sábado, 22 de outubro de 2016


30º DOMINGO DO TEMPO COMUM
23 de outubro/2016

Pistas homilético-franciscanas

Liturgia da PalavraEclo 35, 12-14.16-18; Sl 33 (34); 2Tm 4, 6-8. 16-18; Lc 18, 9-14. 
Tema-mensagem: Humildade caminho por excelência do encontro e do amor
Sentimento: Humildade 
Gesto: Bater no peito no Ato penitencial

                                                                                    Introdução
Depois de ter-nos dito e ensinado que devemos rezar chamando sempre seu Pai de “Nosso Pai” (Lc 11,1-2), hoje, Jesus vem ao nosso encontro para nos ensinar e fortalecer os passos que devemos encetar na busca de uma oração pura e verdadeira. Para isso vai nos contar a parábola do “fariseu e do publicano que subiram ao templo para orar”.
 
1. Dois homens antagônicos
A parábola tem um endereço muito certo: “alguns que se vangloriavam como se fossem justos e desprezavam os demais”. Mais que uma comparação, a parábola é a proposição de um exemplo: o que se há de evitar e o que se há de imitar, quando realmente queremos rezar, isto é, quando queremos acolher Deus em nossos corações e em nossa vida: evitar a soberba e imbuir-nos de humildade. A parábola é como uma flecha zunindo. Passa rente. Seu soar, porém, provoca o ouvinte não apenas a pensar, mas também, à advertência, à admoestação acerca de seus convencimentos, seguranças, acerca de sua justiça e de seu desprezo dos outros, enfim de sua soberba. Tanto o fariseu como o publicano, sobem ao templo para orar. Mas a oração de um e de outro nasce de fontes bem diferentes. Se no fariseu a oração brota da soberba, no publicano nasce da humildade. Se no primeiro a oração é para autojustificar-se diante de Deus, no segundo ela nasce da necessidade de receber o perdão de Deus, perdão que torna justo o pecador. Só este caminho – o da humildade – é capaz de acolher o amor e levar as pessoas à doçura do encontro, sentido primeiro, único e último da oração.
 A soberba é, certamente, o vício que está na raiz de todos os vícios como a humildade está na raiz de todas as virtudes. Acerca dessa realidade assim se expressa o mestre frei Egídio, companheiro de São Francisco: “Todos os perigos e todas as grandes quedas que aconteceram no mundo, não aconteceram senão através da elevação da cabeça, assim como se manifesta na queda daquele que foi criado no Céu, e em Adão e no fariseu do Evangelho e em muitos outros. E todos os grandes bens que aconteceram, foram feitos pela inclinação da cabeça, como se manifesta na Bem-aventurada Virgem, no publicano, no santo ladrão e em muitos outros” (DE IV).
Enquanto a primeira poderia ser considerada como a resposta do homem da Lei, do Antigo Testamento, a segunda expressa a resposta do homem novo, nascido da graça da doçura do encontro com Jesus, princípio da Nova Aliança.
 
