sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Natal, de novo?

Escrever, de novo, sobre o Natal? Por acaso, há algo de novo, que ainda não foi dito escrito ou falado acerca desta Solenidade? Mas, também, por outro lado, por que querer coisas novas se as antigas é que são as melhores e mais verdadeiras? Ou melhor, novo não é aquilo ou aquele que nunca envelhece? Não é isso que afirma o Evangelho quando diz que o vinho velho é sempre o melhor (Lc 5,39)? Aliás, o próprio Evangelho, como Boa-Nova, não é, por acaso, concretização do antigo (eterno) desejo de Deus de fazer-se homem, começando por ser Criança, Deus-Menino?

Interessante é que o Latim chama menino de “infans”, isto é: aquele que não fala, não pensa, não quer, não pode, não sabe, não faz. Natal é, pois, a Festa do Deus que vem a nós como Aquele que não fala, não pensa, não quer, não pode, não sabe e não faz.

Natal, Deus-Menino, porém, não foi e nem é apenas um fato, acontecimento ou ocorrência. Em verdade, Jesus nunca deixou de ser Menino. Sempre foi um “infans”. Não só e muito mais! Veio inaugurar um novo Reino: O Reino dos homens-meninos, crianças: Se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, não entrareis no reino dos céus (Mt 18,1-5).

Ser “como”, aqui é igual a “de verdade”, “não fingido” ou “não de mentirinha”. Mas, o que é ser criança de verdade, não de mentirinha? É ser pra valer, no empenho e busca da mesma identidade, do mesmo modo de ser da criança. Mas, para isso é preciso virar, ser inteiramente outro, converter-se, renascer. Em outras palavras, celebrar o Natal, como mistério do Deus-Menino significa entrar e viver na dinâmica da criança. Por isso, disse também, o Senhor, na mesma ocasião, que, para ser criança, isto é, para converter-se para o novo Homem e assim ser o maior no Reino dos céus, é preciso humilhar-se como esta criança.

Isso significa que só é verdadeiramente adulto, grande, verdadeiramente homem, aquele que se tornar verdadeiramente “infans”. Mas, por quê? Por que o modo de ser da criança é ser todo doação plena, simples, cheia de generosidade humilde e natural da vida nascente. É a inocência da jovialidade do ser; é estar aí, aberto e contido na doação simples de si à doação generosa da vida, presente e borbulhante em cada acontecimento, criatura ou pessoa. Quem se empenha na busca deste modo de ser do pequenino, diz Jesus, é o maior no Reino dos céus.

O Natal não é, pois, sempre de novo, convocação deste e para este mistério? Mistério que nos pede para estar atentos aos acenos da Boa e antiga Nova do pequenino, da humildade da criança em cada criatura porque aí se encontra a semente da grandeza do Pai que nos amou por primeiro? Grandeza que aparece não como poder de dominação, mas sim como pobreza e pequenez da vida recém-nascida do presépio?

Criança, menino não é apenas uma etapa da vida, mas um modo de ser, um espírito que todo homem tem e deve cultivar. É o estado anterior ao pecado que Cristo veio re-criar e que agora está em cada um de nós de modo embrionário, como uma terra prometida, um tesouro escondido, o paraíso perdido à espera de trabalhadores e conquistadores.

Que no fundo de nossa humanidade mais íntima re-nasça, pois e sempre de novo, o menino, o Reino da inocência sem o qual não poderemos jamais entrar no reino dos céus! Pois, não diz o Senhor: Em verdade vos digo, se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, não entrareis no reino dos céus(Mt 18, 1-5)1? Eis porque sempre é bom, importante e necessário falar, escrever, de novo acerca do Natal e seu significado.

1 Cf. Fr. Hermógenes Harada, Coisas, velhas e novas, IFAN, 2006 p. 376.

[Frei Dorvalino Fassini, OFM]

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Por que não posso fazer Leitura Orante da Palavra

