quinta-feira, 14 de julho de 2016

Pistas homiléticas


16º Domingo do Tempo Comum
Pistas homiléticas
17/07/2016
Liturgia da Palavra:­ Gn 18, 1-10ª; Sl 14; Cl. 1, 24-28; Lc 10, 38-42
Tema-mensagem: Da hospitalidade como concreção do amor
Sentimento: Alegria de ser hospedeiro do divino
Introdução:
No domingo passado celebramos o amor a Deus e ao próximo como o maior, o primeiro e único mandamento e como o único caminho da vida eterna. Hoje, através, principalmente, da 1ª leitura, do salmo e do Evangelho, celebramos a floração ou concreção maior deste mandamento e da vida eterna: a alegria da hospitalidade divina.
  1. Os três misteriosos peregrinos, acolhidos por Abraão
A primeira leitura de hoje nos relata como “o Senhor apareceu a Abraão nos carvalhos de Mamrê, quando ele estava sentado à entrada da tenda em pleno calor do dia” (Gn 18, 1). Uma singularidade deste texto é que se fala ora de “três homens”, ora como se os três fossem um. Assim, Abraão se prostra diante dos três e diz: “Meu Senhor, se pude encontrar graça a teus olhos, digna-te não passar longe do teu servo”. E Abraão se desdobrou em múltiplos cuidados e alegria para receber em sua tenda aqueles três homens misteriosos, ou, se quisermos, o seu “Senhor”.
É proverbial a hospitalidade dos povos nômades. Aqui, a hospitalidade permite-lhe receber anjos, isto é, enviados do Mistério, ou, ainda, mensageiros do Senhor. Mais ainda: a hospitalidade lhe permite acolher, neles e com eles, o próprio Senhor. Com efeito, o Senhor lhe vem ao encontro, acompanhado de duas figuras angélicas. Desta visita divina, acolhida com um generoso e concreto ato de fé, resultou para Abraão a promessa de que, no ano seguinte, no “tempo da vida” (chuvas de outono? Primavera?), Sara, a estéril, daria à luz um filho, a quem Abraão poria o nome de Isaac.
Os padres da Igreja, entre eles Eusébio de Cesareia (séc. IV), falam de uma imagem que apresentava a visita dos três homens a Abraão como sendo uma figuração do mistério trinitário. No século XV, um monge russo, Andrei Rublev, fez um ícone da ceia destes Três, celebrando o mistério da Trindade. O ícone da hospitalidade de Abraão se torna, então, o ícone da Trindade. Três Anjos ceiam junto ao carvalho que aparece ao fundo perto de uma casa e de uma montanha. Abraão e Sara não aparecem. No primeiro plano, mostram-se os divinos hóspedes reunidos na ceia. Do mais cotidiano do cotidiano, do mais ordinário do ordinário emerge o evento extraordinário. É este evento extraordinário que se põe em primeiro plano. Ele emerge no círculo da eternidade que envolve os Três divinos hóspedes em comunhão. O brilho dourado do mistério divino envolve a tudo e todos. É a glória de Deus que resplende. Uma atmosfera de descanso, isto é, de repouso e de serenidade se deixa transparecer. No centro, está um cálice, com a carne do vitelo, o animal jovem, que fora sacrificado, e ofertado aos divinos hóspedes, evocando, assim, a encarnação e a paixão de Jesus Cristo – o Cordeiro imolado - que está no centro dos desígnios misteriosos da Trindade na história da salvação. Os três aparecem como três seres alados. As asas são o poder do espírito.
Eles são bem semelhantes uns aos outros, o que evoca a consubstancialidade dos Três: eles são não somente unidos, eles são uma única coisa e o mesmo. Os Três peregrinos carregam, cada um, um báculo, símbolo de sua regência. O carvalho, por sua vez nos remete à cruz, árvore da vida, a montanha, à revelação e a casa à Igreja, habitação do espírito. Seus olhares não se voltam para quem contempla o ícone, como costuma acontecer, mas se voltam uns para os outros, na circularidade de uma comunhão (comum-união: koinonía) perfeita.