2. Os dois modos de rezar
Quem seriam estes dois homens? O fato do texto não identificá-los significa que, antes de dois indivíduos o evangelista quer nos revelar dois modos de orientar e conduzir nossa resposta Àquele que muito nos amou. Em outras palavras, cada um de nós pode ser fariseu e publicano ao mesmo tempo. Por isso, além das palavras com as quais os dois rezam importa que prestemos atenção no modo como o fazem.
a.      O fariseu
O fariseu, tomado pelo fogo da vaidade e pelo impulso da presunção, rezava ofendendo a Deus, aos demais homens e ao publicano.
No fundo, o fariseu não rezava, não conversava com Deus, face a face, mas “consigo mesmo”. Sua oração é ego-centrada, autoreferencial. Uma idolatria de si mesmo. Agradece, sim a Deus, mas seu agradecimento está cheio de si, de autossuficiência, de autojustificação, de exibicionismo. Ele se autocompraz com o espetáculo de sua justiça e piedade. Nele, não se encontra a abertura, o espaço, o vazio para receber. Está tão cheio de si que não tem nada a rogar, nada a pedir, nenhum pecado e confessar. Ele não precisa dizer, todos os dias, como diz o original latino: “despacha as nossas dívidas, assim como nós despachamos as dívidas de nossos devedores”. Ele não deve nada a Deus. Acha até, pelo contrário, que Deus é seu devedor, pois que sempre cumpriu direitinho suas leis: nunca deixou de pagar o dízimo, de fazer suas orações, suas “caridades”,  seus jejuns, etc. Por isso, “rezava de pé”.
Além de ofender a Deus, o fariseu também insulta os demais homens porque dá graças a Deus por não ser como eles, “que são ladrões, malfeitores, adúlteros”. Segundo Agostinho a presunção dele é tão grande que ele considera todos os homens como pecadores, exceto ele. Todos os homens estão corrompidos. Ele é o único probo, íntegro, reto, puro, justo. São Gregório, por sua vez, dá alguns sinais que nos ajudam a perceber quando o homem é tomado pelo inchamento da mente que é a soberba: quando ele crê que o bem nasce exclusivamente dele mesmo; quando atribui os bens aos próprios méritos e não à graça de Deus; quando disso se autoelogia e se gaba; quando, com esses bens, quer aparecer diante dos outros, diante de Deus e diante de si mesmo como se fossem seus.
Finalmente, o fariseu não ofendia somente a Deus e os ausentes, mas também o próximo, o publicano. Os pensamentos dele “eu sou único!”,  “este publicano é como os demais!” eram como se metesse a mão na ferida aberta do pobre publicano.  Ora, imaginemos o quanto não devia sentir-se rebaixado o publicano escutando a prece deste fariseu. Há uma máxima que diz: não ponha a mão na ferida de alguém, a não ser para curá-la. O fariseu, ao contrário, põe a mão na ferida do publicano não para ajudá-lo a se salvar, mas para afundá-lo ainda mais na sua miséria. O soberbo, em sua petulância, é um caluniador, e é, ao mesmo tempo, um menosprezador do seu próximo.
b.   O publicano 
Outro, bem outro, é o modo de se aproximar de Deus por parte do publicano. Movido pela humildade e pela contrição do coração, aproxima-se com verdadeira piedade. Ele, que ficara preso às coisas da terra, amando mais aos bens deste mundo, considerando-se indigno nem sequer ousa olhar para o alto. Ao contrário, bate no peito, não apenas porque do seu coração saíram tantos maus pensamentos e maldades, mas, também, para tentar acordá-lo da letargia em que os vícios o mergulharam. Em vez de se louvar diante de Deus, se penitencia e roga a misericórdia: “sê propício a mim, pecador”. Não se irrita com a presunção do fariseu. Uma vez que sua ferida ficou exposta aproveita a ocasião para apresentá-la ao divino Médico, pedindo-lhe a cura, a salvação e a restituição da saúde de sua alma.
Fazendo eco à humilde oração deste verdadeiro fiel, assim canta o salmista de hoje: “O pobre clama a Deus e Este o escuta! [...] Minha alma se gloria no Senhor; que ouçam os humildes e se alegram!”  O mesmo sentimento encontramos no Magnificat de Nossa Senhora: “A minha alma engrandece o Senhor... porque olhou para a humildade de sua serva...”. Também a primeira leitura de hoje nos conduz para dentro do mistério do nosso Deus que não aceita as orações e as oferendas dos soberbos – que parecem querer suborná-lo – mas que acolhe de preferência a oração dos humilhados e dos fracos, a saber, do pobre, do órfão, da viúva. Estamos, aqui, diante dos anaviîms, os pobres, os humildes de Deus; dos anieh rouah, os “humilhados do espírito” cuja presença perpassa todas as páginas da Sagrada Escritura. O sopro da liberdade jovial de Deus, o Espírito, vem ao encontro dos humilhados como misericórdia, ou seja, como amor fiel, entranhado, visceral, matricial, que se con-descende e se com-padece e, assim, liberta. Deus se mostra receptivo aos humilhados, tratando-os com ternura e compaixão. O humilde, o humilhado, é chamado, em grego, “tapeinós” (pobre). É o “pequenino” que, curado de seu ressentimento, vive concentrado na finitude da vida, contentemente, alegremente, “doado à tarefa do aqui e agora” (HH). É para estes que o olhar de Deus se volta, de modo a se comprazer.
A parábola, diz-nos Agostinho, mostra como o Juiz deixa ir embora o acusador soberbo sem justificação e absolve, isto é, declara justo, o réu confesso, isto é, o pecador que se humilhou com a sua confissão. O primeiro tinha se justificado a si mesmo. Por isso, não podia ser justificado por Deus. O segundo, confessou sua injustiça, e, por isso, pôde ser tornado justo por Deus. São João Crisóstomo, por sua vez, diz que nesta parábola aparecem dois carros com dois condutores. Enquanto o carro da justiça é guiado pela soberba, o carro do pecado é guiado pela humildade. A soberba põe a perder a justiça. A humildade supera o peso do pecado, e reconduz o pecador ao lugar da salvação.
 