Reflexões a partir de uma carta do Ministro Geral Com a data de 23/03/08, recebemos de nosso Ministro Geral, Frei José Rodriguez Carballo, a carta “Guiados pela Palavra, mendicantes de sentido” (GPMS). Nela há uma exortação muito insistente para que nos exercitemos na Leitura orante da Palavra (LOP), lamentando que alguns frades resistam em adotar esse caminho de oração e leitura por julgá-lo um método próprio e exclusivo da tradição monástica1. E, para assegurar sua fervorosa exortação, cita abundantemente o documento Lineamenta2. Preciso confessar, porém, que me incluo entre os frades que não apenas resistem, mas que não fazem a LOP. E isso não por considerá-la uma prática monacal e medieval, mas por outras razões que pretendo expor neste artigo.
I. LEITURA DIVINA e LEITURA ORANTE DA PALAVRA
Comecemos com uma constatação acerca do nome. 
Tanto nosso Geral como muitos outros, hoje, misturam o nome, falando ora de LD ora de LOP, como se fossem a mesma coisa. Pode ser que às vezes seja. Há, porém, certa LOP que difere essencialmente da LD, como, por ex., a proposta pelos autores do livrinho “Leitura orante da Bíblia, Roteiros para reflexão XII” do CEBI3. Por isso, neste artigo sempre que falarmos de LOP estamos nos referindo a esse modo ou tipo de LOP.
A LOP, como aparece no livrinho citado e em outras publicações, tem como princípio ou ponto de partida o contexto ou realidade social, política, econômica e religiosa, seja do tempo do autor do texto sagrado, seja do leitor de hoje. Ou seja, a luz a partir da qual se procura ler e entender a Palavra de Deus procede de nossas aspirações, projetos, lutas e dificuldades. Tornou-se famoso, por exemplo, o triângulo ou tripé que envolve e sustenta essa leitura ou a Bíblia: comunidade, pessoa e sociedade, bem como seu princípio: Os pobres lêem a Bíblia a partir de sua Sociedade e de sua luta4. Notemos que o negrito não é nosso, mas sim dos autores.
Já a LD, como o próprio título diz, parte tão só e simplesmente do divino. Nisto está a diferença essencial entre a LD e a LOP5: enquanto a primeira parte de dimensão humana a segunda procura iluminar-se com a própria luz que inspira, conduz e perfaz o próprio texto, isto é, sua condição de ser divina.
Por isso, não há como percorrer o primeiro exercício sem um mínimo de conhecimentos sociológicos, políticos, econômicos, exegéticos, etc. Assim, enquanto a LD procede de dentro, do seu interior - o divino - a segunda se origina de fora, do exterior, de longe. Enquanto essa faz uma leitura direta e imediatamente comprometida, corpo a corpo com o espírito do texto, a primeira, a modo de jornalista que sobrevoa de helicóptero, fica pairando sobre o texto, examinando-o a partir de suas teleobjetivas. Na segunda, o leitor está dentro, envolvido e tomado pela palavra e seu mistério, enquanto que na primeira, ele, o leitor, é que envolve, tem ou mantém a palavra divina em seu poder e para seus projetos, interesses e benefícios. Não importa aqui se esses objetivos ou interesses sejam sumamente edificantes e mesmo espirituais, como muito bem afirma nosso Ministro Geral: um precioso instrumento que pode ajudar-nos a superar o abismo que muitas vezes percebemos entre fé e vida, entre espiritualidade e cotidianidade6.
Ora, nesse caso, está claro que não estamos mais diante de uma mera adaptação e sim de uma verdadeira transformação. Isso porque transformamos o texto divino em instrumento, meio ou recurso para nossos objetivos, realizações, santificação e conversão.
Assim, sem se aperceber, na LOP o leitor faz-se sujeito e agente da leitura (do texto) e essa(e) objeto de sua ação. Por isso, nesse caminho a leitura virá sempre com a marca da subjetividade ou objetividade de quem a faz ou pratica. Tanto faz se essa subjetividade ou objetividade é particular, singular ou grupal e coletiva.
Já no modo de processar-se da LD o que principia, conduz e orienta, do começo ao fim, é a dinâmica da gratuidade do encontro, essência de todas as páginas da SE. Nessa dinâmica o leitor não está fora, distanciado, acima ou abaixo do texto sagrado, divino. Na essência da LD está o caráter, a marca de ser divina. Mas, o divino desse texto não está, evidentemente, na materialidade das palavras, do texto, mas sim no fato de nascerem da experiência da liberdade do encontro, tanto do escritor como do leitor. Sem esse a priori não existirá jamais nenhuma LD. Na LD é como se o leitor lesse ou ouvisse acerca de si mesmo, a partir de si. Não, evidentemente, de sua subjetividade, mas sim do mistério do qual brota sua existência historial com sua vocação-missão.
Por isso, aqui, na LD, “divina” não é adjetivo, mas sua essência, o modo de ser que dá a marca própria desse exercício que se apresenta muito mais na pessoa que escreve, ouve, escuta ou lê do que propriamente no texto. A LD não é divina porque o objeto que se lê seja divino, mas sim pelo espírito que move escritor-leitor-texto. Logo, por simplesmente estar lendo um texto inspirado ou divino, não está garantido que se esteja fazendo LD. O contrário também pode acontecer. Posso estar lendo um texto profano, e até mesmo a-religioso, ateu ou materialista e, no entanto, estar no exercício da LD.
Além do mais, quando se tem como princípio orientativo a sociedade com suas lutas, etc. torna-se muito difícil, complicado e quase impossível para nós, isto é, para a maioria ou o comum dos frades, dos fiéis ou religiosos fazer LD. Pois, além de ser um caminho impróprio, a rigor, são muito poucas as pessoas que podem ter uma boa dose de conhecimentos sociais, políticos, econômicos, religiosos, exegéticos, historiográficos, etc.
Certos manuais ou roteiros da LOP pedem, também, que os orientadores sejam criativos na preparação do ambiente, que façam uso de roteiros e de subsídios previamente preparados por pessoas entendidas. O perigo é que, justamente, por causa de tudo isso aconteça o contrário: que se venha sufocar e perder o que de mais precioso temos e precisamos na LD: nossa criatividade ou abertura ao espírito, ao divino, ao inesperado. Por desenvolver-se na dinâmica do divino, que compõe e move o texto, a LD não é nenhum recurso para outras finalidades, nem mesmo para a evangelização, porque ela mesma é a própria Evangelização; não é, menos ainda, um meio para nos comunicar (com) Deus porque ela própria é o Logos, o Deus mesmo que se faz carne e habita entre nós7. Ela é, pois a fonte, a origem, a seiva do nascer, crescer e maturar de nossa nova existência, expressa com a já surrada palavra “cristã” ou “franciscana”. Isso porque essas palavras que costumamos chamar de “divinas” são de Deus mesmo, isto é, “genes”, sementes do Pai do céu, vivo e verdadeiro. É que na Sagrada Escritura as palavras, as frases, ou textos, os fatos, o tempo, etc. são realidades teológicas e não apenas cronológicas, geográficas ou sociológicas, etc.. Isso significa que não estão na dinâmica das ocorrências (coisas que “correm”, passam), mas de Deus, ou seja: atrás de cada uma delas está (“é”) Deus atuando e falando. São tentativas infinitas e às vezes quase que “desesperadas” ou “loucas” de Deus para encontrar-se com o homem, amá-lo e com ele fazer seu sacrum convivium.
Por isso, quem deve ditar o método de leitura desses escritos é sua natureza, pois diz São Paulo: Ninguém pode conhecer e saber o que há no homem senão o espírito que está no homem, e ninguém pode saber o que é o Espírito de Deus e o que há em Deus, senão o Espírito que é de Deus e é Deus8.
Nesse mesmo sentido é que se expressa também os Lineamenta: O Espírito é a alma e o exegeta da Sagrada Escritura, que é Palavra de Deus posta por escrito sob a sua inspiração (20). Ou seja, não há outro caminho para ler Deus senão “sermos Deus”, isto é, partindo da dinâmica, da graça do espírito de adoção que nos mereceu seu Filho fazendo também de cada um de nós seus filhos queridos.
Vale aqui o dito de Pascal, ao se falar das coisas humanas, diz-se que é preciso conhecê-las primeiro para então amá-las, o que se transformou em provérbio. Os santos, ao contrário, dizem que, ao se falar das coisas divinas, é preciso amá-las primeiro, e que só se penetra na verdade por meio da caridade, o que é uma das sentenças mais úteis9.
Nesse sentido, soa inteiramente em direção oposta o princípio apregoado pela LOP: Não se ama o que não se conhece10. No nível da Vida cristã e franciscana – como, também, no matrimonio – o verdadeiro é o inverso: primeiro existe o amor, a fé, a confiança que leva à necessidade do conhecimento. O mesmo assevera nosso grande São Boaventura ao ensinar o itinerário franciscano da mente para Deus: Se queres saber como isso acontece, interroga a graça, e não a ciência; ao desejo, e não a inteligência; o gemido da oração, e não o estudo dos livros; o esposo e não o professor; Deus e não o homem; a escuridão e não a claridade. Não interrogues a luz, mas o fogo que tudo inflama e transfere para Deus, com unções suavíssimas e afetos ardentíssimos11.
Textos divinos ou espirituais, portanto, só se compreendem se e quando nos dispusermos a fazer sua leitura a partir de dentro do mistério do encontro que conduz e perfaz o texto e toda a existência de todo vocacionado à vida cristã. É como nos vitrais de uma igreja. De fora, por cima ou de longe, nada se percebe ou se pode captar, nada encanta ou arrebata. É preciso tirar as sandálias, despojar-se de si mesmo. Coisas acima e maiores que nós não podem jamais ser compreendidas por mentes menores, como as nossas. Seria, mais ou menos, como alguém que quisesse iluminar o sol com os raios de uma simples lamparina. O contrário é que é o correto: iluminar a nossa insignificante e apagada mente com o sol divino, Jesus Cristo, luzindo em todas as páginas da Sagrada Escritura.
Conclusão
Partindo do princípio que toda a Sagrada Escritura se rege pelo fervor da gratuidade do enamoramento deve-se realçar que não existe uma LD genérica, igual para todos os fiéis: leigos, sacerdotes e religiosos. Isso porque se trata de uma fala vinda de um Deus que é Pessoa. Consequentemente, sua fala nunca acontecerá a modo de máquina ou robô, para pessoas em geral, mas para cada uma como sendo cada vez única, assim como outrora o fez para Abrão, Isaac, Jacó, Moisés, Nossa Senhora, São Francisco, etc.
Nesse sentido, Francisco é um dos pioneiros de uma LD devidamente adaptada12. Sem medo de errar, assim como com toda a razão se pode e se deve afirmar num Cristo, num Evangelho, numa espiritualidade, numa Mariologia, numa Eclesiologia, numa pastoral ou evangelização franciscana, pode-se e deve-se, também, de igual maneira, falar numa Lectio Divina Franciscana (LDF). Nesse sentido, não pode haver uma única LD. Ou invertendo: tantas serão as “Leituras Divinas” quantas forem as espiritualidades. É o que, aliás, afirma nosso Ministro Geral quando diz que a LOP não é o único método de orar com a Palavra de Deus13. Logo, quem quiser seguir mais de um caminho ao mesmo tempo ou caminho que não seja o seu não chegará jamais a lugar nenhum. Pois, segundo o dito evangélico: Ninguém pode servir a dois senhores ao mesmo tempo.
II. SÃO FRANCISCO E A LEITURA DIVINA
Introdução
Na segunda parte deste artigo queremos ver como Francisco se conduzia na LD.
Toda a vida de Francisco vem pautada por uma profunda e contínua ligação com a Sagrada Escritura, principalmente com o Evangelho. Por isso, tinha tal conhecimento da Palavra que penetrava nas realidades escondidas dos mistérios e o que era inacessível à ciência dos mestres, abria-se a seu afeto cheio de amor (2C 102). Sem ser mestre na arte de falar, ele respondia questões difíceis e, como Jó (Cf. Jó, 28,11), iluminava os pontos obscuros chegando àquilo que o texto escriturístico escondia aos estudiosos14.
Surpresos, com nosso Ministro, perguntamos: Como isso fora possível? São Boaventura responde apontando as seguintes razões: - intensa, profunda e perfeita imitação de Cristo; - prontidão em pôr em prática a palavra ouvida e compreendida; - a unção do Espírito Santo tornara-se seu único Mestre; - a exemplo de Maria ouvia com coração pobre, disponível e cheio de amor.
Por isso com razão afirma Pio XI: Parece que jamais houve homem algum em quem brilhasse mais viva a imagem de Jesus Cristo e em quem fosse mais semelhante a forma evangélica de viver do que em Francisco15.
Aliás, na mencionada Carta (nº 15 a 28), nosso Geral mostra muito bem que Francisco fazia uma LD própria. Pena que logo mais adiante, em vez de exortar-nos a que imitemos nosso seráfico Pai, pede que façamos a LOP (nº 23 a 30).
Tentemos ver, então, como se processa a LD no historiar-se da vida de Francisco.
1. Leitura do divino na raiz da vocação franciscana
Como já assinalamos, Francisco soube fazer uma LD própria. Por isso não encontramos nas FF indícios de que Francisco tenha se exercitado na LD dos monges cartuxos, com os famosos quatro degraus ou passos: leitura, meditação, oração e contemplação.
Além do mais, e também, deve-se notar que, segundo as diversas Legendas ou Vidas, o primeiro livro ou texto “divino” que Francisco encontra, lê e medita, são os acontecimentos de sua vida, sua história, e que envolvem diretamente sua vocação. A LD nasce em Francisco como graça, dom ou exercício da necessidade de ter de responder às inúmeras visitas, surpreendentes toques vindos de uma realidade inteiramente estranha, misteriosa e transcendente a tudo o que até então conhecia e sabia, mas nada fantasiosa.
Nesse sentido, como veremos a seguir, não é propriamente Francisco quem decide fazer LD. Antes da leitura praticada por ele, Francisco é quem se sente procurado, perseguido e, por vezes, até atropelado, por “alguém”, uma pessoa misteriosa que a denomina ora de noiva, ora de Senhora ou Dama Pobreza. A intensidade e a frequência dessa perseguição são de tal dinamismo que Francisco, por fim, não consegue mais resistir-lhe e tem de entrar num processo de busca, leitura, fidelidade e transformação ou conversão cada vez mais radical.