  1. Uma mulher de nome Marta, alegre e graciosa recebe o Senhor
O cultivo da mensagem evangélica acerca da hospitalidade é uma das marcas do evangelista Lucas. No evangelho de hoje, Jesus, a caminho de Jerusalém, recebe hospitalidade em Betânia: “Estando eles a caminho, Jesus entrou em uma aldeia, e uma mulher chamada Marta o recebeu em casa” (Lc 10, 38). O Senhor se fez peregrino e viandante por nós neste mundo. Quis precisar da acolhida dos seres humanos. Renova-se, assim, aqui, a tônica de toda a História da salvação: Deus procurando quem o acolhe, para, por fim, tornar-lhes seus hóspedes, e assim marcar sua presença e ser um Deus-conosco. Agostinho, admirando, diz: a serva recebe o Senhor; a enferma, o Salvador; a criatura, o Criador!
Mestre Eckhart, no sermão alemão II, fazendo uma leitura mística deste texto, frisa duas coisas neste versículo. A primeira, é que Marta, que recebe o Senhor, é chamada de “mulher” (gyné); a segunda, é que Jesus entrou num “burgosinho” (kômé).
Marta era, primeiramente, no dizer do evangelho, uma “mulher”. Eckhart lê assim: “uma virgem que era uma mulher”. Jesus, diz ele, é virginal e livre. Assim, para recebê-lo, é preciso que o espírito humano seja igualmente virginal e livre. Então, Jesus – virgem e livre - pode ser recebido por Marta - “virgem e mulher”.
O espírito do homem é virginal e livre quando serve como Marta: expedita, ágil, desenvolta, desembaraçada e desimpedida. Este modo de ser se concretiza como “doação e recepção no amor”, chamado, também de virginal e livre. Indica, portanto, o modo de ser da “fonte da vida, sempre prestes a ser doação-mãe” (Harada).
Além de “virgem”, Marta, igualmente e ao mesmo tempo, era “mulher”. O espírito humano é mulher quando é fecundo, isto é, quando gera: “ ‘mulher’ é o nome, o mais nobre que se possa atribuir à alma, e é muito mais nobre do que ‘moça-virgem’”, diz Eckhart. “Mulher” é o espírito humano quando deixa Deus gerar em si o seu Filho, como Maria, a mãe do Senhor. É ainda “mulher” quando, pela gratidão e pelo desprendimento da vontade própria, gera o “Filho” de volta, em Deus.
  1. Jesus entrou num burgosinho
A segunda coisa que o mestre renano frisa é que Jesus entrou num lugar que era um “burgosinho” (povoadinho). Numa leitura anagógico-mística, o que é este “burgosinho”? A tradição bíblica chama de “coração”. São Paulo e Agostinho chamam de “homem interior” ou “homem novo” e São Boaventura de “ápice da mente”. Já Mestre Eckhart chama de “fundo da alma”. Todos estão falando da mesma realidade: o centro, a origem, o cume, o mais fundo do ser do homem, a fonte da vida na qual e da qual o Pai eterno gera sem cessar o seu eterno Filho. Esse “burgosinho” é, pois, a essência una e simples do espírito humano, na qual ele pode se tornar um com o único necessário, isto é, com o Um, que é Deus mesmo.
  1. Marta a discípula madura e consumada; Maria a discípula noviça, principiante.
A mulher Marta, que acolhe Jesus, tinha uma irmã, Maria que, “tendo-se assentado aos pés do Senhor, escutava a sua palavra” (Lc 10, 39). O estar sentado aos pés de Jesus significa, aqui, uma atitude discipular (cfr. também Lc 8, 35). Maria, tendo entrado no discipulado de Jesus, está inteiramente concentrada nestas atitudes: silenciar e ouvir.