3. Soberba caminho para o inferno humildade caminho para o Céu
Jesus termina a parábola dizendo: “todo o homem que se eleva será rebaixado, mas quem se rebaixa será elevado”. Nós costumamos interpretar este dito do Senhor na dinâmica do comércio, como se à humilhação seguisse o merecimento da exaltação e como se à exaltação seguisse o mal da humilhação. Mas, e talvez, possamos interpretar o dito da seguinte maneira: a humilhação da humildade é, ela própria, elevação e enobrecimento enquanto que a elevação da soberba é, ela própria, degradação e envilecimento. É que o humilde, pela própria humildade, mostra grandeza e nobreza, enquanto o soberbo, pela própria soberba, mostra baixeza e vileza. Trata-se do mesmo princípio que rege a relação da Ressurreição com a Cruz. Cristo não precisou da Ressurreição para provar sua glória porque na própria Cruz Ele tem sua grandeza, sua glória, sua alegria. A humildade, com efeito, dá à alma humana uma magnanimidade que a eleva para a semelhança de Deus, a humildade em Pessoa. Por isso, humildade é grandeza. Só os grandes, sábios e nobres podem ser humildes e só os humildes são os verdadeiramente grandes, sábios e nobres. E o são porque eles dominam as tristezas, suportam as tribulações com fortaleza, desprezam as vaidades terrenas e apreciam as verdades celestes. Enfim, grandes são os humildes porque, junto com o Humilde dos humildes – Jesus Cristo crucificado – carregam e guardam para si os pecados do mundo. A soberba não é grandeza de alma verdadeira porque o homem se rebaixa tornando-se escravo de suas próprias ilusões. Confundir a grandeza e a nobreza de alma com a soberba é como confundir a robustez do corpo sadio, diz São Basílio, com a obesidade de um corpo hidrópico.
Nos Fioretti de São Francisco, se narra um episódio muito gracioso. Frei Masseo ouvindo falar da grandeza e da beleza da humildade, jurou lutar por conquistá-la. Nesta luta, ele desesperou, pois entendeu que a humildade não poderia nunca ser uma conquista de seu eu. Então, no auge do seu desespero, apareceu-lhe o Cristo. Este o perguntou-lhe o que ele daria para receber a humildade. Masseo respondeu: as meninas dos meus olhos. E Cristo, então, graciosamente, disse-lhe como num gracejo: “Fica com as meninas dos seus olhos, e recebe de mim a humildade de graça”. A partir de então, imitando o arrulho de uma pomba, passou a orar sempre na doçura desta graça.
 Conclusão
A humildade é caminho claro de ascensão da alma para Deus e de comunhão com Ele, com os homens e com todas as criaturas > Céu (Cf. LS 66). A soberba, ao contrário, é caminho de rebaixamento para os abismos escuros da miséria do isolamento de si e em si mesmo > Inferno. Por isso, diz o salmista: a melhor oração não são nossos sacrifícios, mas, antes, um espírito contrito, um coração arrependido e humilhado. Eis o que o Senhor, jamais haverá de desprezar (Sl 50,19). 
Foi esta virtude que elevou o humilíssimo Francisco para o alto e a fixar sua morada em Deus; foi esta virtude que o levou, pela compaixão, a transformar-se em Cristo e pela condescendência a inclinar-se reverentemente para o próximo, principalmente, para o leproso e para todas as demais criaturas. Enfim foi esta virtude que o levou para o estado da inocência original (Cf. LM 8,1 e LS 66).

Fraternalmente,
Marcos Aurélio Fernandes e Frei Doralino Fassini.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016





SOLENIDADE DE SÃO FRANCISCO

4 de outubro de 2016
Pistas homiléticas

Liturgia da Palavra: Eclo 50,1.3-7; Sl: 15,1-2a.5.7- 8.11; Gl 6,14-18; Mt 11,25-30

Tema-mensagem: São Francisco mestre na restauração da Igreja, da humanidade e da criação
Sentimento: gratidão e alegria


Introdução
Como no passado, também hoje, a Igreja precisa ser renovada, a humanidade restaurada e a criação amada, protegida e defendida. Mas, quem nos servirá de exemplo e modelo, quem será nosso mestre nesta ingente e urgente missão (LS 10)? “São Francisco de Assis!”, responde nosso Papa. Na alegria e no júbilo façamos, pois a memória deste mistério!