Entre as inúmeras passagens que testemunham esse processo inicial, básico ou elementar, de leitura do divino escolhemos a seguinte:
9Acordando, pois, começou a pensar diligentemente sobre esta visão e, 10assim como na primeira visão quase ficou todo fora de si de alegria, desejando sucesso temporal, 11assim, nesta, recolheu-se em si mesmo, admirando e considerando sua força com tanta diligência que, naquela noite, não quis mais dormir. Ao amanhecer volta às pressas para Assis, sumamente alegre e jubiloso na expectativa da vontade do Senhor [...]. Já transformado na mente, recusa-se a ir para a Apúlia e aspira a conformar-se com a vontade divina16.
Vê-se claramente, por essa passagem que a LD de Francisco se inicia e se assenta como ressonância ou resposta a alguém que o procura por primeiro, a alguém que, para usar palavras da experiência mística de São João, o amou por primeiro17.
Como Maria que, pela insinuação do anjo, vai às pressas ver como estava se realizando em Isabel o milagre de uma maternidade impossível, também Francisco volta às pressas para Assis a fim de encontrar e receber luzes e orientações acerca de um novo e misterioso nascimento seu.
2. Leitura divina e a graça da necessidade da repetição
A dinâmica do enamoramento desemboca na premência da necessidade de ler, ouvir e ver mais e melhor o que já se leu, ouviu e viu anteriormente: a repetição. Essa dinâmica foi sempre fiel companheira de Francisco. Por isso sempre prezou muito o princípio dos antigos: “Non multa sed multum” (“Não muitas coisas, mas muito empenho” e numa tradução livre: Ler, ver, ouvir poucas coisas, ou melhor, uma só, mas com muito empenho, meditação, ruminação, atenção, devoção e amor). Trata-se, pois, de seguir aquela “Pré-disposição franciscana” que indica uma impostação prévia [...] ao redor da qual os pensadores franciscanos, de todas as épocas, raças, tipos e formações convergem no “pouco saber e muita jovialidade”18.
Em outras palavras, Francisco, em vez de correr atrás de muitas coisas ou eventos de sua vida ou de muitas passagens da Sagrada Escritura, detinha-se naquelas poucas que marcaram sua vocação. Por isso, também e até mesmo, era só de vez em quando que lia os livros sagrados, mas o que punha uma vez na mente ficava indelevelmente “escrito em seu coração”. Tinha a memória no lugar dos livros, porque o que o ouvido captava uma só vez não ficava em vão, pois permanecia refletindo com afeto e em contínua devoção. Dizia que era muito mais frutuoso esse modo de aprender e de ler do que ficar folheando milhares de tratados19.
Por isso, agora, não precisamos mais estranhar a resposta que deu ao Guardião quando quis destacar-lhe um frade que diariamente fosse ler para ele um trecho da Sagrada Escritura: Não preciso de mais nada, filho. Conheço o Cristo pobre e crucificado20. Em outras palavras: “Deixa-me em paz, filho, pois ainda não terminei minha lição de casa: recordar e meditar a Paixão do meu Senhor. Pois isso é o meu tudo”.
3. Leitura divina e Fontes Franciscanas
Segundo nossa tradição, enquanto Francisco vivia todos podiam olhar no espelho de sua vida21, pois em pouco tempo tornara-se ele próprio e para toda a Ordem a única “Forma minorum”, o único Espelho da Perfeição, a Palavra, o Evangelho vivo, ou, no dizer de Pio XI, um Cristo redivivo. Após sua morte essa função ou ministério passou para as assim chamadas FF. Ou seja, para que os futuros Irmãos também pudessem se espelhar nesse ícone vivo de Jesus Cristo (Bento XVI) e seu Evangelho, a Ordem ordenou que se redigissem o que hoje se convencionou chamar de FF, também chamadas, às vezes, de “Bíblia Franciscana”. Por isso, nós Frades menores, parafraseando o dito de São Jerônimo acerca da importância e da necessidade da SE para conhecer e amar Jesus Cristo, podemos também dizer que ignorar as FF é ignorar o Cristo de São Francisco, sua espiritualidade, vocação e missão. Consequentemente, não há como o franciscano fazer LD sem ler, reler, meditar os Escritos de nosso seráfico Pai, suas Legendas e Vidas, etc. empenhando-se para entrar em sua divina e santa operação.
A história das FF assemelha-se muito à história da SE. Como essa, no início da Igreja, foi a principal fonte de vida e de formação para os cristãos, também aquelas no início da Ordem, juntamente com a tradição falada, era o único livro onde os Frades buscavam conhecer sua identidade e crescer no espírito puro e originário de sua vocação e missão. Hoje, felizmente, como a Sagrada Escritura, também as FF fazem parte essencial de nossa caminhada na busca de nossa identidade, de nossa formação, vocação e missão. E não precisamos ter nenhum receio de tê-las como tais e fazer delas nossa Leitura Divina. Pois, a própria Igreja assim o recomenda quando diz que para a LD pode-se usar também um texto litúrgico ou uma importante página espiritual da tradição católica. Pois, nestes casos, sempre se trata de um eco fiel da Palavra de Deus que se deve ouvir, e, quiçá, até balbuciar, a maneira dos antigos22.
4. Leitura divina e Ofício divino
Desde os primórdios de sua vocação, Francisco e seus companheiros como verdadeiros homens de Deus23, escolhidos e eleitos pelo seu novo Senhor para reconstruir-lhe a Igreja, iam pelo mundo cantando em alta e sonora voz bendizendo e glorificando a bondade do Altíssimo24. Toda essa louvação culminou, depois, nos inúmeros e admiráveis hinos, orações, cânticos e louvações que Francisco confeccionava, como o famoso Cântico do Irmão Sol e na celebração do Ofício divino.
Nosso Ministro Geral faz muito bem em acentuar que a LOP deve ser considerada preparação ou prolongamento daquilo que acontece na celebração litúrgica25. Só que, como já vimos, Francisco nunca fez LOP. O que fez foi uma LD adaptada. E uma de suas mais expressivas concreções foi fazer o “Ofício divino”. Os autores do mencionado livrinho do CEBI, porém, não pensam assim. Ao falarem do Ofício divino na LOP não só o ignoram, mas até o consideram apenas como um exercício obrigatório e formal [...] lido ou recitado mecanicamente, sem seiva de oração26. Francisco, ao contrário, o tem na mais alta consideração. Vale citar aqui a súplica que fez a frei Elias, Ministro Geral: Faça com que os clérigos digam o Ofício com devoção diante de Deus, não atendendo à melodia da voz, mas sim, à consonância da mente, para que a voz se harmonize com a mente e a mente com Deus. 42E, assim, pela pureza do coração, possam aplacar a Deus e não afagar os ouvidos do povo com a lascividade da voz [...]. A todos aqueles Irmãos, porém, que não quiserem observar essas coisas, não os considero católicos e nem Irmãos meus27.
Neste sentido e para Francisco, Ofício divino ia bem mais além da nossa Liturgia das Horas. Indicava e incluía toda e qualquer oração, mesmo se feita em particular. Oração que não se imbuísse desse espírito não era considerada, propriamente, oração cristã, mas pagã.
Pode-se afirmar que em grande parte a familiaridade de Francisco com “seu” Cristo e com a Sagrada Escritura deveu-se à profunda experiência do Ofício Divino. Por isso, se não tivesse livro para fazê-lo ele o inventava na hora como vem muito bem relatado no famoso capítulo VIII dos Atos do Bem-aventurado Francisco e dos seus Companheiros28. Não se pode ignorar, além do mais, a composição do mais longo e mais profundo texto teológico que saiu de sua mente e de suas mãos: o “Ofício da Paixão do Senhor”, bem como do “Ofício dos Pai-Nossos” inventado para os Irmãos que não soubessem ler.
5. Leitura divina no eremitério do martírio da contemplação da paixão da cruz de cada dia
Finalmente, a LD em Francisco alcança seu ponto mais profundo e elevado, ao mesmo tempo, no eremitério do martírio da contemplação da paixão da Cruz. Em outras palavras a LDF para chegar ao seu auge passa necessariamente pelo caminho do eremitério do calvário e da cruz do nosso cotidiano.
Não se costuma chamar Francisco de mártir porque sua morte deu-se de modo incruento. Todavia, os Frades que acompanharam sua trajetória espiritual não receiam de tê-lo como tal, principalmente, por causa de sua profunda, intensa, contínua e amorosa identificação com os sofrimentos da Paixão de seu amado Senhor. Pois, se desde o encontro com o Crucificado de São Damião carregava as chagas e os sofrimentos da Paixão de seu Senhor em sua alma, não muito antes de morrer, nosso Irmão e pai apareceu crucificado, carregando em seu corpo as cinco chagas que são verdadeiramente os estigmas de Cristo29.
Hoje, costuma-se entender eremitério como um lugar ameno, agradável, separado do barulho e de todo o tipo de incômodos e contrariedades, e contemplação, por sua vez, como busca de um estado de calmaria, “paz” interior e exterior, de vivências e consolações, muitas vezes, carregadas de fortes emoções, mas quase sempre um tanto vagas, abstratas e volúveis. Nada dessas compreensões aparecem na contemplação nem de Cristo e nem de Francisco.
A exemplo de Cristo, também Francisco não quis outro eremitério senão o cotidiano-ordinário próprio da vida apertada, da porta estreita da pobreza e da Paixão do seu Senhor. Isso é tudo para Francisco: seu amor, sua vida, seu eremitério, sua contemplação, seu martírio, sua LD.
Conclusão
A questão que orientou todas essas reflexões,ou seja: “Por que não poso fazer LOP?”, tem como resposta simples e única: porque ela segue outro caminho ou espiritualidade, diversos do caminho e da espiritualidade abraçamos e professamos.
Como resposta ao toque do enamoramento, a LDF assemelha-se à dinâmica do casamento. Também nós quando fomos tocados por ESTA VIDA, e chamados a segui-la, um novo olho, um novo senso nasceu do nosso interior: o olho ou senso da Paixão de JC pobre e crucificado. Por isso, franciscano não pode e nem deve mais fazer nenhuma outra LEITURA de tudo, nem de nada nem de si nem das pessoas, com suas lutas e sofrimentos, nem dos acontecimentos nem das criaturas nem da Igreja e nem mesmo de Deus senão com esse olho, com esse senso: o olho e o senso franciscano.
Por tudo isso, espero e tenho certeza que meu caríssimo Geral não se oporá a que eu em vez de atender e seguir sua exortação para que faça a LOP continue me exercitando na LDF.
E, finalizando, porque não imitar a Igreja que fez um Sínodo com o tema “A Palavra de Deus na vida e na Missão da Igreja”? Por que não fazer também nós (OFM ou toda a Família franciscana) um Capítulo Geral com o tema: Fontes Franciscanas na Vida e Missão da Ordem?
1 GPMS 24.
2 Documento da Cúria romana destinando principalmente aos membros do Sínodo e que tem como finalidade apresentar o estado da questão sobre o importante tema da Palavra de Deus (Prefácio). Esperamos ansiosamente o documento conclusivo desse Sínodo que deverá ser publicado em breve pelo nosso Papa.
3 Leitura orante da Bíblia, roterios para reflexão, XII, CEBI, São Leopoldo, 2001. Deve-se dizer, logo, porém, que, muitas vezes, em certos ambientes e publicações usa-se a expressão Leitura orante da Palavra, mas que, em verdade pensam, falam e fazem Lectio Divina, como, por exemplo, o folheto de Frei Carlos Mesters: Leitura orante da Palavra, publicado pela CRB. Neste caso não há nenhum problema pois o que muda é apenas o nome, mas o exercício é o mesmo da Lectio divina.
4 Leitura orante da Bíblia, pág. 14
5 Às vezes, em vez de LOP encontra-se, também o título “Leitura orante da Bíblia”, como faz o CEBI.
6 GPMS 23
7 Cf. Prólogo de São João
8 1Cor 2,11
9 Pascal, "Pensées et opuscules", Paris, 1912, p. 185, citado por Heideger M. em Ser e Tempo, Vozes, 1988, pág. 194). O mesmo pensamento já expressava Sto. Agostinho: "Non intratur in veritatem, nisi per charitatem (“Não se entra na verdade senão pela caridade”. Agostinho, "Opera", Migne, P .1. XLII, "Augustinus" VIII, "Contra Faustum", lib. 32, cap. 18, idem.
10 LOB pág. 21
11 Ofício das Leituras da Festa de São Boaventura.
12 Lineamenta 5
13 GPMS 23
14 GPMS 5
15 ROFS, Breve apostólico
16 LTC 6,9-13. A passagem se refere às duas visões que Francisco teve no caminho de Espoleto quando ia para a Apúlia a fim de fazer-se um grande e nobre cavaleiro.
17 1Jo 4,19
18 Harada, Frei Hemógenes, De estudo, anotações obsoletas, a busca da identidade humana e franciscana, IFAN-Vozes, 2009, pág. 235
19 2C 102, 4-5
20 2C 105,5
21 Cf. 1C 90,3
22 Orientações sobre a Formação nos Institutos Religiosos, 1990, 76
23 Cf. LTC 33
24 Cf. LTC 33 1-2
25 GPMS 14
26 CEBI pág. 18
27 CO 41-43
28 Nesse Ofício divino, criado na hora, Francisco, a fim de usar o tempo para o louvor de Deus, ordena a Frei Leão que repita o que ele proferia à frente. E começou dizendo assim: “Ó Frei Francisco, tu fizeste tantos pecados no mundo que és digno do inferno”. E tu, Frei Leão, respondas: É verdade que mereceste o profundíssimo inferno". 4Frei Leão, o puríssimo, respondeu com simplicidade columbina: "De boa vontade, pai; começa em nome do Senhor". E São Francisco começou a dizer: "Ó Frei Francisco, tu fizeste tantos pecados no mundo que és digno do inferno". 5E Frei Leão respondeu: "Deus fará por ti tantos bens que irás para o paraíso". 6São Francisco, porém, disse: "Não digas assim, Frei Leão; mas, quando eu disser: Ó Frei Francisco, tu fizeste tantas obras iníquas contra Deus que és digno de ser maldito; tu, assim respondas: És digno de seres contado entre os malditos". E Frei Leão disse: "De boa vontade, pai". Só que Frei Leão não conseguiu em nenhuma vez responder outra coisa e sempre de novo senão aquela resposta que o Senhor lhe revelava, oposta a que Francisco propunha.
29 Carta de Frei Elias 17