Há uma diferença, porém, entre Maria e Marta. Maria é uma menina, poderíamos dizer, uma noviça, no discipulado de Jesus. Marta é mulher experimentada, curtida na experiência e no saber da experiência, que só o tempo, como maturação, pode trazer. Marta era a “dona da casa”. Maria é a sua irmã, a caçula, talvez ainda um pouco mimada nas coisas espirituais. Marta, diz Eckhart, é a mulher madura: “uma virgem que era uma mulher”, isto é um espírito humano amadurecido no seguimento de Cristo, no desprendimento virginal e livre, e na recepção que se torna doação amorosa, operosa, fecunda.
Se, na interpretação corrente entre os Padres da Igreja, Maria era a imagem da “vida contemplativa” e Marta a da “vida ativa”, na leitura de Eckhart, Maria era a imagem do espírito humano que se inicia na via unitiva com Deus e Marta era a imagem do mesmo espírito que perfaz e consuma o amadurecimento nesta mesma via de tornar-se uma só coisa com o Único necessário: o “Cristo amado”. Maria, ao receber Jesus, estava absorta numa satisfação ainda vital, isto é, anímico-sensível. Marta, porém, fruía de uma satisfação espiritual, isto é, de alguém que havia alcançado o “topo de sua alma” e estava elevado acima de toda criatura e unido a Deus, graças à sua receptividade1.
Marta, então, parece queixar-se com o Senhor: “Senhor, não te importa que a minha irmã me tenha deixado sozinha a servir? Dize-lhe, pois, que me ajude” (Lc 10, 40). Eckhart elucida, dizendo que Marta não disse isso por ódio, mas por amor, ou melhor, por um bem-querer: uma “repreensão amorosa”. Marta, já amadurecida temia que a irmã mais nova permanecesse sentada aos pés do Mestre mais por prazer sensível do que por satisfação espiritual. Por isso, ela solicita a Jesus que lhe mande levantar-se, erguer-se, deixando este nível de satisfação sensível e passando para a satisfação espiritual que vem da unidade com Deus, no “fundo da alma”.
Seguiu-se, então, a resposta de Jesus: “Marta, Marta, tu és cuidadosa (merimnas), estás aflita por muitas coisas (perí pollá). Uma só coisa é a necessária! Maria escolheu a melhor parte, que jamais poderá ser-lhe tirada” (Lc 10, 41-42). Há que se notar, primeiramente, que Jesus chama a Marta pelo nome duas vezes: “Marta, Marta”! Essa repetição é, diz Agostinho, sinal de amor, de dileção. Seu nome, afinal, estava inscrito no céu. Melhor: estava escrito no “livro da vida”, que é o próprio Deus, a Trindade una, simples, indivisível, do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Eckhart considera que este duplo chamado tem mais um significado: que Marta possuía o que era necessário para as obras temporais e também o que era necessário para a bem-aventurança eterna. Nela, não havia dicotomia entre o exterior e o interior, entre o tempo e a eternidade, entre o profano e o sacro, entre a ação e a contemplação. Ela estava na unidade simples, que é anterior a toda a dualidade. São como que duas Martas unidas numa só. Assim, em vez de estar repreendendo Marta, Jesus está convocando-a para que se mantenha firme na conquista desta unidade e liberdade interior que a fazem estar cuidadosa junto das coisas sem se se sentir presa a elas. Assim seu agir é simples e, por isso mesmo, é muito mais eficaz. Esse parece ser o sentido de “uma só coisa é necessária” (henós dè estin chreia): um sim à unidade e um não à dualidade.
Assim, para o espírito humano, o único necessário é ser um com o Um. Ou melhor: o único necessário é aquele Um, aquele Único, que é Deus e que levava Francisco a exclamar: “Meu Deus e Tudo”.
