido de novo com a dignidade, a beleza e integridade de filho, que tinha perdido. O anel assinala a autoridade e as sandálias a liberdade (os escravos não andavam de sandálias). O filho não é aceito na condição de servo, nem de diarista, mas de senhor, de homem livre. Ele é recebido na condição de igualdade com o Pai.
Por fim, o Pai manda os servos matarem o bezerro gordo para servir de festim que iria celebrar a recuperação do filho, o resgate de sua saúde, a salvação. Os Padres da Igreja veem neste bezerro o sacrifício de Cristo. Ambrósio lembra que o bezerro era vítima sacrifical. Assim, para que nós passássemos da morte para a vida, da perdição e ruína para a salvação, era preciso o sacrifício de Cristo. Agostinho lembra que, na Igreja, o retorno do filho à casa paterna acontece com a confissão e a penitência e o festim que celebra a reconciliação acontece com a eucaristia.
Quando a história parece ter chegado ao seu clímax entra a voz do filho mais velho (presbyteros) em diálogo áspero com a voz terna do pai. É a voz dos fariseus e escribas, mas pode ser também do homem do Antigo Testamento e, por que não, de cada um de nós! Este filho é um trabalhador de Deus, do Pai, mas só que o faz não como filho e sim como servo – por temor ou como diarista – por merecimento.
A música e a dança significam a alegria dos que cantam a eterna misericórdia do Pai e o cântico novo das novas criaturas – os filhos de Deus que estavam mortos pelo pecado e que ressuscitaram pela graça. Se o pai mostrara compaixão, o filho mais velho (o fariseu, nós) mostra ira. O fariseu é o homem zeloso pela justiça divina; o guardião da ira de Deus... Não aceita que esta ira não tenha sido descarregada sobre o filho mais novo, um dissoluto; não aceita que o pai tenha relaxado a sua justiça, expressando bondade para com o pecador. À ira junta a inveja e o ressentimento. Enquanto o filho mais novo era o preferido, o pupilo do Pai ele não passava de um simples empregado cuja fidelidade nunca tinha sido reconhecida. O Pai nunca tinha lhe dado sequer um cabrito, o gado mais insignificante da fazenda, para que ele pudesse festejar com os amigos. Enquanto isso aquele irmão dissoluto e pervertido ganha o que há de mais precioso: o bezerro gordo. Movido pelo espírito de vingança, de reivindicação e da sua “justiça” omitida, tudo isso é lançado desaforadamente na cara do pai.
  1. Alegria que brota da reconciliação
O que Jesus proclama em fórmula de parábola, a Igreja atualiza pela pregação e pelo sacramento da reconciliação e da eucaristia. Por isso, na 2ª leitura de hoje, São Paulo chama o Evangelho, a Boa Nova de Jesus, de “anúncio da reconciliação”: “lógos tes katallages”. Esta mensagem é de tão grande importância que nesta breve leitura por cinco vezes ele usa o verbo “reconciliar” ou seu substantivo “reconciliação”.
Na obra da reconciliação, porém, não há nenhuma simetria entre Deus e os homens, pois tudo isto vem de Deus que nos reconciliou consigo por Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação (2Cor 5,18). Além do mais, Paulo não se contenta em anunciar o fato. Importa, também, que vejamos como isto se deu: “Aquele que não conhecera pecado, por nós, foi feito pecado, para que nós nos tornássemos justiça de Deus n’Ele” (2 Cor. 5, 21). Ou seja, o Pai em vez de imputar aos homens suas faltas (cfr. 2 Cor 5, 19) Ele as imputa a Si. Assim, o inocente é tratado como culpado e os culpados como inocentes. A maldição que deveria cair sobre todos os homens, cai sobre o Filho bendito, o bezerro gordo. O bendito se torna maldito para que os malditos se tornem benditos. Eis o “lógos tes katallages”, o princípio, a origem de uma nova relação do homem com Deus, dos homens entre si e destes com todas as criaturas (Cf. Campanha da Fraternidade)
Em Adão, o homem morre. Em Cristo, ele vive (cfr. 1 Cor 15, 22). Adão, o primeiro homem, a velha humanidade. Jesus o homem novo, a nova humanidade.
Conclusão
Perguntado porque nosso tempo precisa tanto de misericórdia, nosso papa respondeu: “Porque nossa humanidade é uma humanidade ferida, uma humanidade que possui feridas profundas” (“O nome de Deus é misericórdia” p. 45)
São Francisco, por sua vez dizia a um Ministro: “Não deve haver no mundo irmão que tenha pecado até não poder mais que, após ter visto teus olhos, nunca se afaste sem a tua misericórdia” (CM 9).
Marco Aurélio Fernandes e Frei Dorvalino Fassini

1 "Alegra-te Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais; vós que estais tristes, exultai de alegria! Saciai-vos com a abundância de suas consolações" (Cfr. Isaías 66, 10-11)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Pistas para homilia


 3º Domingo da quaresma

28/02/2016
Pistas homiléticas
Liturgia da Palavra: Ex 3, 1-8a. 13-15; Sl 102 (103); 1Cor 10, 1-6. 10-12; Lc 13, 1-9
Tema-mensagem: Chamados a uma conversão contrita e frutuosa
Imagem-cena: Moisés diante da sarça ardente
Sentimento: Dor e sofrimento porque não amamos aquele que muito nos amou.