Advento: Como veio, Ele também vem e virá

Segundo nossa Liturgia, o Tempo do Advento se destina a duas importantes preparações. Primeiramente queremos preparar-nos para celebrar mais uma vez a Vinda de Cristo que, assim como veio outrora, nascendo do seio da Virgem Maria, virá mais uma vez em nossos corações na noite do Natal. Mas, o Advento quer recordar e exortar a que nos preparemos, também, para a Segunda vinda de Cristo que acontecerá nos fim dos tempos. Em ambas as preparações, porém, soa sempre, que nosso Deus, é um Deus que vem. Nesse Tempo, mais do que em outras ocasiões do ano, a Liturgia faz ressoar aquela única toada de todas as páginas do Antigo Testamento: Dizei aos que estão desanimados: “Coragem! Não tenhais medo! Eis o vosso Deus: Ele traz o castigo, a recompensa divina. Ele virá em pessoa para vos salvar (Is 35,4).

Mas, no dizer de São Paulo, chegada a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de uma mulher e sob a Lei, para resgatar os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos (Gl 4,4-5). Essa adoção, porém, ainda não se manifestou em plenitude. Precisamos desejá-la, buscá-la, amá-la e, acima de tudo, cultivá-la. Pois, de novo, diz São Paulo: No presente vemos por um espelho e obscuramente; então veremos face a face. No presente conheço só em parte; então conhecerei como sou conhecido (1Cor 13,12).

Quando se espera alguém não se espera de mãos vazias e muito menos de coração amargurado. Por isso, a Igreja nos solicita a que esperemos vigilantes e jubilosos o Natal e a segunda vinda do Senhor em cada pessoa ou acontecimento de nossa vida. Vigiar nossos sentimentos, pensamentos e atitudes para que sejam cada vez mais pensamentos, sentimentos e atitudes de filhos de Deus.

Um coração jubiloso porque temos a certeza de que nossa esperança não será em vão; que haveremos de vencer o ódio, a vingança, o desânimo, a divisão, a guerra como Ele venceu. Um coração jubiloso que se concretiza em exercícios bem concretos como a participação nas Missas dominicais, na Novena do Natal em Família, na Celebração penitencial (Conversão!) e, acima de tudo, empenhando-nos em viver e concretizar a atitude de filhos de Deus: mansos, humildes, disponíveis, misericordiosos e pacientes, seja em casa, com os familiares, seja na Comunidade, na Escola ou no local de trabalho.

Frei Gabriel Brancher e Frei Dorvalino Fassini

domingo, 21 de novembro de 2010

Dia Nacional do Leigo

Paz e bem!


A Festa de Cristo Rei
também assinala o
Dia Nacional do Leigo.
Seguem mensagens de
Marilza Lopes Shuína,
Vicepresidente do CNLB
(Conselho Nacional do Laicato do Brasil),
organismo ao qual são filiados
tanto a OFS como a JuFra.
_____



“A prática e a pregação de Jesus mostram que seu projeto, entendido como expressão da vontade do Pai, visava à superação de todas as divisões sociais e religiosas da sociedade judaica de seu tempo. Suas atitudes chegavam a escandalizar porque vivia a comunhão com pessoas consideradas de má companhia. O Evangelho aponta para uma convivência humana de justiça, amor, fraternidade, co-responsabilidade e igualdade. A epístola aos Hebreus ainda nos recorda: ‘Se Jesus estivesse na terra nem mesmo sacerdote seria, porque já existem sacerdotes’(8,4). Na perspectiva do Antigo Testamento, Jesus é antes leigo que sacerdote, porque, como novamente diz a epístola aos Hebreus, ‘é notório que Nosso Senhor nasceu em Judá, a cuja tribo Moisés nada disse a respeito do sacerdócio’(7,14). Os ideais igualitários e comunitários foram percebidos pelos primeiros cristãos. Nos Atos dos Apóstolos constatamos o ensaio de uma comunidade que colocava tudo em comum, que não havia introduzido nenhuma separação nem distinção, porque os fiéis eram um só coração e uma só alma e juntos viviam e testemunhavam a novidade do Evangelho (cf. At2, 42-45; 4,32-35).”(Boff, 1998)

Este é um desafio, enquanto leigos e leigas, superarmos as dicotomias e divisões e avançarmos no Seguimento de Jesus Cristo, aprendendo e praticando “as bem aventuranças do Reino, o estilo de vida do mesmo Jesus Cristo: seu amor e obediência filial ao Pai, sua compaixão diante da dor humana, sua aproximação com os pobres e pequenos, sua fidelidade à missão recebida, seu amor serviçal até o dom de sua vida. Hoje, contemplamos a Jesus Cristo tal como nos transmitem os Evangelhos para conhecer o que ele fez e para discernir o que nós devemos fazer nos dias de hoje." (DA,139)

É o que também nos recorda a afirmação de Paulo: "Tenham em vocês os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo” (Fl. 2,5). Também a Gaudium et spes, 22, ajuda-nos a entender nossa profissão de fé em Jesus Cristo: "trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana, agiu com vontade humana, amou com coração humano. Nascido da Virgem Maria tornou-se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado”.