  1. Oração-contemplação-obediência-ação
Segundo mestre Eckhart, Marta e Maria não devem ser entendidas como oposição, dicotomia ou equilíbrio entre contemplação e ação, mas como convocação para a escuta, a acolhida, a obediência do Único necessário, essência do seguimento de Cristo e da contemplação. Era nesta ob-audiência ao Pai (Cruz) que Jesus estava a caminho de Jerusalém. Era nela que Marta o recebeu em sua casa. Era para este caminho que estava sendo aviada e iniciada Maria. Que seja dado, pois, também a nós estar no mesmo caminho, e, assim, chegar ao lar: os Três, que são Um, no círculo da eternidade. Que possamos ser Um com este Um: o Único necessário, o “Meu Deus e Tudo”.
Conclusão
O Papa Francisco hoje nos fala de uma igreja que seja acolhedora e que, num mundo cheio de gente ferida e sofrida, prófuga e apátrida, carente de misericórdia, seja algo assim como um “hospital de campanha”: um lugar de acolhimento dos que sucumbem no combate da vida. Tornar-se sempre mais e de novo gracioso acolhedor de tudo e de todos a modo de Abrão, Marta e Maria.
Ao mesmo tempo, o Papa tem insistido na mudança de atitude e de mentalidade dos assim chamados povos cristãos, em relação aos prófugos, aos refugiados, aos imigrantes, enquanto muitos, em nome justamente da “cristandade”, insistem em criar barreiras contra estes. Um gesto profético foi a acolhida de uma família muçulmana no próprio vaticano! Com isso, ele está chamando a atenção para o essencial do evangelho de Cristo: a identidade do “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Acolher a tudo e a todos assim se identifica com acolher o Senhor, o “Cristo amado”, enfim, os Três, que são Um: o Único necessário.
Fraternalmente,
Marcos Aurélio Fernandes e Frei Dorvalino Fassini

1 Seu serviço hospitaleiro fluía da alegria espiritual de receber o divino hóspede: o Cristo amado. Alegria espiritual é aquela que não é baseada na sensibilidade, ou seja, no prazer sensível, no sentir anímico, carnal, egoísta, mas na receptividade da mente pensante e na espontaneidade da boa vontade, que brotam do fundo da alma. Aqui o sentir não é excluído, mas elevado a um outro nível, espiritual, como receptividade e espontaneidade da liberdade que vem do fundo da alma. Convém evocar, aqui, a diferença que fazia Paulo entre o “homem psíquico” (anímico, carnal ou exterior) e o “homem pneumático” (espiritual ou interior). Hoje, para nós, é difícil perceber a diferença entre estes níveis da constituição do humano no homem. A diferença, por exemplo, entre prazer carnal e alegria espiritual quase desapareceu, no nivelamento da alma que se operou em nossa cultura, normalmente fundada num subjetivismo unidimensional.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Pistas homiléticas

10° DOMINGO DO TEMPO COMUM

05/06/2016

Liturgia da Palavra: 1Rs 17,17-24; Sl 29; Gl 1,11-19; Lc 7, 11-17
Tema ou mensagem: Jesus, tomado de compaixão, disse: “Jovem, levanta-te e desperta”.
Sentimento: Compadecidos como o Senhor é compadecido


Introdução

Terminadas as grandes solenidades pascais, agora, através do “Tempo Comum”, a Igreja começa a celebrar a nova presença de Cristo; uma presença muito mais real e profunda do que a da encarnação e da ressurreição porque conduzida pelo poder do Espírito que invade e plenifica todas as coisas, todos os tempos e pessoas; uma presença cheia de ternura e compaixão, como veremos neste Domingo.
    1. Um milagre para o grande milagre
No Evangelho de hoje, Jesus Cristo está dando início à sua ação evangelizadora e colocando os fundamentos de seu Reinado na Terra dos homens. Lucas narra que Jesus se dirige a Naim não porque alguém o tivesse chamado, mas por iniciativa própria (Lc 7, 11). Isto já é de se admirar. Diferentemente dos deuses e reis pagãos, em vez de ficar sentado em seu trono de honras e glórias, rodeado de servos e escravos, Jesus revela que seu Deus é um Deus sempre “em saída”, diria nosso Papa, um Deus que toma a iniciativa e vem à procura e ao encontro das suas ovelhas sofridas e perdidas. Na “saída” de hoje ele encontra e ressuscita o filho único de uma pobre viúva.