Introdução:
Neste 3º domingo da Quaresma celebramos, de novo, um dos mais expressivos e queridos mistérios da Quaresma e da vida cristã: a graça da conversão. Mas, hoje, com um colorido próprio: uma conversão contrita a frutuosa. Para isto precisamos contemplar com Moisés a manifestação do Deus de nossos pais no misterioso fogo da sarça ardente e a parábola da figueira improdutiva, inútil.
  1. Um Deus cujo nome é misericórdia
Diante de um encontro tão inaudito com o Deus dos seus patriarcas – Moisés, experimenta aquele misto de temor e de fascínio que avassala todo homem que se encontra com o Deus vivo e verdadeiro: “mysterium tremendum” (mistério que aterroriza) e, ao mesmo tempo, “mysterium fascinans” (mistério que fascina)1. De um lado temor e por isso desejo de afastar-se; por outro lado o fascínio de um Deus “adveniente”, próximo, familiar e convidativo, leva Moisés e todo fiel ao anseio da aproximação, da intimidade. Há uma advertência, porém. É preciso “tirar as sandálias”, isto é, “não botar as mãos”, não querer se apossar, se adonar do mistério. É preciso deixar-ser o mistério enquanto mistério: mistério de gratuidade, mistério de amor, mistério de um “outro” que se nos torna íntimo, mas que, sempre de novo, se nos escapa, na sua transcendência, sempre um “outro”.
Se no primeiro caso o homem percorre o caminho da morte, deixar ser o mistério enquanto mistério é sua vida. Somente seguindo esta exigência de entrar na esfera do encontro seguindo o “ductus”, a condução, da gratuidade, que deixa-ser o mistério enquanto mistério, é que o homem pode encontrar-se com o Deus dos seus (nossos) Pais: de Abraão, de Isaac e de Jacó.
Por isso, nenhum predicado jamais diz Deus. Deus está acima de toda afirmação e de toda a negação: Deus é o inominável. Seu nome é inefável. Por isso, depois, os judeus em vez do tetragrama (YHWH) passaram a falar Adonai, isto é, Senhor (Kyrios, em grego)2. Agostinho, comentando esta passagem, notava que havia ali um duplo nome de Deus. O primeiro é o nome da eternidade – “eu sou quem sou” – que acena para Deus como o ser originário, o ser mesmo (ipsum esse), isto é, para o ser imutável de Deus, o seu puro ser, que nada tem de não-ser. O segundo é o nome da misericórdia – Eu sou o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó – o Deus que quer ficar próximo dos homens.
Mais tarde, quando Moisés suplica a Deus para ver a sua face, Iahweh lhe responde: “Farei passar sobre ti todos os meus benefícios e proclamarei diante de ti o nome de “Senhor” (Jahweh) ”. E acrescenta o sentido deste nome: “Concedo minha benevolência a quem concedo benevolência e faço misericórdia a quem faço misericórdia”. Podemos arriscar uma interpretação a modo de paráfrase: meu ser é meu atuar e meu atuar é amor: benevolência e misericórdia gratuitas, benevolência e misericórdia para valer. Em seguida, depois que Moisés proclama o nome de “Jahweh”, o Senhor passa diante dele, proclamando: “O Senhor, o Senhor, Deus misericordioso e benevolente, lento para a cólera, cheio de fidelidade e lealdade (...)” (Ex. 34, 6).
Também o salmo de hoje faz ressoar a mensagem da misericórdia: “O Senhor é clemente e cheio de compaixão”
  1. Mais um prazo para a figueira improdutiva e inútil
Se, de um lado, “Eterna é a misericórdia do Senhor”, se “sua misericórdia permanece de geração em geração”, por outro lado o prazo para o homem aceitar esta graça e deixá-la atuar em sua vida com toda a sua fecundidade, produzindo dignos frutos de penitência (conversão do coração) é limitado. Daí a urgência que domina o momento presente para aquele que ouve o anúncio do Evangelho de Cristo. Esta urgência põe o homem diante de uma decisão, isto é, põe o homem no meio da crise, da cisão, de uma alternativa: ou isto – ou aquilo. Ou converter-se ou deixar-se perecer.
A Jesus, no Evangelho de hoje, são anunciados dois acontecimentos dramáticos recentes. Um retrata a repressão violenta e sangrenta de um movimento de galileus rebeldes por parte de Pilatos. O outro diz respeito a um acidente: a queda da torre de Siloé, que matou dezoito pessoas. A interpretação daqueles “jornalistas” não podia ser mais maldosa, perversa, endurecida e cruel: estas pessoas que morreram assim, por violência e por acidente, eram pecadoras, e foram, por meio destes acontecimentos, castigadas por Deus. Eles, porém, escaparam da ruina porque eram justos.
Jesus adverte-os para não fazerem tal discriminação: os outros – pecadores; nós – justos. Todos são pecadores e todos precisam tomar a sério o tempo de vida que ainda têm como um prazo – o último – para se converterem de todo o coração. A mesma mensagem está implícita na estória da figueira plantada no meio da vinha. Para Agostinho, esta figueira é toda a humanidade. Desde que Adão e Eva se cobriram com folha de figueira, todos são pecadores. Mas, em todos os tempos, antes da Lei, sob a Lei, e depois da Lei, isto é, na era do Evangelho da graça, Deus concede aos homens o tempo “oportuno”, como um prazo para produzir frutos de penitência (de transformação do coração, de revolução do pensamento, de mudança de vida, de retorno para Deus).
Segundo Gregório Magno o homem que não dá frutos de boas obras (obras de justiça e de misericórdia) é semelhante à figueira do Evangelho. Neste caso ele ocupa a terra como uma árvore infrutuosa, morta. No homem pior que o perecimento físico-biológico é o perecimento de sua criatividade, de sua liberdade criativa consigo mesmo, com a própria terra e a Casa de todos. O homem pode continuar existindo sobre a terra, e, ao mesmo tempo, aniquilar a humanidade em si, tornando-se cada vez mais o homem desumano, o homem inumano. O Evangelho, porém, é anúncio da possibilidade da salvação, e, com isso, anúncio da possibilidade do homem humano e mais que humano.
“Jesus”, cujo nome significa “Jahweh salva”, é o homem humano, a árvore boa, frutífera, que revela e abre a todos os homens, de todos os povos e gerações, o caminho para virem a ser aquilo que eles, essencialmente, podem ser, isto é, virem a ser homens humanos.
  1. A contrição adubo da conversão contínua
Os padres da Igreja explicavam que cavar ao redor da figueira queria dizer a contrição, que desfaz a rigidez e a dureza do coração, do homem que acha que não precisa de misericórdia; e que o esterco que se lança ao redor da figueira é a humildade. O esterco é o que há de mais vil e desprezível. Mas quando o homem o atribui a si mesmo – e não aos outros – então este reconhecimento do mal radical em si mesmo acaba se tornando um bem e um grande bem para o homem. É o começo de sua conversão. A figueira começa a dar frutos.
Também Paulo na 2ª leitura chama a atenção dos cristãos de Corinto, para que não se deixem perder pela presunção de serem os ‘justos’, os ‘bons’. O ser batizado em Cristo, o comungar com ele comendo de uma comida espiritual e bebendo de uma bebida espiritual, não é garantia contra o perecimento. Os hebreus que andaram pelo deserto, seguindo Moisés, não foram, também eles batizado (na nuvem, no mar)? Não tiveram também eles a sua ceia sagrada (comeram o maná, bebido da água do rochedo milagrosamente jorrada pelo golpe do cajado de Moisés)? E, no entanto, por causa de sua incredulidade, de sua murmuração, ficaram de fora da terra prometida. Pouco ou nada adianta ser católico praticante, diríamos, hoje.
A contrição3 é o passo inicial no encontro do homem com Deus. Como Pedro diante de Jesus, após a pesca milagrosa, o homem que se encontra diante de Deus deve dizer: “afasta-te de mim, porque sou um pecador, ó Senhor” (Lc 5,8). O confrontar-se com a santidade de Deus em Cristo dá-me a consciência de ser pecador. A consciência de ser pecador traz dor. Mas é uma dor salutar. A dor do coração, que faz o homem se recolher no fundo de si mesmo, e, ao mesmo tempo, buscar o médico, que pode reconduzir a vida à salvação, isto é, à saúde originária. A dor, a contrição é o princípio, a força “não-força” que move o seguidor-evangelizador de Cristo.
O homem deve poder rejeitar o pecado em si mesmo. Mas deve também ter a coragem de aceitar que é aceito por Deus, mesmo na sua condição de pecador. A verdadeira penitência requer não só repudiar o próprio pecado, mas também abandonar a autoafirmação de si, quer como pecador desesperado (cfr. Judas), quer como o justo que não necessita de conversão (cfr. a figura do fariseu nos evangelhos). A verdadeira penitência é, assim, uma atitude de humilhação, no sentido de reconduzir-se ao vigor própria da humildade. É também uma atitude de esperança, de confiança na misericórdia divina.
Conclusão
A verdadeira e perfeita penitência é obra do amor e não tanto do temor. Os evangelhos nos dão belos exemplos disso: Pedro (após a negação do mestre) e Madalena são dois destes. A contrição, aqui, é a dor que brota no coração daquele que experimenta não ser capaz de amar Aquele que muito nos ama (São Francisco).