1. Começar por onde ele começou
Fazer de São Francisco modelo e exemplo de restauração, significa acolher sua inspiração originária e o vigor de sua obra renovadora e não ficar apenas contando seus feitos, suas vitórias e glórias. Por isso, precisamos começar por onde ele começou e não por onde ele terminou.
Segundo os biógrafos, desde cedo ardia em Francisco o desejo de tornar-se grande, ilustre, conhecido e valioso para si e sua cidade, sua gente. Através de um misterioso sonho, porém, sentiu-se chamado a trocar os senhores deste mundo pelo “Senhor” de todos os senhores (Cf. LTC 6). Posteriormente, na capelinha de São Damião, este Senhor revelou-se em toda a sua plenitude convocando-o a tornar-se seu companheiro na vocação e missão: “Francisco, não vês que minha casa está se destruindo? Vai, pois, e restaura-a para mim” (idem, 13).
Desde então, o júbilo, a alegria deste encontro e desta missão passou a ser a luz de sua vida, a alma de todos os seus empreendimentos, como nos relatam seus biógrafos: “Desde aquela hora, seu coração de tal modo ficou ferido e derretido ante a memória da Paixão do Senhor, que sempre, enquanto viveu, levou em seu coração os estigmas do Senhor Jesus, como posteriormente apareceu claramente pela renovação dos mesmos no seu corpo, admiravelmente realizados e clarissimamente demonstrados” (LTC 14). São Boaventura também nos conta como o grande Papa Inocêncio III viu no Pobrezinho de Cristo o cumprimento de um sonho. Num sonho, o Pontífice vira a basílica do Latrão “prestes a ruir. Mas, um homem pobrezinho, pequeno e desprezado a sustentava, com as próprias costas por baixo para não cair”. E conclui São Boaventura seu relato atestando que o Pontífice, ao ver este pobre, Francisco, disse: “é este, na verdade, aquele que sustentará a Igreja de Cristo com obras e doutrina” (Legenda Maior c. 3, n. 10).
Por isso, a primeira leitura de hoje, com justiça, coloca Francisco na companhia do grande Simão, um importante sumo sacerdote que em seu tempo comandou a restauração do Templo e fortificou a cidade de Jerusalém. Assim, a exemplo daquele homem de Deus, também Francisco aparece a nossos olhos “como a estrela da manhã no meio da nuvem, como a lua nos dias em que ela está cheia, como o sol resplandecendo sobre o Santuário do Altíssimo, como o arco-íris brilhando entre nuvens de glória” (Sirac 50, 6-7).
Comentando esta passagem, o dominicano Mestre Eckhart diz que este “como” deve ser entendido como um advérbio, isto é, como o “modo de ser de quem está junto do verbo”. E lembra que na Sagrada Escritura Jesus Cristo é chamado de o Verbo por excelência: “no princípio era o Verbo” (Jo 1, 1). Daí, então, ele tira uma lição muito bela e importante para nós: todo cristão deve ser um advérbio, isto é, uma palavra que vive junto do Verbo. Alguém que, aos poucos, através de seu seguimento busca encarnar o “como” de Cristo, ser “da mesma forma que” Cristo, “do mesmo modo que” Cristo. E quem, depois de Nossa Senhora, mais e melhor percorreu este caminho e alcançou a “perfeita alegria”, isto é, o máximo de restauração e realização humana senão Francisco?!
A mesma lição nos é dada pela “estrela matutina”, que é a mesma “estrela vespertina”. E, de novo, Mestre Eckhart comenta: Mais que todas as estrelas, esta estrela está sempre igualmente próxima do sol; nunca está mais distante ou mais próxima do sol, nem mais nem menos. Ora, não foi assim com Francisco?! Ele foi o que seu nome, “Francisco”, diz: um homem “franco” (“Francisco” vem de França > francês > franco) isto é, franqueado, desimpedido, desprendido, livre. E toda a sua liberdade se consumou em desvencilhar-se do mundo e de seus senhores para estar tão só e unicamente vinculado, preso a Cristo e sua missão pelo amor ardente, semelhante ao ardor dos serafins. Assim, Cristo, o Homem perfeito, o Homem de todos os homens, o Senhor de todos os senhores, o único Homem confiável, era o sol que iluminava e acalentava Francisco na busca de seu novo humano; o humano que se estende a todos os homens e, até mesmo, às mais ínfimas criaturas a ponto de chamá-las de “irmãos” e de  “irmãs”.

2. Mensageiro das odoríferas palavras do seu Senhor
Assim, Francisco pela sua familiaridade com Cristo tornou-se pleno de Deus, pleno de sua claridade e de sua força passando a sentir e a ver também cada criatura como sendo plena, cheia de Deus. Por isso, “quem nada mais conhecesse a não ser as criaturas não precisaria pensar em nenhum sermão, pois toda criatura é plena de Deus e é um livro”, diz o mesmo Mestre.
Era assim que Francisco ouvia e lia a Palavra de Deus: o Verbo incriado, no qual todas as coisas foram criadas; o Verbo encarnado, no qual tudo foi santificado; o Verbo crucificado, no qual todas as coisas foram reconciliadas: o céu e a terra, o invisível e o visível. Mergulhado em Deus, através de Jesus Cristo crucificado, Francisco sentia e via todas as criaturas como crias e crianças de Deus. Estando do outro lado do mero uso, do mero consumo ou utilidade das coisas, ele as sente e vê como crianças partindo da sua origem - o Pai comum – como meninos e meninas a sair de seu lar familiar. Por isso ele brinca, se encanta e canta com cada uma delas chamando-as de “meu Irmão Fogo”, “minha Irmã Água”, etc. É desta assemelhação que fala São Paulo na segunda leitura: “quanto a mim, não pretendo jamais gloriar-me a não ser na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o  mundo”; é desta assemelhação, também, que nasce e floresce a marca, o modo de ser, a identidade mais profunda, a glória maior do cristão, tão bem assinalada pelo mesmo São Paulo: “De agora em diante, ninguém mais vai me molestar porque trago em meu corpo as marcas de Jesus Cristo crucificado” (Gl 6,17). Dentro deste mesmo sentimento falou o Papa Francisco aos cardeais: “Quando caminhamos sem a Cruz [...], não somos discípulos do Senhor: somos mundanos, somos bispos, padres, cardeais, papas, mas não discípulos do Senhor”.  
Por isso, não é a toa que a tradição franciscana sempre viu São Francisco muito ligado ou próximo de São Paulo. A exemplo deste, também o jovem cavaleiro de Assis, no caminho das Apúlias, foi derrubado da cavalaria “do mundanismo da glória humana e do bem estar pessoal” (EG 93) para tornar-se “administrador e mensageiro das odoríferas palavras do seu Senhor que é o Verbo do Pai e as palavras do Espírito Santo, que são espírito e Vida” (Cf. 2CFi). E assim, ele e seus companheiros, “indo pelo mundo, como ’peregrinos e forasteiros’, nada levando consigo a não ser Cristo, [...] faziam grandes frutos nas almas, pois eram verdadeiros ramos da videira viva” (Atos 4).