A narrativa deste milagre tem um objetivo muito claro. Jesus sabia da dificuldade que os contemporâneos e os próprios discípulos enfrentariam para crer nele uma vez que ele era um simples e pobre “nazareno”. Assim, se não conseguissem crer nele pelo menos podiam intuir, através deste sinal, que aí estava o Messias, o Cristo (Ungido) de Deus. Milagre, “miraculum”, é algo que se mostra como digno de admiração, de espanto. Assim, a ressurreição deste jovem, filho único desta pobre viúva irá preparar o coração dos discípulos e do povo para a fé, para o acolhimento de Jesus e de sua mensagem, principalmente da cruz.
2. Ao vê-la o Senhor sentiu compaixão
Quando chegou perto da porta da cidade, estavam levando um morto para enterrar, um filho único, cuja mãe era viúva” (Lc 7, 12). Nessas palavras, vem expressa a intensidade da dor daquela mãe. São Gregório de Nissa captou bem esta dor da mãe em sua intensidade: “era mãe viúva e já não esperava ter mais filhos, nem tinha outro a quem olhar em lugar do que morrera. Somente tinha criado a este, e ele somente era a alegria da casa. Ele só era a doçura e o tesouro de sua mãe”. A atmosfera é, pois, de fragilidade e de ternura. Estamos diante do mistério da dor mais profunda e mais íntima: a dor de uma mãe que perde o filho. E neste caso, uma dor ainda mais radical e íntima por ser a dor de uma mãe viúva que perde o filho único.
Quando o Papa Francisco definiu Deus como “Misericórdia” quis dizer, na verdade, dor, sofrimento. Sim, nosso Deus é um Deus que sofre, que se condói, se compadece. Esta é, certamente, uma das mais belas redescobertas que a Igreja, nós, cristãos, estamos fazendo nesta enriquecedora caminhada de retorno às nossas origens, iniciada pelo Vaticano II. Deus é misericórdia, compaixão! (Cf. Brasão de Armas do Papa Francisco: “Miserando atque elegendo”: “Misericordiando e escolhendo”).
Muitas vezes, não gostamos da dor, do sofrimento porque os entendemos como uma lacuna, uma carência ou negatividade. Por isso, temos dificuldade de aceitar que nosso Deus seja um Deus que sofre. A dor, porém, antes de uma deficiência é soleira, porta, passagem onde o fora se torna dentro e o dentro se torna fora. A dor é travessia, caminho que possibilita o homem atravessar as barreiras do egoísmo de sua subjetividade para entrar em comunhão com o outro. É como a espada que atravessou o coração de Maria, Mãe da Soledade, também ela, na Cruz, mãe viúva de um filho único que morrera.
No santuário de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, às margens do Rio São Francisco, numa gruta escura sob a terra agreste, reverencia-se Maria como a Mãe da Soledade. O povo pobre e simples, que conhece a dor de uma “morte e vida Severina” ali vem para consolar a solidão da Mãe, e para sentir-se consolado, ele também pelo mistério desta solidão, melhor, desta “soledade”: o ser-só, o só-ser, que a dor cria no íntimo do coração humano. O atravessar da dor corta e separa. Nesse cortar e separar, porém, une e recolhe os diferentes na intimidade. Faz o milagre da comunhão. Este é o milagre maior do Evangelho de hoje: a ressurreição para a vida em comunhão com o Pai, com a mãe, e com os irmãos.