1 Expressões de Rudolf Otto em seu célebre livro “O Sagrado”.
2 No Novo Testamento, na boca da Igreja primitiva, “Kyrios” (Senhor), é o nome usado para invocar e glorificar a Jesus. Assim, Estêvão, ao ser apedrejado, na hora de sua morte, faz a seguinte invocação: “Senhor Jesus (Kyrie Iesoû), recebe o meu espírito” (At 7, 59). E, em seu aperto escatológico, os primeiros cristãos invocarão em aramaico, a língua que Jesus falava: “Marana thá” (Nosso Senhor, vem!) (Cfr. 1 Cor 16, 22). Com “Kyrios” (Senhor), a Igreja primitiva atribui a Jesus o próprio nome de Deus revelado a Moisés na visão da sarça ardente – uma confissão que, segundo Paulo, só pode ser feita “no Espírito Santo”: “ninguém pode dizer, Senhor Jesus, a não ser no Espírito Santo” (1 Cor 12, 3).

3 Resumo reinterpretado e completado do Capítulo 2 de “Nossa transformação em Cristo”, de D. von Hildebrand, intitulado “Contrição”. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

GRUPOS DE SÃO FRANCISCO


GRUPOS DE SÃO FRANCISCO!
Por que não?!

Vivemos uma época na qual proliferam os agrupamentos: “Grupos dos AAA”; “Grupos de jovens”; “Grupos de Casais”; “Grupos de dança”; “Grupos teatro”; “Grupos de pesca”; “Grupos de pagode”; “Grupos de corrida, de oração, de pesquisa”, etc., etc.
E por que não:
"GRUPOS DE SÃO FRANCISCO"?
Interessa-lhe?

A resposta está no livro: SÃO FRANCISCO DE ASSIS – CHAMADO E RESPOSTA.
O livro, porém não irá para as livrarias porque não será vendido mas oferecido.
Por isso a edição será limitada ao N° de exemplares reservados com antecedência.
O livro estará á disposição na segunda semana de março/2016.


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Pistas para homilia


 2º domingo da quaresma

21/02/2016
Liturgia da Palavra: Gn 15, 5-12. 17-18; Sl 26(27); Fl 3, 17- 4,1; Lc 9, 28b-36.
Mensagem ou Tema: A transfiguração de Cristo, princípio da transfiguração universal.
Imagem: Cruz levada em procissão e colocada num lugar de honra.
Sentimento: júbilo pela sonhada e desejada transfiguração do homem e da criação que se inicia com a Cruz.
Introdução
A quaresma é um tempo para, sempre de novo, aprender de Jesus a carregar a sua cruz como Ele aprendeu a carregar a nossa. Pois na Cruz está o princípio, a semente que deu origem à nova humanidade, à nova criação, denominada por São João como novo céu e nova terra. Graças a este princípio, também nós viemos a ser de fato “Filhos muito queridos do Pai!”
Para celebrar, de novo, este princípio e imbuir-nos da alegria e do vigor de sua presença e operação, eis o sentido da liturgia deste Domingo
  1. Um Deus sedento de aliança
O princípio deste princípio, porém, veio sendo preparado e conduzido dentro de uma longa história denominada “aliança abraâmica”, estabelecida outrora por iniciativa do Senhor com seu servo, o patriarca Abrão; uma aliança que perpassa todos os ciclos da história de Israel, recheada de fidelidades e infidelidades e que a conhecemos também como “Testamento” 1
O coração desta aliança, tem sua origem numa misteriosa afeição que leva Deus e Abrão a um encontro de profunda intimidade, identificação, comunhão e responsabilização; uma afeição celebrada através de um pacto e selada com um sacrifício recheado de júbilo e promessas: “Abrão teve fé no Senhor....” e o Senhor, por sua vez, promete-lhe não apenas terras e uma descendência tão numerosa quanto o número das estrelas, mas a condição de ser no mundo o seu servo.
Nós conhecemos um pouco as alianças políticas ou econômicas. Há, porém uma diferença enorme, substancial entre essas e a aliança abraâmica. Enquanto naquelas a prática é sempre salvar a economia, a política em detrimento das pessoas, na primeira, ao contrário, a preocupação e a paixão é sempre pelas pessoas. Por isso a SE busca outras imagens para expressar a riqueza da intimidade pessoal dessa iniciativa de Deus como, por exemplo o relacionamento Pai-filho (Jeremias) e Esposo-esposa (Oséias).
Por isso, reduzir a fidelidade e a obediência da aliança abraâmica a um cumprimento de obrigações meramente legais, como fizeram e fazem os fariseus de ontem e de hoje, a um frio e interesseiro mercantilismo religioso, corrompe e deturpa pela raiz essa que é a mais bela expressão de amor e de compaixão entre Deus e as pessoas.
  1. A Transfiguração de Cristo princípio da transfiguração da Humanidade e da Criação
A aliança antiga de Deus, iniciada outrora através de seu servo Abraão, precisava ser levada ao seu sumo, à sublimidade. Por isso e para isso “o Verbo de Deus se fez carne e veio morar definitivamente entre nós” (Jo,1,14). É dentro desse esforço que se dá o milagre da transfiguração.
O que outrora aconteceu no monte Tabor guarda um dos segredos mais significativos da vida de Cristo e de nós cristãos. Por isso, ele mereceu ser celebrado também com a festa da “Transfiguração do Senhor”, em 06 de agosto.
“Jesus subiu à montanha para rezar”. Isto se tornara um costume para Jesus. Mas, desta vez, havia um motivo especial: a proximidade da “Hora da Cruz”, a hora de sua “glorificação”. Mais do que nunca Jesus precisava do Pai. Isto significa que antes dos Apóstolos, quem precisa enfrentar a tentação e o escândalo de um Messias político, prestigioso e poderoso é o próprio Senhor. Antes que os Apóstolos, ele mesmo é quem precisava de iluminação, força, ânimo, fé e coragem.
Tanto Ele como os seus precisavam de fé e iluminação para assumir o que estava para acontecer; tanto Ele como os seus não podiam tropeçar de vez nesta hora decisiva; tanto Ele como os Apóstolos – a Igreja e nós - precisavam ser confirmados na fé de um Messias que se alia, se une ao homem pelo mistério luminoso, admirável, deslumbrante e fascinante da Cruz. A glória que brota do corpo de Cristo neste dia da transfiguração é a mesma que, escondida na tarde da sexta-feira santa, irromperá com todo seu esplendor na madrugada da Ressurreição. Era esse mistério que Ele e os Apóstolos deviam, precisavam ver, sentir e contemplar.
Assim, por uns instantes, foi dado a Jesus e aos seus amigos mais íntimos, saborear o princípio originário da nova Aliança, da nova criação: a Cruz, no âmago da qual se reflete o rosto de um Pai rico em misericórdia (Ef 2,4) que a todo custo deseja e tudo faz para viver e conviver com cada um de seus filhos muito amados.
  1. Os demais personagens da transfiguração
Complementam o milagre da transfiguração personagens da Antiga e da nova Aliança.
Da antiga temos Elias e Moisés. Ambos foram glorificados à medida que participaram da obra de Deus (Ex 34, 29-35; 2 Cor 3, 7-11) e voltaram para Deus de modo misterioso (Dt 34, 5-6; 2 Rs 2, 11-12). Eles prenunciam a glória definitiva, que será dada a todos os justos no mundo vindouro, glória que os mortais que cooperam na obra de Deus recebem por participação e que Jesus tem por natureza, enquanto Filho Unigênito do Pai (cfr. o prólogo de João).
Glória é brilho, esplendor que vem de dentro, da caminhada, da busca e do ser da pessoa. Moisés e Elias representam, segundo Tertuliano, o testemunho da Lei e dos profetas. Representam o que há de mais admirável e exemplar na luta pela fidelidade à Antiga Aliança por parte de toda a descendência de Abraão.
De que falavam Moisés e Elias? Marcos e Mateus não o dizem. Lucas diz: eles falavam a respeito do êxodo (Éxodos) de Jesus, A palavra grega “Éxodos” é traduzida para o latim como “excessus” e significa partida, saída, retirada, morte, abandono, afastamento. Depois, no famoso discurso de despedida, Jesus instrui os discípulos sobre a necessidade de sua partida, usando esta palavra “excessus”. Em outras palavras, Ele precisa sair deste mundo para que venha o outro Paráclito, o Espírito Santo. Moisés e Elias prenunciam, assim, a morte de Jesus. Não será uma morte-morte, mas um desaparecer, um desprender-se para viver de modo escondido (“Deus absconditus”). Enfim, será um perder cada dia sua vida para salvá-la.
Depois vêm os três Apóstolos. Pedro é aquele que confessou Jesus Cristo como o filho do Deus vivo, confissão que se tornou o fundamento da Igreja; aquele que foi escolhido por Jesus para ser o primeiro entre os Apóstolos (primus inter pares). Já Tiago foi o primeiro apóstolo a derramar o seu sangue como mártir em Jerusalém; e João, foi o discípulo amado e o teólogo do Verbo encarnado. As primícias da Igreja, portanto.
Segundo Lucas, Jesus, enquanto rezava mudou de aparência (Lc 9,29). Não é difícil ver nesta constatação, juntamente com a brancura fulgurante de sua veste, o sentido apocalíptico, isto é, o que vai acontecer com Jesus e com toda a humanidade. Diante dos seus discípulos, a sua forma humana, por um momento, se altera tomando o aspecto de um ser celestial, próprio do mundo transfigurado. É a antecipação e a garantia da realidade escatológica. É a manifestação do “filho do homem” e da glória de seu reino (cfr. Lc 9, 27). Nele está ancorada a esperança da salvação definitiva dos homens. A meta de seu caminho, através da paixão e da morte, está na glória da ressurreição, em que ele se apresenta como o consumador da obra da salvação da humanidade inteira e do universo inteiro com ela. Já agora Cristo, o Verbo (Lógos), é a luz que ilumina todo o homem, que vem a este mundo (cfr. o prólogo de João). Luz que tem seu brilho maior e definitivo na Cruz.
Conclusão
Fazer brilhar a glória, o júbilo da Cruz de Cristo, eis o coração de toda a evangelização cristã. Disto ela jamais deverá se envergonhar como nos alerta São Paulo: Já vos disse muitas vezes, e agora repito chorando: há muitos aí que se comportam como inimigos da cruz de Cristo (Fl 3,18). E nosso Papa: Sem a cruz podemos ser tudo: bispos, religiosos, papas, padres, mas jamais seguidores de Cristo, muito menos de Cristo pobre e crucificado (Cf. Homilia na santa missa com os cardeais, 14 de março de 2013).
Misericordes sicut Pater!”
Marcos Aurélio Fernandes e Frei Dorvalino Fassini.