3. A sabedoria dos pequeninos e dos pobres
Enquanto o homem do mundo procura construir e consertar o mundo pela pseudo-sabedoria do prepotência, quando não da violência e das armas, Cristo propõe o caminho da loucura da Cruz (Cf 1Cor 1,18), o caminho dos pequeninos e dos pobres, tão bem decantado por Ele mesmo no Evangelho de hoje: “Eu te louvo, Senhor do Céu e da Terra porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos”.
Cristo, o maior, o máximo, o mestre se “abreviou, se apequenou” (VD 12), se fez menor, o mínimo, o servo, o discípulo. Aquele que não cabe no universo inteiro coube num coxinho de estrebaria e depois nos braços de uma cruz e num pedacinho de pão. Esta é a sabedoria da nova Escola, da nova Ordem inaugurada por Cristo com seus Apóstolos e redescoberta por Francisco, a sabedoria que salva, restaura e redime o humano de todos os homens de todos os tempos. Sabedoria que significa Caminho, Escola, Ordem onde o homem se exercita para ser de novo filho no Filho; para fazer-se menor com o menor, mínimo com o mínimo, irmão e servo de toda a humana criatura.
Por isso, Mestre Eckhart, num sermão pronunciado na festa de São Francisco relembra que ele é louvado por estas duas coisas: a verdadeira pobreza e a verdadeira humildade.
Pobreza que não significa um vazio, uma carência, uma lacuna ou ausência de, mas o júbilo da ter encontrado a riqueza, o tesouro de sua vida: o “Deus meu e tudo”. Por isso, Francisco em vez de lamentar-se ou considerar-se pobre sempre se teve como a pessoa mais feliz, realizada e rica da terra. Deus é o seu próprio. Por conseguinte, a ele – Francisco - pertence também tudo o que é de Deus: o céu e a terra e tudo quanto neles há. E dele são também os anjos e os santos e tudo quanto é deles.
Também a virtude da humildade evangélica ou franciscana antes de ignorância, fraqueza, timidez, inferioridade, subserviência significa ser tomado pelo vigor que nasce da gratuidade do encontro, do amor. Desta virtude - a humildade - pela qual São Francisco é louvado, diz um mestre na Espiritualidade franciscana: “A humildade é o vigor do céu e da terra. O vigor do céu e da terra é grande, imenso, inesgotável e sereno. Terno e carinhoso, tudo envolve na sua transparência cordial. De nada se apossa, tudo deixa ser na inocência nasciva da admiração. Singelo e simples, variegado e uno, vivo e criativo, jovial e profundo a todos serve com alegria. É seguro e firme como a bondade do pai, solícito e benigno, delicado como o olhar e o toque da mãe. [...] Por isso o vigor do céu e da terra não encabula a ninguém; não provoca a gratidão nem admiração. Silencioso como nada, deixa ser tudo e a todos à vontade, em casa” (HH).

Duas conclusões e uma prece
Não será este o modo de ser do Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo? O modo de ser d’Ele mesmo, o nosso Mestre? “Aprendei de mim, pois sou manso e humilde de coração”. Não será este o modo de ser do seu Sopro Sagrado?  Não será este o  modo de ser – caminho – a sabedoria que o cristão precisa amar e seguir para reconstruir a Igreja; modo de ser, caminho, sabedoria, ordem  que  o homem de hoje precisa seguir se quiser realmente restaurar seu humano, o humano de todos os homens, se quiser reconstruir sua Casa Comum, a Criação!?
            Mas, para que isto aconteça, é preciso recordar que São Francisco antes de um ambientalista ou pacifista foi um convertido. Uma conversão que nasce e floresce da alegria do encontro com a Boa Nova de Jesus Cristo crucificado.

“Altíssimo e glorioso Deus,
ilumina as trevas do meu coração:
Dá-me Senhor uma fé reta, uma esperança certa
e uma caridade perfeita, senso e conhecimento
para que realize teu santo e veraz mandato. Amém” (OC).