Ser discípulo e seguir a Jesus é viver a experiência do trabalho, ter compaixão do povo, solidarizar-se com as multidões, assumir suas dores, criticar seu abandono e dá a vida por suas ovelhas. (Mc 6,1-6; 3,14; Lc 10, 2-12; Jo 1, 38-39). Ser discípulo e seguir Jesus é assumir o anúncio do Reino aos pobres e que a salvação se faz presente na mudança de situação real de vida operada na ação evangelizadora e libertadora de Jesus (Paulo VI, Evangelii nuntiandi n.30; Lc 4, 16-21; Mt 11,2-6).

É nosso desafio hoje atualizar essa ação evangelizadora e libertadora de Jesus apoiando as lutas pela defesa da vida em todos os campos, seja dos sem terra, dos sem teto, dos desempregados, dos abandonados pelo Estado e, muitas vezes, pela própria Igreja, sendo solidários com os rostos sofredores do povo de rua, dos migrantes, dos doentes, dos dependentes químicos, dos presos, indo às ruas, praças e cidades, sem medo e sem vergonha, empunhando nossas bandeiras, sendo profetas "bocudos, zóiudos e oreiúdos", pois, como "discípulos e missionários somos chamados a contemplar, nos rostos sofredores de nossos irmãos e irmãs o rosto do Cristo que nos chama a servi-lo nele" (DA 393, Puebla, 31-39, Santo Domingo, 179), pois “a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza” (DA, 392)

Jesus é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo. 14,6) um caminho de conflitos, confrontos e de posicionamento contra a ideologia dos dominantes que impede a possibilidade da vida florescer (Mc 8, 22 – 11,8) e, seguir a Cristo é fazer a escolha que ele fez, é viver a espiritualidade da cruz, assumindo-a até as últimas conseqüências, inclusive, fazendo o que Jesus fez: dar a vida por suas ovelhas.

Eis, pois, a missão do laicato, descrita pelo Concílio Vaticano II, que fala positivamente do leigo e da leiga, dando ênfase ao Batismo, ou seja, chamando-os a evidenciar a missão comum de Cristo, da sua constituição como povo de Deus, santificando o mundo com sua vocação própria, a modo do sal e do fermento dentro do tecido humano da sociedade e participa a seu modo da função profética, sacerdotal e real de Cristo. (Doc 61 CNBB, 11-12).

Como leigos e leigas, saibamos responder ao Seguimento de Jesus e continuar sua prática no nosso tempo, na realidade em que vivemos.

Marilza Lopes Shuína - Vice Presidente do CNLB

Extraído de http://www.cnl.org.br/index.php?system=news&news_id=663&action=read acesso em 21 nov. 2010.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Jubileu de Prata

Fraternidade Santa Clara

A nossa coirmã, a Fraternidade Santa Clara,
que reune-se no Mosteiro São Damião
das irmãs clarissas
no dia 17 nov. último
completou 25 anos de  vida e caminhada.

Para comemorar isto
e também festejar nossa padroeira,
Santa Isabel de Hungria
foi celebrada missa no mosteiro
concelebrada por
Frei Adriano van Vught, OFM,
que erigiu a fraternidade;
Frei Eugênio Schimidt, OFM,
atual assistente espiritual da Frat. Stª Clara;
Frei Dorvalino Fassini, OFM,
assistente espiritual da Frat. N. Sª dos Anjos da Porciúncula;
Frei Adelino Pilonetto, OFMcap,
que foi orientador espiritual
da Irmã Marina Medtsch
(motor inicial da fraternidade)
e é assistente espiritual das Frats.
Santo Antônio, e, N. Sª do Brasil.

Abaixo seguem algumas fotos:
Licença Creative CommonsJubileu de Prata : Fraternidade Santa Clara  / Eugenio Hansen, OFS. 20101117 is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Não a obras derivadas License.







quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Entrevista com Frei Jaime Spengler

Por Moacir Beggo

O frade catarinense, Frei Jaime Spengler, surpreendeu-se por duas vezes quando recebeu a convocação do Núncio Apostólico no Brasil, Dom Lorenzo Baldisseri, para ir a Brasília. Primeiro, estava muito concentrado na nova função de guardião da Fraternidade Bom Jesus dos Perdões e pároco, quando recebeu a notícia da nomeação pelo Papa Bento 16. Segundo, pelo lugar para o qual foi indicado: Bispo auxiliar em Porto Alegre (RS).


Natural de Gaspar (SC), onde vai ser ordenado, Frei Jaime nasceu no dia 6 de setembro de 1960. Vocação adulta, ingressou na Ordem dos Frades Menores no dia 20 de janeiro de 1982. Nesta entrevista, o novo bispo-auxiliar de Porto Alegre fala de suas expectativas com a nomeação, de como está elaborando seu brasão, a escolha do lema e de como entrou na Ordem dos Frades Menores, onde professou solenemente no dia 8 de dezembro de 1985.

Acompanhe a entrevista do agora Monsenhor Jaime Spengler.
Site Franciscanos - Como o Sr. recebeu a notícia desta nova missão conferida pelo Santo Padre?
Frei Jaime – Primeiro, com uma grande surpresa. A verdade é que, de uns seis meses para cá, estava muito concentrado no meu trabalho ordinário, seja  com os projetos na paróquia, no convento ou mesmo na Associação Franciscana Bom Jesus, onde trabalhava como vice-presidente e como professor do curso de Filosofia. No dia 25 de outubro, festa de Frei Galvão, o Núncio Dom Lorenzo Baldisseri me surpreendeu ao me chamar a Brasília. Foi uma noite de expectativa e de vigília.
Site Franciscanos – Onde vai ser a sua ordenação episcopal?
Frei Jaime – Na minha terra natal, Gaspar.  O ano de 2011 é muito importante para a Paróquia de Gaspar.  Comemoram-se 150 anos da Freguesia de São Pedro Apóstolo. Essa nomeação e ordenação que estão acontecendo vêm de alguma forma marcar particularmente esse jubileu da comunidade cristã de Gaspar. Além disso, ali moram meus pais – papai com 82 anos e mamãe com 79. Também meus irmãos todos moram em Gaspar. Gaspar é uma cidade relativamente pequena; dali surgiram tantas vocações sacerdotais e religiosas ao longo desse século e meio de fundação da Freguesia. Assim, poder propiciar à toda a comunidade local uma celebração como essa, será, certamente, um momento de fortalecimento da comunidade, um momento de gratidão pelo trabalho realizado por tantos homens e mulheres de boa vontade ao longo dos anos, um momento de intensa celebração da e na fé.
Site Franciscanos - O que é ser um bispo auxiliar?
Frei Jaime – A nomeação que chegou de Roma traz a seguinte expressão: “bispo de Patara”. Patara é uma cidade da Grécia e que, segundo a tradição, teria sido fundada por Patarus, filho de Apolo. Ali, o cristianismo floresceu de forma muito vigorosa até o terceiro e quartos séculos, de onde surgiram vários expoentes do cristianismo primitivo. Hoje, a cidade nada mais é do que um sítio arqueológico.  Como Bispo-auxiliar em Porto Alegre, vou participar do Ministério do Arcebispo D. Dadeus. Neste sentido, ser bispo auxiliar significa cooperar na missão, num trabalho que já vem sendo desenvolvido e que se busca, certamente, aprimorar sempre mais.

Site Franciscanos – O Sr. esperava ir para Porto Alegre?
Frei Jaime - Quando o Núncio me disse que estaria indo para Porto Alegre, fiquei sumamente surpreso. Sei de outros lugares, de  outras realidades, onde se aguarda com expectativa a nomeação de bispos! Quando ele disse Porto Alegre, quase cai da cadeira. Não esperava. Foi uma surpresa muito grande e, ao mesmo tempo, muito agradável. Porto Alegre é uma cidade no sul! É a Capital do Rio Grande do Sul. E este Estado tem uma tradição muito rica, muito bonita, uma cultura extraordinária; uma história sem dúvida marcante, com relevância na história nacional!  Seu povo é um povo trabalhador,  empreendedor. Podemos dizer “um povo bom”! E como diz um ditado do nosso povo “gente boa, a gente não esquece – e não pode esquecer”!

Site Franciscanos -  E ganhou a sua bem-aventurada no último sábado?
Frei Jaime – Estive em Porto Alegre na beatificação da Madre Bárbara Maix; era uma mulher austríaca que veio para o Brasil e fundou uma obra belíssima. Não conhecia a obra  e as irmãs, mas a possibilidade de participar da beatificação dessa mulher, foi realmente algo muito bonito e  enriquecedor. Foi o meu primeiro contato com a Arquidiocese, ou melhor, com o arcebispo de Porto Alegre e seu Bispo-auxiliar D. Remídio Bohn;  até então, não nos conhecíamos pessoalmente!

Site Franciscanos - Como frade menor, o que significa ser bispo?
Frei Jaime – Penso que significa, antes de tudo, se colocar a serviço!  A serviço de uma realidade, de uma porção do povo de Deus, que toma forma na figura jurídica, denominada diocese. Eu creio que o frade menor, como está na nossa Regra Franciscana, é aquele que promete obediência e reverência ao Senhor Papa Honório e seus sucessores. Penso que o bispo, e o bispo frade menor, não pode fugir deste espírito, desta indicação. Ser um frade menor bispo é se colocar como menor entre os menores. E ali entre os menores ser uma presença evangélica. Com simplicidade e na alegria, ir ao encontro das pessoas, estar próximo das pessoas, sentir e participar de suas alegrias e esperanças.