1 A expressão b’rit hadashah foi traduzida para o grego como kainé diathéke, nova disposição, novo ordenamento, nova constituição; e, para o latim como “novum testamentum”: novo testamento. Os escritos que recordam a Nova Aliança de Deus com toda a humanidade, selada no sangue de Cristo, são reunidos no cânone da Igreja sob o título de Novo Testamento

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Pistas para homilia


Quarta-feira de cinzas

10/02/2916
Liturgia da Palavra: Joel 2, 12-18; Sl 50 (51); 2 Cor 5, 20 —6,2; Mt 6, 1-6.16-18
Tema: Quaresma: Tempo de penitência, de conversão
Mensagem: “Voltai para mim com todo o coração”, diz o Senhor
Imagem: Cartaz da campanha da Fraternidade
Introdução: O sentido da Quaresma

Desde o século IV, os cristãos adotaram o costume de preparar a festa anual da Páscoa com uma quaresma (Quadragesima), isto é, com quarenta dias de penitência, que imitam os quarenta dias de jejum que Cristo observou antes de iniciar sua vida pública. Por isso, desde sua origem, esse tempo vem caracterizado, essencialmente por um forte convite à penitência evangélica, uma penitência interior e exterior, individual e social, pessoal e comunitária. É dentro deste espírito que se criou, no Brasil, a Campanha da Fraternidade. Este ano a Campanha é ecumênica e o tema é ecológico: “Casa comum, nossa responsabilidade”. Já o lema é: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5, 24) ”.
Neste sentido, segundo Karl Rahner, precisamos, hoje de uma “revolução copernicana” na piedade moderna, isto é, perceber e experimentar que “o dia-a-dia de nossa vida está repleto de Deus e de sua graça”. A partir do Vaticano II o centro da vida cristã – o que vale dizer da vida de Cristo vivida num e por um cristão - se deslocou do templo, da igreja e da própria religião para as realidades humanas e sua história. Isso significa que hoje, não se pode mais ser cristão sem converter-se também para os irmãos e irmãs e todas as criaturas de nossa Casa comum, principalmente as mais injustiçadas, debilitadas e sofredoras.
Quem compreendeu bem a importância da penitência evangélica e da Quaresma foi São Francisco. Chegou a definir a vida cristã como “vida de penitência” (Testamento) e o grupo de irmãos reunidos ao seu redor de “penitentes”: os “Penitentes de Assis”. Estimava tanto essa penitência que chegava a fazer cinco quaresmas por ano. Foi numa dessas – a de São Miguel - que teve a graça de receber no próprio corpo os sagrados estigmas do seu Senhor.