"É como reformador que a Igreja celebra Francisco ao propor, na primeira leitura de sua solenidade, o exemplo de um reformador do Templo de Jerusalém. Francisco foi grande reformador. Reformar é reconstituir todas as coisas na sua forma originária, isto é, no vigor de ser da origem. Para reformar, é preciso revolucionar. Mas reformar é mais do que revolucionar. O revolucionário é um homem que diz não. Mas diz não por ter dito sim. Reformar, ao modo de Francisco, significa lançar o fundamento e restaurar o vigor e o esplendor do ser, num novo sim, na força de uma nova determinação do princípio. É ser fundador, desde o princípio que tudo funda. Mas, por e para revolucionar, por e para reformar todas as coisas desde o vigor da inocência de um novo sim, é preciso transformar. E não é qualquer transformação que interessa. O que interessa é a transformação do espírito. Espírito, aqui, não diz uma parte do homem. Mas o seu todo. O seu todo, corpo e alma, enquanto seu ser está enraizado na liberdade do ser e no ser da liberdade dos filhos de Deus. Melhor do que espírito, talvez seria dizer coração. Pois o espírito é, no fundo, amor. Francisco revela que a essência, a forma de vida, do discipulado de Cristo é o amor universal, a caridade, o "amai-vos uns aos outros como eu vos amei". Coração diz, então, a cordialidade de ser como amor. Francisco traz a reforma, a repristinação de todas as coisas, a partir do vigor do amor universal, da fraternidade, que surge desde o amor do Cristo Crucificado, que, amou o mundo a ponto de consumar sua entrega definitiva por ele e amou os seus até o fim. Não será a partir desta necessidade de reforma que o Espírito concedeu à Igreja, hoje, um papa chamado Francisco?"



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Pistas homilético-franciscanas