Site Franciscanos - O sr. não deixa de ser frade menor?
Frei Jaime – De jeito nenhum. Quando a gente gosta do que é, e quando a gente gosta do que faz, não se criam essas dicotomias. Nós somos aquilo que somos. E se um dia nós abraçamos o projeto de vida franciscano, se procuramos mergulhar de corpo e alma neste projeto, e vamos dando o melhor das nossas forças, das nossas energias, nunca deixaremos de ser aquilo que somos!  Trata-se de uma identidade, de caráter [característica], e isso marca para sempre.
Site Franciscanos - Foi muito bonito ver o encontro de bispos franciscanos em Assis...
Frei Jaime – Aquele jeito simples. Ali existe uma indicação que vem,  primeiro, daquilo que Assis mesmo significa: simplicidade, fraternidade, paz. Em segundo lugar, é bom recordar aquilo que o Papa João Paulo II inaugurou como o ‘Espírito de Assis’. Assis se tornou o lugar de encontro das diversas religiões; lugar de referência, onde diversos líderes religiosos se reuniram e reúnem para juntos rezar. Portanto, quando recordamos esse encontro promovido pelo governo geral da Ordem dos Frades Menores podemos colher algumas indicações para o exercício desse novo ministério: procurar ser simples, amigo e fraterno; saber e aprender a conviver e dialogar com as diferenças! Talvez o que o nosso mundo espera de nós, como cristãos, como frades, e agora como bispo seja justamente esse modo de ser presença de paz, de reconciliação; presença integrada e integradora. Além disso, é bom estarmos atentos àquilo que Assis representa e inspira; ou seja, Assis se tornou uma referência, um símbolo. Referência e símbolo de paz e de bem!

Site Franciscanos - O sr. conhece ou tem informações da região episcopal que vai assumir?
Frei Jaime – Estive em Porto Alegre duas vezes.  Na primeira, fui para lá reconhecer os meus estudos de Filosofia, doutorado e mestrado, através da PUC de Porto Alegre. E na época, o Pe. Urbano Zilles me ajudou muito no encaminhamento do processo. E a segunda foi agora, no sábado, durante a beatificação da Madre Bárbara. É uma cidade grande. Não imaginava que Porto Alegre tivesse mais de 3 milhões de habitantes (05 Vicariatos; 155  Paróquias [das quais 32 de religiosos]; 744 Comunidades e 16 Diaconias).  São em torno de 44 institutos femininos de vida religiosa e cerca de 25 masculinos, além dos institutos seculares.  Portanto, uma presença religiosa muito marcante naquela realidade. 
Site Franciscanos - O outro bispo auxiliar  é Dom Remídio  José Bohn?
Frei Jaime – Ele é auxiliar já há alguns anos. Tive oportunidade de conhecê-lo pessoalmente no último sábado. E agora, na próxima semana, vamos viajar juntos para Santa Maria, onde acontece uma grande peregrinação tradicional das dioceses do Rio Grande do Sul. Pareceu-me uma pessoa muito simples, simpática e uma presença muito fraterna.  Seremos – de alguma forma – os braços do Arcebispo!

Site Franciscanos - Quais os desafios que o Sr. vê para iniciar esta nova missão no episcopado?
Frei Jaime – É uma missão nova! No sábado, conversava com Dom Dadeus e dizia: “Olha, D. Dadeus, o Sr. vai ter que me ensinar. Aqui, vou precisar de um mestre”. E ele, com muito jeito e simpatia – a gente vê que tem carisma -, dizia assim: “Conte com a gente. Seja muito bem-vindo. Nós estamos muito contentes!” Então, é uma missão nova e, como toda nova missão, temos de começar. E iniciar a partir daquilo que o próprio arcebispo nos indicar, como sendo de nossa competência. Em todo o caso, ele me dizia que existe uma boa presença da Igreja no mundo da educação e como venho um pouquinho dessa realidade – nos últimos cinco anos estive ligado à Associação Franciscana Bom Jesus - , então poderia talvez oferecer uma contribuição nessa área. Mas isso é coisa a ser discutida.


Site Franciscanos - Já dá para adiantar o tema do seu brasão?
 

Frei Jaime – No centro do meu lema, eu escolhi ter a cruz. E a expressão que quero assumir é “Gloriar-se na Cruz” (In Cruce gloriari). Baseado em Gl 6,14, São Paulo diz que se gloria na cruz de Cristo - e, em 2Cel 203, São Francisco teve os mesmos sentimentos [Cf. também São Boaventura, Legenda Maior, 13,10]. Por que esta escolha? Hoje,  temos dificuldades de falar da cruz. E não podemos entender o cristianismo sem o evento da cruz. Na cruz existe vida; na cruz está a nossa esperança; a cruz é o madeiro que salva. O cristianismo nasce e se consuma na cruz, no Crucificado. Nós falamos muito do Cristo que age,  do Cristo que prega, do Cristo que cura;  existe, porém, uma espécie de dificuldade não só no discurso pastoral, mas também na reflexão teológica, de abordar a questão do sofrimento e da cruz. E nesse sentido não podemos esquecer que grande parte da nossa população é de crucificados. E quando falo de crucificados hoje, penso especialmente nos adolescentes, nos jovens, vítimas das drogas, que estão de alguma forma consumindo toda uma geração; e junto com a situação da droga está a violência social. E as respostas das entidades que compõem a sociedade parecem não ser suficientes.  Nossas instituições políticas,  nossos governantes, a  escola, a família e também a Igreja, diante dessa realidade, são desafiadas a apresentar soluções. Observamos nossos adolescentes e nossos jovens, às vezes, sem rumo e sem direção, sem esperança; e assim se tornam alvos fáceis de ideias, ideologias e vícios. É verdade que no meio dessa juventude encontramos moços e moças muitos vivazes, corajosos, envolvidos com propostas de um mundo melhor, mais humano, de uma terra sem males. Outra expressão de cruz presente na nossa sociedade de crucificados e que me chamou muito a atenção no sábado durante a beatificação de madre Bárbara, foi o fato de as irmãs estarem começando um trabalho sobre o tráfico de pessoas humanas. É também uma dessas realidades pouco faladas, tematizadas, por razões óbvias, e que são expressões também de cruzes na nossa sociedade. Todas essas situações, e outras que poderíamos recordar aqui, me levaram de alguma forma a dizer: “Quero no centro do meu lema - e isso é um projeto de vida - a cruz”.  Mesmo durante os meus estudos, quando terminei o curso de Teologia em Jerusalém, fiz o trabalho de conclusão de curso em torno do Hino de Filipenses 2, 5-8: Ele tinha a condição divina, mas não se apegou a sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens. Assim, apresentando-se como simples homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz! Então, essa obediência de Cristo à vontade do Pai que se consuma na cruz, isso de alguma forma sempre me tocou. Outra expressão muito forte de São Paulo, na primeira Carta aos Coríntios, é quando ele brada, grita e suplica: “Não esvazieis a Cruz de Cristo!” Então, todas essas expressões bíblicas, de alguma forma, para mim, estão sintetizadas nesta expressão: “Gloriar-se na Cruz”. Mais ainda: quando todos os dias rezamos: “Nós vos adoramos Senhor Jesus Cristo, aqui e em todas as vossas Igreja que estão no mundo inteiro, porque pela vossa santa cruz remistes o mundo”, estamos fazendo referência à Cruz.  Boaventura diz que São Francisco exorta os frades a rezarem, quando não têm o Breviário, contemplando o Crucificado, olhando a Cruz. Olhando a Cruz, eles podem rezar! Então, a Cruz, para os frades, é o Livro de Cristo. A Cruz é o Evangelho. Se não me engano, as Fontes Franciscanas dizem que Francisco mesmo era outro Cristo Crucificado. Nós encontramos, então, vários elementos que se condensam sempre na Cruz. Por todas essas indicações, quis que no meu lema estivesse tematizado o evento da Cruz.

Site Franciscanos - E já pensou como vai ser o brasão?
 

Frei Jaime –  Tenho algumas ideias! Quero que  a Cruz seja o elemento central; junto gostaria de ter  uma conquilha, porque ela recorda aquela lenda de Santo Agostinho que encontra, certo dia na praia, um menino fazendo um buraco. Agostinho passava por ali e perguntou: “Mas o que você está fazendo?” – “Ah estou colocando a água do mar neste buraco”. Agostinho respondeu: “Você é bobo, não vai conseguir”. E recebeu como resposta: “E você vai conseguir esgotar o sonho de Deus com as suas elucubrações?” Essa conquilha simboliza de alguma forma a inesgotabilidade do mistério de Deus e da cruz. Esses dois elementos gostaria de ter no brasão. Depois, quando  voltei de Israel, ganhei de um frade do Santo Sepulcro um pedaço da pedra do Calvário. Isso sempre guardei. E agora, conversando com o Sr. Carrara, pedi para ver a possibilidade de incrustar um pedacinho da pedra, seja na cruz peitoral, seja no anel ou no báculo. Isso para recordar sempre de novo o evento do Calvário, a Cruz. Existe uma lenda da tradição judaico-cristã, onde se diz que o túmulo de Adão estaria situado na base do Calvário. E até hoje os peregrinos podem observar através de um vidro, uma fissura na pedra, onde existe um fio vermelho. Essa lenda diz que esse fio vermelho, que perpassa a pedra, é a marca do sangue do Cristo, que desceu da Cruz, no topo do Calvário, e atingiu o túmulo de Adão. O sangue de Cristo no Calvário resgata todos os homens

Site Franciscanos - Fale um pouco de sua vocação franciscana?