  1. Voltai para mim com todo o coração
O caráter penitencial da vida não foi uma invenção de Jesus. Os judeus já conheciam os dias de jejum e penitência, principalmente em tempos de calamidades e decadências religiosas. Muitos eram os sinais desse espírito e dessa busca: rasgar as vestes, vestir-se de sacos, cobrir-se de cinzas e entoar lamentações nacionais. Os profetas, porém, insistiam para que todos esses gestos viessem da interioridade sincera de um coração contrito e humilde: “Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos” (Joel 2, 13a). Neste sentido, quem se volta inteiramente para Deus como o seu único e verdadeiro Senhor, não precisa de mais nada e de mais ninguém. Sua conversão virá acompanhada também da necessidade de um despojamento radical.
O Novo Testamento expressou o retorno para Deus com o clássico verbo “metanoein”, que tem o sentido de mudar de mente (nous)1, de revolucionar o próprio pensamento, de adotar outro modo de pensar e de sentir. A virada se dá, aqui, no interior do homem. A tradição tem vários modos de chamar este interior invisível, âmago velado: ápice de sua mente (Boaventura), fundo da alma (Eckhart), coração (Bíblia/Pascal). Quer dizer que aquilo que o homem tem de mais nobre em seu ser sofre uma guinada para Deus e, com isso, todo o seu ser, sua inteira existência, vira de volta para Deus. Daí a insistência de Jesus: “convertei-vos e crede no Evangelho”. Em Jesus, porém, a conversão está sob a égide não da severidade e da ameaça da Lei, mas da alegria do Evangelho, isto é, da presença do próprio Deus: o Deus-conosco. Por isso o arrependimento e a conversão, em Jesus, mais do que uma questão de remorso e de temor servil (attritio)2 é uma questão de um pesar amoroso e de uma veneração filial (contritio)3. O cristão não ama a Deus porque o teme, mas se o teme é porque O ama (S. Francisco de Sales).
  1. Eis o tempo favorável
A Quaresma, porém, antes de um tempo de quarenta dias é um sinal de que toda a vida deve ser vivida em espírito de penitência evangélica. É por isso que São Paulo convida os cristãos: «Reconciliai-vos com Deus. Este é o tempo favorável». Para Paulo, a penitência, a conversão, o retorno do homem para Deus, é um renascimento. É morrer com Cristo, para ressuscitar com Ele, e, assim, tornar-se uma “nova criatura”: “se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. O mundo antigo passou, eis que aí está uma nova realidade” (2 Cor 5, 17), diz ele no mesmo contexto da segunda leitura de hoje.
  1. O Pai que vê o que está oculto será tua recompensa
Como para os antigos profetas, também para Jesus o centro da penitência é o esforço de abrir-se para o Senhor que vem ao nosso encontro no outro que está ao nosso lado para que nós lhe lavemos os pés. Por isso em seu famoso Sermão da Montanha não diz que o homem deve praticar a esmola, a oração e o jejum – obras que todo homem deve fazer por ser homem -, mas como deve fazê-lo, isto é, de modo limpo, humilde, isento de qualquer outra intenção senão o puro bem-querer, sem nenhum “porquê”, nem “para quê”. Qualquer outra busca que não seja abrir-se para o Pai “que vê no segredo”, vem do mal da vanglória.
Por isso, Nosso Senhor, com as indicações da perícope evangélica de hoje, quer matar este mal pela raiz – eliminando-o no seu nascedouro: no desejo de aparecer e de parecer bom, de parecer justo, aos olhos dos outros e de si mesmo – o que Jesus chama de “hipocrisia”. Hipócrita é aquele que simula, que finge: que quer aparecer e parecer como aquilo que ele, no fundo e na verdade, não é. O contrário da hipocrisia e da vanglória é a humildade: quando o homem aparece na verdade daquilo que ele é diante de Deus.
Assim, a Quaresma é um tempo, uma caminhada que nos leva a reconhecer e a aprender uma lição que devemos seguir todos os dias, em tudo e com todos: que todo o bem e todo o carisma provém de Deus e que, por conseguinte, de tudo o que temos ou somos de nada podemos gloriar-nos. Por isso, tornou-se praxe na abertura da Quaresma recordar ao cristão os três grandes exercícios penitenciais da tradição cristã: a esmola, o jejum e a oração.
A oração porque nos leva a libertar-nos de nós mesmos e a abrir-nos para Deus. O jejum porque nos liberta da busca da autossatisfação piedosa e nos coloca no seguimento de Cristo pobre e crucificado; um seguimento no qual o mais importante não é a aceitação do sofrimento que nós mesmos nos impomos, mas que vem gratuitamente dos outros ou dos acontecimentos da vida. O mesmo diga-se da esmola que deve ser feita gratuitamente ao ponto de a mão esquerda não saber o que faz a direita.
Há em cada um desses três exercícios um único e mesmo espírito: o despojamento do centralismo do eu da própria subjetividade. Assim, aos poucos o fiel não dirá mais ”eu sei”, mas o Senhor sabe, “eu faço”, mas o Senhor faz, “eu quero”, mas o Senhor quer, “eu posso”, mas o Senhor pode.
Conclusão
A exemplo de Jesus e Francisco que se retiravam do público para estarem bem próximos da fonte que é o Pai e assim poderem estar também bem unidos e próximos dos homens e das criaturas acolhamos mais esta Quaresma com muita gratidão e alegria.
Marcos Aurélio Fernandes e Frei Dorvalino Fassini.

1 A palavra “nous” vem da raiz “snu”, que tem a ver com farejar. Quer dizer: ter o sentido dirigido a. “Nous” significa, assim, a percepção espiritual, a apreensão intelectual do sentido de ser, o pensamento, portanto. Os medievais traduzem ora por “mens” (mente), ora por “intellectus”. É a disposição receptiva à manifestação do ser, à verdade. “Nous” diz, também, “insight”, vislumbre das possibilidades de ser, inventividade, portanto. Também tem a ver com a consciência (syneidesis), isto é, com o saber de si por parte do homem no tocante à sua orientação total na vida. Pode ser, portanto, teorético ou prático. É o mais elevado no homem, o mais nobre, o divino no homem. Equivale ao que a Bíblia chama de “kardía” (coração): o centro pessoal do homem, para onde converge todo o seu viver, e de onde emana todos os seus pensamentos, suas palavras e ações.
2 Arrependimento imperfeito.

3 Arrependimento perfeito. 

sábado, 26 de dezembro de 2015

Pistas para homilia

SAGRADA FAMÍLIA DE JESUS, MARIA E JOSÉ


Liturgia da Palavra: Eclo (Sirac) 3, 3-7.14-17ª; Sl 127 (128); Cl 3, 12-21; Lc 2, 41-52
Tema: “Sagrada Família de Jesus, Maria e José”
Mensagem: Essa é a grande missão da família: fazer lugar para Jesus que vem, receber Jesus na família, na pessoa dos filhos, do marido, da esposa, dos avós, porque Jesus está aí (Papa Francisco).
Imagem: A Sagrada Família: Jesus, Maria, José.