 20º DOMINGO DO TEMPO COMUM
14/08/2016

Liturgia da Palavra Jr 38,4-6.8-10; Sl 39; Hb 12,1-14; Lc 12,49-53
Tema-mensagem: Com o fogo da Paixão de Cristo empunhemos a espada da Cruz para a luta
Sentimento de lutadores de Cristo.
Introdução:
No evangelho de hoje a fala de Jesus se caracteriza com alguns ditos muito fortes e provocantes: “Fogo vim trazer à terra – e, o que quero senão que ele se acenda? ”, “Vós pensais que vim trazer paz sobre a terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divisão”. À primeira vista parece contradizer toda a sua fala e toda a sua prática acerca da paz e da misericórdia. Na verdade, trata-se de mais uma tentativa de não apenas tornar conhecido e aceito o sentido de sua vocação e missão - bem como a vocação e missão de seus seguidores - mas também de impedir que a grandeza desta vocação-missão caia no marasmo da podridão de uma vida cristã e religiosa acomodada e comodista. Para isto ele usa o recurso dos “ditos paradoxais”.
A finalidade dos “ditos paradoxais”, em grego “Paradoxia”, a exemplo da fala dos profetas, não é outro senão despertar a atenção, provocar o espanto e a admiração para um fogo que, neste caso, crepita de baixo das cinzas do nosso cotidiano.
  1. A paixão (fogo) de Jesus por um Pai louco por seus filhos
Na Sagrada Escritura, muitas vezes, Deus se revela como fogo: “um fogo devorador” (Hb 12,29) que queima sem se consumir como na sarça ardente de Moisés. Este Fogo veio ao mundo definitivamente e em plenitude através de Jesus Cristo. Sua revelação tem início na famosa e admirável teofania no rio Jordão: Os céus se abriram, e Ele viu o Espírito de Deus descer em forma de pomba e pousar sobre Ele. E do céu veio uma voz que dizia: “Este é meu Filho muito amado, no qual ponho todo meu bem-querer (Mt 4,16-17). Testemunho que se repetirá na teofania do Tabor.
Aí estava, em resumo, o fogo, a luz do novo Céu e do novo Homem que Jesus, em nome de seu Pai, devia inaugurar em Si e a partir de Si para toda a humanidade, para cada homem que então viesse a esse mundo. A consumação desta revelação se dará, depois, na Cruz.
Aceso no lenho do sacrifício da Cruz, este fogo se eterniza dividindo o mundo e sua história. Agora, ninguém mais, nem mesmo as criaturas irracionais, ficará isento ou excluído do calor da Paixão de Jesus e da luz de suas labaredas. A partir da cruz, o fogo misericordioso do Pai faz nascer das cinzas do velho homem, caído e decaído pelo pecado, um homem novo; de um homem meramente carnal, terrestre nasce um homem celestial, divino; o ardor de suas chamas faz derreter as geleiras da indiferença e do desamor nos corações; faz amolecer os corações endurecidos pelo ódio, rancor, inveja, prepotência e soberba. De uma história de desgraça faz surgir uma história de graça, perdão e misericórdia.
Em Pentecostes, este fogo de Cristo se manifesta em plenitude como o sopro abrasador do Espírito Santo1 que invade o universo inteiro. Para fazer-se digno deste fogo, São Francisco rezava ao “Onipotente, eterno, justo e misericordioso Deus” para que concedesse a ele e a todos os seus frades a graça de viverem sempre “iluminados e abrasados pelo fogo do Espírito Santo...” (CO)
  1. Devo receber um Batismo e como estou ansioso até que isto se cumpra
O segundo dito de Jesus, paralelo ao primeiro, fala de batismo: “tenho que ser batizado com um batismo – e como estou angustiado até que ele se consuma”. Se o primeiro dito remetia ao elemento fogo, o segundo remete ao elemento água. Batismo é imersão, banho, mas também, provação, teste, testemunho. Por isso, o banho de Jesus, em lugar de água, será de sangue, de martírio. É evidente, então, que, também aqui, Jesus está se referindo à paixão e morte na cruz, ao seu banho de sangue. Banhado pelo próprio sangue, ele purificaria nossas almas e inflamaria nossos corações com o fogo do Espírito Santo. Segundo santo Ambrósio, Jesus ao dizer que estava “ansioso” revela a grandeza da misericórdia de seu coração. Dizia ele: “A misericórdia do Senhor é tão grande que o obriga [...] a apressar sua paixão para conosco”. O bispo de Milão, observa ainda que o verbo latino “coangor” usado para expressar este sentimento significa justamente: “angustiar-se com2. Jesus, portanto, como um bom pai ou uma boa mãe com os sofrimentos de seus filhos, se angustia conosco, com nossas misérias e desgraças humanas. Nisso se manifesta a sua comiseração, a sua compaixão, para conosco, enfim, a sua misericórdia, amor cordial, visceral. Seu coração vive apertado, ansioso até chegar o momento de receber o seu batismo de sangue, até chegar o momento em que ele dirá: “Tudo está consumado. Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito. Terminei a obra que me confiaste. Entrego em tuas mãos os homens que me destes. Agora eles são de novo teus filhos muito queridos como Eu o sou”.
Cristo torna-se assim, o próprio fogo de Deus que começa a incendiar o coração dos apóstolos e dos seus seguidores. Por isso, no dizer de São Martinho, também “o homem é fogo”.
3. Não vim trazer a paz, mas a divisão
Depois destes dois ditos Lucas acrescenta outros pronunciamentos paradoxais de Jesus. “Porventura pensais que é a paz que eu vim estabelecer na terra? Não, eu vo-lo digo, mas antes a divisão. Pois doravante, se houver cinco pessoas numa casa, elas serão divididas: três contra duas e duas contra três. Dividir-se-ão pai contra filho e filho contra pai, mãe contra filha e filha contra mãe, sogra contra nora e nora contra sogra”.
Nós perguntamos: Mas, como assim? Cristo não nos veio trazer a paz? Não anunciaram os anjos, na noite de Natal, que enfim chegara a Paz na Terra para todos os homens amados por Deus?! Sim, mas a paz que Cristo veio estabelecer não é uma paz enganosa, não é a paz do mundo, uma paz vulnerável, passageira, assentada em conchavos humanos e que se estende pelo curto espaço de tempo entre uma guerra e outra. Por isso, ele mesmo declara e insiste: “Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá” (Jo 14, 27). Por isso, a paz que Cristo introduz no mundo é cara e preciosa porque tem sua origem n'Aquele que deixa as alturas celestes para morar no meio da baixaria de nossas vilezas; n'Aquele que, morrendo na Cruz, reconciliou de vez e para sempre o Céu e a Terra, o Criador e a criatura. Paz, aqui, portanto, é luta, combate para criar o Reino de Deus, onde as pessoas se perdoam, se reconciliam, vivendo em profundo respeito e acolhimento das diferenças e dos diferentes, principalmente com os mais vis, condenados, maltratados e desprezados pela sociedade humana. Assim, o cristão em vez de pacifista será sempre um lutador, um guerreiro, um mártir da paz; alguém que, em vez de gozar dos benefícios procura ser um fazedor da paz, que suporta o sofrimento desta luta.
Por isso os discípulos do “Príncipe da Paz” saberão viver em harmonia com todos e com tudo no meio do combate, da tentação e da perseguição. Ninguém e nada lhes fará mal. É neste sentido que a segunda leitura de hoje, partindo do exemplo dos atletas e lutadores, exorta os cristãos a se disporem para a paciência (hypomoné) no combate (agón), assim recomendada por Jesus: “Na vossa paciência tornareis próprias as vossas vidas” (Lc 21, 19: en te hypomoné hymon ktésasthe tàs psýchás hymôn).
A espada que Cristo veio trazer é para cortar até à raiz o demônio da paz falsa, assentada na tranquilidade da auto-satisfação e na acomodação que busca suas próprios sastisfações e interesses. A esta paz, São Francisco chamava de “acídia”. No famoso texto Sacrum Commercium, ouvimos a Senhora Pobreza lamantar-se: “Mas ai! Depois de pouco tempo, fez-se a paz e aquela paz era mais grave do que a guerra (...). O diabo, enfurecendo-se contra muitos que estavam comigo, fazia com que o mundo os aliciasse e a carne cobiçasse a ponto de muitos começarem a amar o mundo e as coisas que são do mundo” (c. 12).