Frei Jaime – Existem coisas que são muito pessoais. O sagrado sempre me provocou, me atraiu. É muito bonito na nossa espiritualidade franciscana uma expressão de Santa Clara, quando ela pede às irmãs que  nunca se esqueçam do “ponto de partida”. E o meu ponto de partida é uma cena muito bonita de um 1º de Maio. Lembro-me que meu pai nos levou, de bicicleta, à Missa no pátio de um colégio. Fazia frio. Tinha um vento muito forte, e nunca me esqueci da imagem de Frei Godofredo Sieber preparando o altar. Já paramentado para a Missa, estava lutando com o vento, que mexia com os arranjos e as velas que estavam acesas no altar. Ele ajeitava aquilo com tanto cuidado e carinho, que  me atraiu e me fez dizer um dia assim: “Eu quero ser como aquele homem!”

Site Franciscanos – E quantos anos você tinha?

Frei Jaime - Devia ser um adolescente de 8 ou 9 anos. Depois, é claro, a vida foi tomando o seu rumo: escola, ginásio, segundo grau... Mas aquela cena do 1º de Maio não me saiu da mente. Quando estava com 20 anos, havia uma proposta de fazer um curso de engenharia ou técnica de fiação no Rio de Janeiro. Estava tudo certo, pois trabalhava numa empresa de fiação em Gaspar, onde já estava há cinco anos. Aquela cena não saia da minha mente. Um dia eu disse: “Não, não quero o curso. Eu vou para o seminário. Eu quero ser franciscano”. Claro que isso pegou muita gente de surpresa, especialmente no trabalho. Estava com a carreira definida na empresa, e existia um clima de confiança muito grande na minha pessoa. Mas, enfim, tomei essa decisão e fui para Guaratinguetá, onde a Província tinha o Seminário para Vocações Adultas. Também é verdade que quando nós terminamos o ensino primário, escola fundamental, os padres do Sagrado Coração de Jesus passaram por lá fazendo uma espécie de propaganda vocacional. Nos convidaram para conhecer o Seminário de Corupá.

Site Franciscanos - O Seminário de Corupá é um dos maiores do Brasil?

Frei Jaime – É muito grande e bonito. Até hoje guardo na lembrança aqueles espaços, o museu, o lago. Depois nos levaram a Jaraguá do Sul para conhecer a Casa do Noviciado. Voltamos para casa e depois os padres retornaram perguntando quem queria ir para o Seminário. Todos os outros meninos foram; menos eu. Não sei por que não fui. Dez anos depois, quando todos voltaram, fui como adulto começar a caminhada em Guaratinguetá. O meu ponto de partida foi aquela cena do Frei Godofredo celebrando aquela Missa no dia 1º de Maio, Missa dos Trabalhadores, no dia de São José Operário. Ali, com os colonos da região, cuidando com tanto carinho do altar e das coisas do altar!

Site Franciscanos - Deixe uma mensagem neste final de entrevista.
Frei Jaime – Eu vou a Porto Alegre ‘pronto para o que der e vier’. Aliás, essa sempre foi uma atitude que procurei cultivar ao longo da minha vida religiosa.  Sempre tive presente este espírito. Para onde me mandarem, para o que me pedirem, para aquilo que me solicitarem, estarei disposto. Acolho a nomeação do Santo Padre em espírito de obediência. E nesse espírito estou indo para Porto Alegre disposto a dar o melhor de mim. Espero poder colaborar de forma efetiva no Ministério do Arcebispo de Porto Alegre, D. Dadeus, e de seu Bispo-auxiliar D. Remídio. Espero poder ser, com eles e com os sacerdotes, diáconos, religiosos e religiosas, uma presença de pastor, de pai, de irmão, naquela realidade, onde, orientado por ele, e por D. Remídio, que está lá há mais tempo, me inserir  sempre mais na vida da Igreja local e daquele povo. Sempre gostei de uma expressão que está na linguagem de nosso povo, quando se diz assim: “O povo é bom”. Eu acho que o povo é bom e no meio desse povo bom, nós precisamos cultivar a bondade. O povo é bom, o povo é receptivo; e o povo gaúcho é empreendedor, trabalhador -  um povo que tem uma cultura rica, alegre e diversificada. Espero realmente ser uma presença de menor, de paz; uma presença amiga, e fraterna; uma presença franciscana!

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/v3/noticias/reportagensespeciais/2010/frei_jaimespengler/01.php acesso em 10 nov. 2010.

Bento XVI nomeia Fr. Jaime Spengler bispoauxiliar de Porto Alegre

COMUNICADO DO SITE DO VATICANO
NOMINA DI AUSILIARE DI PORTO ALEGRE (BRASILE)

Il Papa ha nominato Ausiliare dell’arcidiocesi di Porto Alegre (Brasile) il Rev.do P. Jaime Spengler, O.F.M., finora Guardiano della Fraternità "Bom Jesus da Aldeia" a Campo Largo, nell’arcidiocesi di Curitiba, assegnandogli la sede titolare vescovile di Patara.
 Rev.do P. Jaime Spengler, O.F.M.
Il Rev.do P. Jaime Spengler, O.F.M., è nato il 6 settembre 1960, a Blumenau, nello Stato di Santa Catarina, nell’omonima diocesi. Ha fatto il postulantato francescano a Guaratinguetá (1981) e il noviziato a Rodeio (1982); ha emesso la professione perpetua nel 1985 ed è stato ordinato sacerdote il 17 novembre 1990.
Ha compiuto gli studi di Filosofia presso l’Istituto Filosofico "São Boaventura" a Campo Largo e quelli di Teologia prima presso l’Istituto Teologico Francescano a Petrópolis (1986-1987) e poi presso l’Istituto Teologico di Jerusalém (1987-1990), nel quale ha ottenuto la licenza in Sacra Scrittura. Successivamente ha ottenuto a Roma, presso il Pontificio Ateneo "Antonianum", la Laurea in Filosofia (1995-1998).
Ha svolto i seguenti incarichi: Professore nel Noviziato Francescano a Rodeio, Maestro dei Postulanti (1990); Professore nel Postulantato e Vicario parrocchiale a Guaratinguetá (1991-1994); Professore e Vice-Rettore dell’Istituto di Filosofia "São Boaventura" a Campo Largo (2000-2003); Assistente Religioso della Federação Brasileira das Irmãs Concepcionistas (2001-2002); Superiore locale e Vicario Parrocchiale della Parrocchia "Senhor Bom Jesus", nell’arcidiocesi di Curitiba (2004-2006), Professore di Filosofia alla Facoltà "São Boaventura" a Curitiba (2000-2003); Vice-presidente dell’Associazione Francescana di Ensino Senhor Bom Jesus a Campo Largo, dove dal 2007 è anche Guardiano del Convento locale.
Por Moacir Beggo 

São Paulo (SP) - O Papa Bento 16 anunciou nesta quarta-feira (10/11) a nomeação de Frei Jaime Spengler, frade desta Província da Imaculada Conceição do Brasil, como bispo auxiliar para a Arquidiocese de Porto Alegre (RS). Aos 50 anos, Frei Jaime será ordenado bispo no dia 5 de fevereiro, na sua cidade natal, Gaspar, em Santa Catarina, pelas mãos do Núncio Apostólico do Brasil, Dom Lorenzo Baldisseri, tendo como coordenantes o arcebispo de Porto Alegre, D. Dadeus Grings, e o bispo da Prelazia de São Féliz do Araguaia, D. Leonardo Steiner.

A celebração acontecerá na Matriz de São Pedro Apóstolo, às 9h30. Para o povo será também um momento de muita festa, já que no próximo ano a igreja estará completando 150 anos de sua fundação.

Frei Jaime Spengler nasceu em Gaspar no dia 6 de setembro de 1960 e seu ingresso na Ordem dos Frades Menores se deu no dia 20 de janeiro de 1982, quando foi admitido no Noviciado de Rodeio, cidade vizinha da sua. Professou solenemente na festa da Imaculada Conceição, no dia 8 de dezembro de 1985, e foi ordenado presbítero no dia 17 de dezembro de 1990. De 1991 a 1995 foi mestre dos postulantes e professor no Seminário Frei Galvão. Em Roma, fez o doutorado de filosofia na Pontifícia Universidade Antonianum. Foi vice-reitor e professor do Instituto Filosófico São Boaventura, em Campo Largo (PR).

Agora, Frei Jaime é o 10º frade desta Província da Imaculada em atividade como bispo. Neste ano, ele assumiu como pároco e guardião da Fraternidade de Bom Jesus dos Perdões, em Curitiba, além de ser o vice-presidente da Associação Franciscana Bom Jesus e trabalhar como professor no Curso de Filosofia.

Frei Jaime será o 13º bispo-auxiliar de Porto Alegre

A Diocese de São Pedro do Rio Grande do Sul, desmembrada da Diocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, foi criada em 7 de maio de 1848 pela Bula "Ad Oves Dominicas", do Papa Pio IX. Em 15 de agosto de 1910, pela Bula "Praedecessorum Nostrorum" do Papa São Pio X, a Diocese foi dividida em quatro circunscrições eclesiásticas, sendo criadas as dioceses de Pelotas, Santa Maria e Uruguaiana, e Porto Alegre foi elevada à condição de Arquidiocese. Todas essas dioceses e a Arquidiocese celebraram no último mês de agosto o centenário de criação. Dom Dadeus é o sexto arcebispo e Frei Jaime será o 13º bispo-auxiliar.

A Arquidiocese de Porto Alegre está situada numa área de 13.530 km², abrangendo 29 municípios e uma população de 3.227.700 pessoas. Está organizada em cinco regiões episcopais ou vicariatos (Porto Alegre, Canoas, Guaíba, Gravataí e Cultura) e 155 paróquias (744 comunidades), das quais 32 são atendidas por religiosos e 83 estão na cidade de Porto Alegre. Para fazer todo o atendimento religioso, há 174 sacerdotes, 47 diáconos e 2.738 catequistas. Os religiosos somam 44 congregações femininas e 19 masculinas, sendo 3 congregações masculinas de religiosos leigos.