Introdução:
Logo após ou melhor dentro do Natal a Igreja celebra a “Sagrada Família de Jesus, Maria e José”. Esta é a primeira realidade humana na qual Cristo quer encanar-se: a família.
Neste ano, nossa celebração não pode deixar de levar em conta o júbilo de um novo Ano Santo e o recente Sínodo dos Bispos. Ambos nos convocam para contemplarmos o “Rosto da Misericórdia” de Deus nosso Pai: Jesus Cristo”. Ele deve ser o modelo desta Igreja. Uma Igreja que pode ser comparada, segundo o Papa, a um “hospital de campanha”, isto é, lugar de acolhimento e cuidado para os feridos e não “cidadela privilegiada” para os fortes que permanecem ilesos da luta da vida num mundo em que a fragilidade do humano e das suas instituições, inclusive e principalmente a família, se torna cada vez mais um apelo à misericórdia.
Meditemos, pois, a mensagem que a Palavra de Deus nos traz nesta festa.
  1. Jesus a porta da casa do Pai
O primeiro anúncio de Jesus no Evangelho de Lucas é uma pergunta-resposta “Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai? ” (Lc 2, 49). Em grego, literalmente, o texto diz: “não sabíeis que é necessário para mim estar no meio das coisas de meu Pai?” Sua vida toda é um estar na proximidade e no abrigo, sim, na morada, junto ao Mistério fontal da Gratuidade, do Pai. Os interesses do Pai são os seus interesses, do início ao fim de sua vida. Viver é, para Ele, cuidar destes interesses. A última palavra de Jesus, no mesmo evangelho de Lucas, tem o mesmo sentido de entrega. Do alto da Cruz, “Jesus deu um grande grito; ele disse: ‘Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito’. E, com essas palavras expirou” (Lc 23, 43).
Jesus, pelo mistério da encarnação, se tornou o “primogênito entre muitos irmãos”, ou seja, todos os homens, nele, foram acolhidos pelo Pai como seus filhos, constituindo, assim, uma única família. Assim, “a todos os que O receberam deu-lhes a autoridade de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1, 12). Estes não nascem do sangue, nem de um querer carnal, nem de um querer humano espiritual, mas nascem de Deus mesmo, da sua gratuidade (cfr. Jo 1, 13). A vida de Jesus toda se desenvolve e se desdobra, então, em “estar no meio das coisas que são do seu Pai”, ou seja, em estar e caminhar no meio dos homens (Jo 1, 14), como junto a irmãos, no cuidado da família de seu Pai. Por isso, no evangelho de Marcos, quando sua mãe e seus parentes o procuram, ele diz: “ ‘Quem são minha mãe e meus irmãos? ’ E, percorrendo com o olhar os que estavam sentados em círculo à sua volta, disse: ‘Eis minha mãe e meus irmãos. Todo aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã, minha mãe’” (Mc 3, 33-35).
O Evangelho é, pois, uma novidade para todos os homens. É uma mensagem plural, inclusiva e universal: a Alegre Mensagem da Paternidade de Deus e da filiação concedida como graça a todos os humanos. Esta é a realidade última, definitiva e absoluta, à qual Jesus se dedica, como estando “no meio das coisas que são do Pai”: a Alegria dos homens.
Nesse sentido, quando o Evangelho diz que Jesus “subiu a Jerusalém” (Lc 2, 42) e “desceu a Nazaré” (Lc 2, 51) talvez não esteja falando num sentido apenas físico e geográfico, mas dando-nos um ensinamento existencial, espiritual: o da humildade cristã. A encarnação nos ensina a nos encarnarmos, também nós, no mistério da pequenez da vida humana terra a terra, dia a dia. Isto é seguir Cristo na via régia da humildade.
  1. Jesus Maria e José, princípio do matrimônio cristão
O Matrimônio cristão – que, assim como o celibato apostólico e evangélico, é “por causa do Reino dos Céus” – não tem outro princípio e outra lei do que o Amor-Caridade: “Amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, também vós amai-vos uns aos outros” (Jo 13, 34). Este mandamento é incumbência e é graça. Assim como, em Caná, Cristo transformou a água em vinho, assim também, no cotidiano do matrimônio cristão, ele transforma o amor humano natural, carnal, psíquico, no amor-gratuidade, gratuito, espiritual, pneumático, descrito por Paulo como o carisma mais elevado do Espírito Santo e a via mais excelente da vida cristã (1 Cor 13).
Maria e José aceitaram, no amor-gratuidade, a missão de serem mãe e pai (cuidador, protetor, educador) de Jesus. Nesta aceitação, mostraram uma disponibilidade incondicional. O episódio do Evangelho de hoje mostra o cuidado diligente e a disponibilidade incondicional com o qual eles se deixaram incumbir da missão da paternidade e maternidade daquele Menino, em cuja fragilidade se dava e se ocultava, ao mesmo tempo, corporalmente, isto é, realmente, e não só simbolicamente, a plenitude da divindade (Col. 2, 9). No mistério daquele Menino identificavam-se a pergunta humana e a resposta divina. Pergunta e resposta, que nascem da mesma fonte, a Sabedoria divina. Nele, o homem se fazia discípulo e perguntava. Nele, Deus se fazia mestre e respondia. Este Menino não fazia nenhum milagre. Ele era o milagre. Seus pais se admiravam d’Ele. Ele lhes era tão próximo e familiar, mas, ao mesmo tempo, era para eles o incompreensível: humilde sublimidade, sublime humildade, como dizia São Francisco de Assis. Em sua transcendência imanente e imanência transcendente ele escapava-lhes, fugia-lhes do alcance, apesar de que, em sua obediência e piedade filiais, Ele se lhes submetia. Maria e José pressentiam, vislumbravam, algo do Mistério do Menino, que era o Menino do Mistério. Ele se sabia proveniente de outra Origem, que não aquela terrena, familiar, conhecida, e queria permanecer junto, próximo, envolvido pelo Mistério da Origem, que ele evocava, em tom de intimidade pessoal, natural, desde a meninice, com o nome de “Pai”. Maria, discípula, esperava, no entanto, que o que estava em devir, se revelasse com mais clareza com o passar do tempo. Por isso, tentava relacionar o sentido dos acontecimentos que se davam em meio à vida da sua família. José, varão justo, por sua vez, se entregava ao mistério e se deixava guiar por ele, aceitando a incumbência de ser cuidador, protetor, educador do Menino. Tudo isso acontece desde a generosidade fontal do amor-gratuidade que neles tomava corpo e se fazia cuidado maternal e paternal.