  1. Ficarão divididos o pai contra o filho, o filho contra o pai ...
Do mesmo modo, há uma união que traz a ruína espiritual ao homem, especificamente, ao discípulo de Cristo. Esta falsa união não é a conquista da identidade e a acolhida da diferença no amor. É, antes, a indiferença. É o ser-com-os-outros que se dá quando o homem é “como todo o mundo”. O “todo o mundo”, aqui, porém, é “os outros” do domínio público, da publicidade. É o “a gente”: o impessoal, o indiferenciado e indiferente. É o caminhar indeciso e inconsciamente por caminhos batidos e largos nos quais tudo se pode, tudo é permitido e que, por isso, arruínam o homem. Para seguir Cristo, é preciso decisão. É preciso cisão, corte com o mundo, isto é, desprender-se dos modos de ser e de viver dos homens que vivem no esquecimento de que todos temos ou melhor somos filhos de um único e mesmo Pai, visceralmente apaixonado por todos. Para isso, porém, é preciso que tenhamos a coragem de cortar nosso amor aos bens e aos prazeres terrenos, para poder vincular-nos a Ele, a Cristo no seguimento de seu caminho, de suas “pegadas”, como dizia São Francisco.
De modo semelhante, há uma união familiar que é danosa para o homem. É quando todos vivem numa simbiose indiferenciada, confusa, inconscia; quando a unidade com os outros do mesmo sangue, pai e mãe, filhos e irmãos leva a não desenvolver uma individualidade e uma identidade pessoal diferenciada. Quando os pais não educam os filhos para a autonomia e autorresponsabilização pela vida própria os levam à ruina, a perdição. O que interessa, acima de tudo, “é gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento da sua liberdade, de preparação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia” (Amoris Laetitia, 261).
Para seguir Cristo, é preciso por a família na sua relação maior: o mistério da SS. Trindade, princípio de toda união familiar. Ela não pode, portanto, ser um valor absoluto. Por isso, os pais não têm o direito de se colocar entre Cristo e os filhos. O não de São Francisco ao seu pai, Pedro de Bernardone, era necessário, para dizer sim ao seguimento de Jesus Cristo e poder chamar a Deus de “Pai nosso que estás nos céus”. O discípulo de Jesus precisa ser um ser singular: um verdadeiro indivíduo. A sua decisão por Cristo o torna só. Ninguém pode decidir por ele, nem mesmo as pessoas mais íntimas e familiares. Nas palavras de Bonhoeffer:
No chamado de Jesus já aconteceu a ruptura com as condições naturais nas quais o homem vive. Ruptura que não é cumprida por aquele que está no seguimento, mas que Cristo mesmo já realizou no momento em que o chama. Cristo desvinculou o homem da sua imediatez com o mundo, e o pôs na imediatez consigo mesmo. Nenhum homem pode seguir Cristo, sem reconhecer e aceitar a ruptura já cumprida. Não é o árbitro de uma vida, guiada pelo próprio querer, mas Cristo mesmo a guiar o discípulo em tal ruptura (...). Com a sua encarnação, ele se pôs entre mim e as realidades factuais do mundo. Não posso mais voltar atrás. Ele está no meio.
Conclusão
Eu vim lançar fogo a terra... Eu vim trazer divisão...” são ditos fortes para exortar-nos à luta sem tréguas, ao combate contra tudo e conta todos que nos afastam de nossa comum origem: o Pai do Céu; pois Dele (de)pendemos e a Ele devemos devolver e restituir tudo e todos, pincipalmente nossos entes mais queridos.
Fraternalmente,
Marcos Aurélio Fernandes e Frei Dorvalino Fassini
Informações: dorvalinofassini@gmail.com






1 Significativa é a semelhança entre a figura mítica de Prometeu, na cultura grega, e realidade histórico-salvífica de Jesus Cristo, no Novo Testamento. Prometeu, um deus amante dos homens, rouba o fogo do céu, dos deuses, e o traz para a terra, compartilhando-o com os homens. Também Prometeu aparece atado a um lenho, sofrendo o suplício por ter amado os homens. Também ele é consumido, mas sua força se renova a cada dia. Dentre aquilo que Simone Weil chamou de “intuições pré-cristãs” dos gregos, parece estar a figura de Prometeu.
2 O verbo grego é “synéchomai”, quer dizer, “ter-se estreito”, “manter-se apertado”. “Angustia”, com efeito, quer dizer estreitamento, aperto, do coração.