A padroeira da Arquidiocese de Porto Alegre é Nossa Senhora Mãe de Deus, que também é padroeira da cidade de Porto Alegre, desde o dia 18 de janeiro de 1773.
Extraído de http://www.franciscanos.org.br/v3/noticias/reportagensespeciais/2010/frei_jaimespengler/index.php acesso em 10 nov. 2010.

sábado, 6 de novembro de 2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Reunião de novembro 2010


Paz e bem!

A nossa próxima reunião será:

06 nov. sábado
14 horas

Para os iniciantes e formandos:
9h30min

Venham e convidem amigos e conhecidos!

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Pax et Bonum

Entre os inúmeros costumes franciscanos a saudação Paz e Bem é, certamente, um dos mais apreciados e divulgados.

Sua origem vem assim testemunhada pelas nossas fontes.

1Como saudação, ele mais tarde testificou que aprendera, por revelação do Senhor, a saudação "O Senhor te dê a paz". 2Por isso, saudava o povo, no exórdio de cada pregação, anunciando a paz. 3É certamente admirável e não para admitir sem milagre que, antes de sua conversão, para anunciar esta saudação, tivera um precursor, o qual andava freqüentemente por Assis, saudando deste modo: "Paz e bem. Paz e bem". 4Disto acreditou-se firmemente que, assim como João, preanunciando Cristo, desapareceu começando Cristo a pregar, assim este, como outro João, precedeu o Bem-aventurado Francisco na anunciação da paz, o qual, também, após a vinda do mesmo, não apareceu como antes.


5Imediatamente, pois, o homem de Deus Francisco, inundado do espírito dos profetas segundo a palavra profética, logo após o seu mencionado arauto, anunciava a paz, pregava a salvação, por suas salutares admoestações, muitos que, discordes de Cristo, viviam longínquos da salvação, uniam-se na verdadeira paz (LTC 26).

Segundo esta narrativa, a Paz anunciada pelo Precursor de Cristo, João Batista, e retomada, depois, por Francisco e toda a sua descendência, está íntima e profundamente enraizada não apenas nos primórdios da Encarnação, mas também dentro de sua dinâmica, de seu processo. Só haveremos de compreender o que seja saudar alguém desejando-lhe Paz e Bem se buscarmos sempre de novo o que significou para Cristo encarnar-se na vida e na condição do homem.

Acontece que nós, hoje, estamos muito distanciados do significado puro e originário deste mistério, o mais profundo, difícil, exigente, duro e inaudito, que um Deus pode se propor e assumir. No usual de nossa espiritualidade, hoje, costumamos amenizá-lo com figuras de “Meninos Jesus” meigos e adocicados, deitados em presépios de palhas douradas, ou, ainda um Cristo “Super Star” arrastando multidões atrás de si pelo encanto de suas pregações. Não vemos mais, a exemplo de Francisco, as agruras, os apertos que passou desde o presépio, quando desnudo foi posto sobre o feno, entre o boi e o burro, até morrer crucificado como maldito de Deus entre os dois ladrões.

O que fazemos com o Natal, fazemos também com outras tradições cristãs e franciscanas. Arrancamo-as de seu habitat natural de onde nasceram e cresceram: a pura, simples, jovial e agradecida exposição à fragilidade, pequenez, mortalidade e finitude humana. Por isso, costumamos amenizá-las com um sorriso ou discurso light e facilitado a modo dos propagandistas do consumismo moderno. Até mesmo nossos famosos I Fioretti se transformaram em literatura-moda, de mera edificação e passa-tempo de pessoas satisfeitas e bem sucedidas, espiritualmente. Muitos desses nossos costumes ou exercícios, passaram a ser apreciados e praticados não tanto pelo o que eles contêm e revelam, mas muito mais como recursos ou meios para satisfazer nossos interesses piedoso-sentimentalistas, nossos consolos e buscas de segurança espiritual, quando não para uma simples e mera terapia. Assim foi e aconteceu com nossa saudação franciscana Paz e Bem! Perdeu o mordente da jovialidade da vida encarnada na Terra dos homens.

Paz, então, passou a ser entendida como o estado de alma envolvido de serenidade pela ausência de conflitos, perturbações e contrariedades e que geralmente desemboca em sentimentos aguados de pacifismos e pacificações; uma paz que se assenta em meros acordos convencionais consigo mesmo ou com os outros que nos tira da luta pelo pão de nossa existência, conquistado com o suor do nosso rosto.

Bem por sua vez virou mero sentimento de bem-estar tipo funcionalidade bem ajeitada e bem acordada com os padrões de um bem-estar humanista e/ou “espiritual” da publicidade consumista. Em outras palavras, dizemos estar bem quando tudo funciona de acordo com as exigências pré-estabelecidas por nós ou pela organização padronizada da sociedade clerical e religiosa na qual vivemos ou participamos.

Ora, tudo isso é o contrário, o avesso do mistério do caminho percorrido por Cristo, o Príncipe da Paz, desde sua concepção até a Crucificação. Nele Paz e Bem se apresentam como processo de busca, nascimento, crescimento, amadurecimento e consumação de uma existência humana nova que se perfaz como e numa obra: o vir-a-ser, ou florescer, do nosso Humano. Um vir-a-ser que se assemelha às minúsculas sementes lançadas pelo vento no meio de pedregais, matagais e espinhedos. Como essas, exposto às agruras, intempéries e vicissitudes da vida empenha-se em existir, em vir-a-ser no frescor e na alegria, na valentia singela, florindo por florir, entregues de boa vontade à gratuidade da vida. Eis o vir-a-ser do Deus Humanado, deitado no presépio ou peregrino e forasteiro pelos povoados da Samaria e da Judéia e/ou, ainda e finalmente, padecente na Cruz, na Eucaristia, na Igreja, em cada criatura ou acontecimento: o princípio, a fonte, a raiz da Paz e do Bem!

Obra, ou operação, deve ser entendida, aqui, como o frutificar do trabalho, da labuta de toda uma existência que se insere, se encarna em cada estância do viver humano.

Aliás, saudação ou saudar, antes de gesto, ou palavra, de cumprimento através do qual se demonstra cortesia, admiração, respeito, desejando algo de bom, significa convocação para o mundo, o mistério, a obra da saúde dentro da qual cada criatura já está, pelo simples fato de ser concebida e de ser cuidada em sua existência. Nesse sentido, cada criatura ou ser é sumamente Paz e Bom. Nada do que existe é ou existe fora desse princípio ou vigor: o simples e originário mistério do viver ou a tão fulgurante e gloriosa jovialidade do ser.

Esse mistério, ou obra, porém, para nós humanos, não existe como fato ou ocorrência, mas como convocação ou conquista de uma possibilidade que nos é oferecida a modo de graça.

Quando, pois, esse modo de surgir, crescer, amadurecer e de ir se perfazendo chega à sua consumação plena dizemos que ele está bom, pronto, no ponto, maduro. O latim expressa esse fenômeno com a palavra “Bonum”. Literalmente, “Bonum” significa o “Bom”, isto é o modo de ser de quem per-faz todo o seu caminho, seguindo fielmente a finitude humana; é o bem per-fazido, que não ficou pela metade, meio-a-meio, e que nós traduzimos pelo termo “Bem”. Esse modo de inserir-se na vida, de assentar-se no lugar e no modo de ser próprio do cultivo da liberdade humana (ser livre para) é a realização humana, a bem-aventurança evangélica, a perfeita alegria franciscana: a Paz, o Bem.

Dentro dessa dinâmica, ou desse modo de viver, não é a liberdade de escolha e de opção – apanágio do nosso humano – que nos conduz à plenitude da realização humana. Fosse assim, os demônios seriam as pessoas mais felizes e realizadas do mundo. Ao invés, esse modo de ser da liberdade evangélica experimenta as agruras, os empecilhos, as cruzes e vicissitudes do caminho como convite e exercício para que termine e se transforme no modo de ser da necessidade de ser livre na decisão. Na medida em que o homem se firma e amadurece nesta decisão sua existência entra no mistério, na obra da Paz e do Bem.

Assim como na Criação Deus faz surgir do caos o mundo, a ordem, a harmonia, a Paz, o Bem; assim como na Encarnação o Verbo eterno do Pai entra em profunda comunhão com a existência humana, inaugurando o novo Céu e a nova Terra de Paz e de Bem em meio aos inimigos tendo-os como amigos; assim como outrora Francisco, hoje nós em vez de agentes e promotores da Paz e do Bem somos convocados a apenas acolhê-los na oferta que fazem de si mesmos em toda e qualquer criatura, acontecimento ou pessoa.

Para a conquista dessa graça, porém, é preciso que trabalhemos primeiro fazendo bem o necessário-inevitável expresso nos afazeres cotidianos mais simples e comuns como ter que levantar, acordar, comer, beber, dormir, cuidar dos afazeres domésticos, das nossas doenças, de nossas virtudes e defeitos, nossas funções e compromissos, etc. E nisto tudo, começando sempre pelo possível em paz. Logo, então, no tempo oportuno, ser-nos-há dado o impossível per-fazido na paz e no bem: Paz e Bem!

[Frei Dorvalino Fassini, OFM]
Foto: Pax et bonum / medea_material. 2008. Disponível em http://www.flickr.com/photos/18618970@N00/3159762643 acesso em 27 out. 2010.