Assim como no Natal Jesus se reveste e se sustenta na força da não-força que é a pura gratuidade do amor que é o Pai, a misericórdia, também o homem e a mulher que se unem em matrimônio se entregam nas mãos de Deus, fonte do amor e da vida. E Deus diz sim ao sim recíproco dos que, na coragem do amor, assim estão decididos. Deus se alegra com o júbilo dos esposos. Resolve toma-los como instrumentos de seu querer benevolente para com os humanos. “Deus diz realmente, e com incrível condescendência, sim para vosso sim; mas, enquanto Ele fizer assim criará ao mesmo tempo algo totalmente novo: Ele cria do vosso amor – o santo matrimônio” (D. Bonhoeffer)1.
O matrimônio é mais do que o amor conjugal. Ele é a nova criação da Graça regendo e recriando, dia após dia, o amor conjugal. Nesta nova criação, o casal deixa de mirar apenas à própria felicidade terrena, e passam a ser postos como responsáveis pelos homens, cuidadores deles, na grande família do Pai eterno. O amor do casal se torna, então, uma incumbência, e uma missão, que participa da missão do Filho na encarnação. Obra da graça, não é o amor que sustenta o matrimônio, mas o matrimônio que sustenta o amor conjugal. E Deus se faz fiador do matrimônio. Promete guarda-lo contra todo o poder do mundo, contra toda a tentação, toda a fraqueza humana. Basta que o casal a Ele se confie, deixe-se guiar por Ele, na abertura da obediência da fé, como fizeram, hoje, Maria e José. Assim, o casal cristão pode dizer: “nós não podemos mais ser perdidos um ao outro, nós pertencemos um ao outro pela vontade de Deus até morrer” (idem).
  1. Diferentes na unidade e unidos na diferença
O matrimônio cristão é uma comunhão “no Senhor”, assim expresso pelo Apóstolo Paulo: “Esposas, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor. Maridos, amai as vossas esposas e não as trateis com aspereza”. Este modo de dizer “no Senhor” resume tudo. Homem e mulher são iguais e são diferentes. Há uma igualdade na essência. É o sentido da exclamação de Adão na criação da mulher: “Eis, desta vez, o osso dos meus ossos e a carne da minha carne! Ela se chamará humana, pois do humano foi tirada” (Gn 2, 23). Homem e mulher são, no entanto, diferentes. Porém, sem detrimento desta diferença, são atraídos para a unidade e para a formação de uma identidade no amor: “Por isso o homem deixa seu pai e sua mãe para ligar-se à sua mulher, e se torna uma só carne” (Gn 2, 24). Com esta união, cria-se um lar. Neste lar, estabelece-se, então, a difícil tensão e o difícil equilíbrio da vida. Na dinâmica da vida e da convivência, toda a identidade precisa da diferença para se constituir. Por outro lado, “todo viver para e da vida tem de ser criativo de outras possibilidades de transformar igualdades numa dinâmica de identidade. A identidade não tira. A identidade dá a união das diferenças com a igualdade e vice-versa. Em toda união acontece uma comunidade recíproca de constituição entre igualdade e diferença. Para ser igual a igualdade necessita das diferenças tanto quanto as diferenças necessitam da igualdade para constituírem sua identidade” (E. Carneiro Leão). O amor é o que constitui a unidade dos diversos, a identidade dos diferentes, a igualdade dos desiguais. Mestre Eckhart diz: “Assim, deve ser um o teu amor, pois o amor não quer estar em nenhum lugar a não ser ali onde existe igualdade. Uma mulher e um homem são desiguais; no amor, porém, eles são totalmente iguais. Por isso a Escritura diz muito bem que Deus fez a mulher de uma costela, tirando-a do lado do homem, e não da cabeça ou dos pés” (Sermão 27).
Assim, a mulher é o primeiro outro do homem, mas um outro que é, na essência, o mesmo, isto é, a mesma natureza, a mesma essência: “o osso dos meus ossos e a carne da minha carne”. Assim, homem e mulher se encontram não como simples macho e fêmea, mas como pessoas, no face-a-face. O desafio é que se encontrem o homem humano e a mulher humana, como companheiros na viagem, que é a experiência da vida. Assim caminharam Maria e José, como companheiros, homem humano e mulher humana. A encarnação de Cristo veio nos ensinar isto – a sermos homens humanos e mulheres humanas. “No Senhor”, os cônjuges cristãos têm a graça de serem tais. “No Senhor” a vontade de dominação de um sobre o outro deve se converter na disponibilidade do serviço e do amor. “No Senhor”, para a mulher, servir ao marido não é uma vergonha, mas uma honra. “No Senhor”, para o homem, amar à esposa não é uma fraqueza, mas uma virtude, um vigor do ânimo. A ordem que surge na família que se reúne “no Senhor” não se constitui a partir da reivindicação do poder de dominação. Em Cristo, o poder sofre uma guinada: vira serviço. Por isso, “no Senhor”, marido serve à esposa, pais servem aos filhos, como Cristo , pela Encarnação, assumiu a forma de servo e deu , como lição da última ceia e da cruz, o exemplo do lava-pés. Na Cruz, o Esposo, Cristo, deu a vida à esposa, à Igreja, (nova humanidade). Que nasceu de seu lado ferido pela lança, como nova Eva (Vida) que procede do novo Adão (Humano).Assim, o “como Eu vos amei”, amai-vos uns aos outros” se põe como lei régia do matrimônio e da família que compartilha a vida comum “no Senhor”.
Conclusão
Nesta livre e terna disponibilidade dos cônjuges um para com o outro se consuma o amor terno que faz do lar um lugar de paz, quietude, amor e pureza, onde a felicidade e a bênção têm a sua morada, como o lar de Nazaré, onde o Menino Jesus crescia em sabedoria e em estatura, e em graça diante de Deus e dos homens” (Lc 2, 52).

1 “Sermão da cela para um casamento”. Em: Resistência e Submissão, p. 39 ss. 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Com São Francisco preparando-nos para o Natal


NATAL DO SENHOR

(MISSA DA NOITE)

Pistas para uma Homilia franciscana
Liturgia da Palavra: Is 9, 1-6; Sl 95 (96), 1-2a.2b-3.11-12.13 (R. Lc 2,11); Tt 2, 11-14; Lc 2, 1-14
Tema: Um Menino nos foi dado
Mensagem: Acolhendo o Deus Menino também nós temos a graça de tornar-nos meninos de Deus.
Imagem: Menino Jesus na manjedoura.
Rito: Beijo do Menino Jesus


Introdução: a Festa das festas
Toda vez que nasce uma criança uma nova luz se acende na mente e uma grande alegria nasce no coração dos pais, irmãos, vizinhos e (por que não?) de toda a humanidade. Não é só mais alguém que vem ao mundo. Todos nascem de novo.
Hoje celebramos de novo o Nascimento do nosso Deus feito Menino nascido em Belém. Por isso o salmista convida todos os povos à uma exultação festiva universal, católica, isto é, cósmica e ecumênica: “Alegrem-se os céus, exulte a terra, ressoe o mar e tudo o que ele contém, exultem os campos e quanto neles existe, alegrem-se as árvores das florestas [...] “Anunciai dia a dia a sua salvação, publicai entre as nações a sua glória, em todos os povos as suas maravilhas”.
É a Boa Nova, o “Euangelion”, a alegre Mensagem que os mensageiros celestes, anunciam aos pastores: “Não temais, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de Davi, um Salvador, que é Cristo Senhor”.
Para uma bela e frutuosa celebração desse mistério sigamos o exemplo de São Francisco que “Celebrava com inefável alegria, mais que todas as outras solenidades, a Natividade do Menino Jesus, afirmando que era a festa das festas, em que Deus, feito um menino pobrezinho, dependeu de peitos humanos” (2C n. 199).
  1. Um filho nos foi doado
O sublime e admirável do Natal, porém, não é apenas o nascimento de Deus, mas o nascimento de Deus no coração, na mente, isto é, no humano mais humano de todo homem não importando as condições (i)morais, (a)éticas, espirituais, céticas ou ateias de quem quer que seja. A única exigência é que sejamos homens de boa vontade, isto é, que nos deixemos mover por aquela centelha, a mais profunda do coração humano: o bem querer. Por isso diz o anjo: Não tenhais medo, eu vos anuncio uma grande alegria que é para todo o povo. Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor (v. 11) . Por isso, essa Noite é uma Noite feliz! Noite de Paz! De júbilo! Reconciliação e Misericórdia.
O Natal, portanto, diz respeito a todos os homens e a toda a criação (Cfe. “Laudato Si” do Papa Francisco). Ou seja, a partir dessa iniciativa de Deus, o homem e mesmo as criaturas todas são criadas de novo, agora, a partir do alto, do espírito, da graça misericordiosa de Deus. Pois, Ele se entregou por nós para nos resgatar de toda maldade e purificar para si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem (Tt 2, 11).
Há algo de inaudito nesse Dia: a criação toda, os homens todos, a exemplo de Maria, engravidam de Deus. Na nova humanidade, que é engendrada hoje, o Verbo prolonga sem fim o ato de seu nascimento e, pela força de sua imersão no seio do mundo [...] toda matéria agora é encarnada... (Teilhard de Chardin). A partir desse mistério dá-se uma revolução universal: Deus não é mais só Deus, mas Deus-humanado e o homem não é mais só homem, mas homem divinizado. Deus se faz Menino para que o homem se torne menino-Deus.
O primogênito de Maria (Lc 2, 7) torna-se também o primogênito de todas as criaturas (Cl 1, 15), isto é, o sentido e o fundamento do ser de toda a criação. Ele é, como dizia o teólogo franciscano João Duns Scotus, o “summum opus Dei” (a suma obra de Deus). Ora, o responsável pela suma obra, pela obra perfeita de Deus, dizia ele, não pode ser o pecado, que é um defeito da criatura, mas só pode ser o amor absolutamente livre e gratuito, superabundante, sem porque nem para quê, de Deus: o mistério da “Cháris”: da graça, quer dizer, do favor livre, imerecido e indevido, da benevolência, da gratuidade e da graciosidade do Deus Amor.
Poderíamos também dizer: o mistério da misericórdia (Tito 3, 5), isto é, do amor visceral, entranhado, de Deus pelos humanos. Por isso, hoje ouvimos a leitura da Epístola de Paulo a Tito, que diz: “Manifestou-se a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens” (2, 11). Desde o advento de Jesus Cristo na carne de nossa humanidade, toda a história humana aparece envolvida na história da salvação divina. A sua obra de salvação é obra do amor gratuito e gracioso de Deus pelos homens, fruto da benevolência (cháris) do Pai. Jesus Cristo, o Ungido pelo Espírito Santo, é o “Euangelion”, a Boa Notícia desta benevolência, o rosto da misericórdia (MV), do amor entranhado, visceral, terno e apaixonado, de Deus Pai pelos humanos.
O evangelista diz não apenas que um menino nasceu para nós, mas, também, que um filho nos foi dado. Isso significa que de pouco me adiantaria celebrar o Natal se eu não permitisse que a geração do Menino Deus (o Filho de Deus) em mim fosse se consumando dia após dia.
  1. Um Menino nascido em Belém e deitado numa manjedoura
No Menino de Belém se manifesta a humanidade, quer dizer, a humildade de Deus, que rege, servindo a tudo e a todos. O Deus humanado, o Menino de Belém, assume a nossa carne, e oferece a si mesmo, sim, seu corpo, como pão. Não é à toa que “Belém” quer dizer “casa do pão”. Por isso, ele está reclinado numa manjedoura. Cada homem que o acolhe – que recebe o seu corpo oferecido como pão – se torna “Belém” (casa do pão), dizia Beda, o Venerável. Ele, em sua simplicidade, humildade e pobreza, não aparece revestido de púrpura, mas de panos pobres, para que nós sejamos investidos e revestidos da dignidade de filhos de Deus. Dizia Mestre Eckhart que, se um rei se casa com uma plebeia, toda a sua família se torna nobre. Nós, isto é, toda a família humana, fomos enobrecidos e enriquecidos pela pobreza de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Maria enfaixa o seu filho. Ele se deixa “enfaixar”, “atar”, por amor de nós, para nos trazer a verdadeira liberdade. Ele aparece enfaixado como um morto, isto é, ele assumiu a nossa mortalidade, para nos conceder a imortalidade. Maria reclina o seu filho numa manjedoura, numa cocheira, onde se alimentam o burro e o boi. Ele, vindo “inaparente”, no silêncio e na humildade, quase não é reconhecido pelos homens. O boi e o burro reconhecem o seu dono, mas os homens custam a reconhecer o seu Senhor. É que Ele aparece no brilho e no esplendor da pobreza, na finitude e fragilidade de nossa condição humana. Em vez de nascer num berço de ouro e de poder, o Rei do céu e da terra, nasce numa manjedoura, num presépio, dependendo de peitos humanos.
São Francisco ficou enternecido e apaixonado pelo mistério da Pobreza de nosso Deus. O livreto intitulado “Sacrum Commercium” contempla a dignidade dessa Pobreza. A união pessoal do Filho de Deus com a nossa natureza humana é recordada, então, como núpcias de Deus conosco (SC n. 6). A Pobreza é exaltada e homenageada como “esposa fidelíssima de Cristo”, que esteve com ele, do ventre da Virgem Mãe e do Presépio até a Cruz. A “Senhora Pobreza” aparece, então, como o Amor-Misericórdia, que foi “revelado em pessoa no modo de ser de Jesus Cristo, pobre e humilde” (Fontes Franciscanas, Mensageiro de Santo Antônio, p. 869). “Ela é benigna, silenciosa e imensa, como o Céu e a Terra; ela abraça cuidadosa e benignamente a caminhada da passagem íngreme e estreita, cheia de perigos e aventuras, do Encontro de Amor da nossa finitude mortal com o Amor que nos amou primeiro. Amor infinito que se faz finito, recolhido, ocultando-se na gruta da Senhora Pobreza, como o Natal de um Novo Céu e Nova Terra” (Fontes Franciscanas, 869-870).

  1. Um anjo apareceu aos pastores vigilantes
O Natal de Deus é silencioso e sub-reptício. Ele acontece no fundo do coração daqueles que, como os pastores, vigiam na calada da noite. Vigiar, significa estar atento para não se permitir a substituição do Natal do Menino pobrezinho nascido da pobrezinha Virgem Maria (2C199) por tantos outros Natais, muitas vezes inventados apenas para satisfazer uma “espiritualidade” de consumo de “vivências” ou para acalmar a má consciência em face à miséria e à injustiça como o “Natal dos meninos de rua”, o “Natal dos velhinhos esquecidos nos asilos”, o “Natal dos presidiários” o “Natal dos desempregados”, o “Natal do Papai Noel”, o “Natal da família” etc. ou, pior ainda pelos “Natais de comilanças”, etc.
Que São Francisco de Assis seja nosso exemplo. Quando inventou o presépio em Gréccio, tinha em mente deixar que este mistério em sua força nativa, estranha, impregnada de simplicidade, pobreza e humildade, fosse recordado e redespertado nos corações dos próprios cristãos. Foi o que aconteceu. Diz-nos Tomás de Celano: “A noite ficou iluminada como o dia: era um encanto para os homens e para os animais. O povo foi chegando e se alegrou com o mistério renovado em uma alegria toda nova” (1C n. 85).
No entanto, hoje, o próprio presépio tem estado como uma evocação longínqua, embaçada, apagada, arriscando se tornar mais um simulacro do que um sinal, um “sacramento”, com sua força reunificadora. Num mundo dessacralizado, em que o homem perdeu sua vida simbólica, como deixar que se abra aquela fenda no rito para que nos bafeje o sopro sagrado que nos vem de “um Deus humano e Homem divino vindouro que sempre esteve conosco na finitude desprezada de um estranho Deus? ” (Harada)1. Talvez seja preciso redescobrir, no santuário do fundo de nossas almas, o “meio-silêncio”, a “noite-alta”, em que o Filho de Deus quer nascer em nós. Pois, como dizia Orígenes, um dos padres da Igreja, retomado por Mestre Eckhart (Sermão 101): “em que me ajuda que esse nascimento [do Filho de Deus em natureza humana] aconteça sempre, se não acontecer em mim? ”. É como se hoje disséssemos: de que me adianta celebrar o Natal todos os anos, se a geração do Filho de Deus em mim não for se consumando dia após dia?
Conclusão
Se a exemplo de Maria, José e dos pastores estivermos vigilantes e atentos ao silencio do mistério que envolve e sustenta as realidades que nos cercam haverá de acontecer também conosco o milagre que aconteceu no famoso “presépio de Gréccio” inventado por São Francisco.
Multiplicaram-se nesse lugar os favores do Todo-Poderoso, e um homem de virtude teve uma visão admirável. Pareceu-lhe ver deitado no presépio um bebê sem vida, que despertou quando o Santo chegou perto. E essa visão veio muito a propósito, porque o menino Jesus estava de fato esquecido em muitos corações, nos quais, por sua graça e por intermédio de São Francisco, ele ressuscitou e deixou a marca de sua lembrança. Quando terminou a vigília solene, todos voltaram contentes para casa (1C 86).



1 Em Comentando I Fioretti, p. 70.