Quem se aproxima daquela mãe é o “Senhor”. O “Senhor” (Kyrios) quer dizer, então, não somente o que rege com poder e autoridade, mas o que rege com amor e misericórdia; quer dizer, então, que Senhor é o “Misericordioso”, o “Compadecido”. Desde o advento de Jesus Cristo na carne de nossa humanidade, toda a história humana aparece envolvida na história da compaixão divina: a salvação dos homens.
Compaixão há que ser entendida aqui não como simples pena, dó, mas como amor de misericórdia, isto é, como aquele amor terno em que o homem se deixa atingir nas suas vísceras (esplanchna) pela dor do outro homem. É movido por esta compaixão, que o Senhor diz: “Não chores”: como se dissesse que daqui há pouco tua dor se mudará em alegria. A sua dor seria como uma dor de parto, contudo, a alegria que acompanharia esta dor, seria não a alegria de uma nova vida que vem ao mundo, mas sim a alegria de uma vida renovada que retorna ao mundo.
    3. Jesus toca na padiola do jovem morto
Em seguida, o evangelho diz que o Senhor “se aproximou e tocou na padiola”; então, “os que a carregavam pararam e ele disse-lhe: ‘Jovem, eu te ordeno, desperta’”. Jesus toca a padiola, isto é, ele entra em contato com a mortalidade humana. Toca e se deixa tocar. Mortalidade que ele assumira na encarnação e levara até a consumação na paixão da Cruz. A vida vem ao encontro da morte, diz São João Crisóstomo. A carne da nossa humanidade unida ao Verbo, que dá vida a todas as coisas, se torna vivificadora. Pois, quem a toca é o “o Senhor”, o Deus “que faz viver os mortos e que chama as coisas que não são como se fossem” (Rm 4, 17).
Deve-se notar, porém, que a ressurreição deste jovem é de uma diferença abissal com os prodígios realizados no Antigo Testamento pelos grandes profetas, como o de Elias, narrado na primeira leitura de hoje (1 Re 17) e Eliseu (2 Re 4). Se estes têm de implorar ao Céu vida sobre aqueles mortos, Jesus se apresenta como o próprio Senhor da Vida: “Eu sou a ressurreição e a Vida”. Por isso, em vez de pedir, ele ordena: “Jovem, eu te ordeno, levanta-te”.
    4.O Jovem
São Gregório de Nissa observa que esta palavra – jovem - é usada para quando o homem está na flor da idade, ao despontar da barba. E completa, designando o jovem como “aquele que pouco antes era a alegria e a doçura dos olhares de sua mãe, a qual suspirava pela alegria dos seus esponsais, e o contemplava como o continuador de sua estirpe, como o rebento de sua posteridade e o báculo de sua velhice”. É a este que Jesus diz: “Jovem, eu te ordeno, desperta”. Eis o sinal de que os tempos messiânicos chegaram e de que não era preciso esperar por outro. Ele é “aquele que vem”. Deus visitou o seu povo com a sua encarnação e Ressurreição e o libertou de todas as suas mortes.
Os Padres e Doutores da Igreja fazem uma leitura, antes de tudo, histórica dessa passagem do evangelho. Beda entende que esta passagem mostra Jesus como modelo de misericórdia. Em segundo lugar, que ela nos dá o motivo para crer na ressurreição. Santo Ambrósio fala de 7 ressurreições antes da ressurreição de Cristo, narrados na Bíblia. A primeira é a do filho da viúva de Sarepta (1 Reis 17), por Elias (cfr. a primeira leitura); a segunda, a do filho da shunamita, por Eliseu (2 Reis 4); a terceira, a ressurreição de um homem ao contato com os ossos de Eliseu (2 Reis 13); a quarta, a ressureição do filho da viúva de Naim, por Jesus (evangelho de hoje); a quinta, a da filha do chefe da sinagoga (Mc 5), também por Jesus; a sexta, a de Lázaro, ainda por Jesus; a sétima, a dos mortos que ressuscitaram no momento da paixão de Jesus (Mt 27). A oitava e última ressurreição é a de Cristo, que prenuncia a oitava idade do mundo, o novo céu e a nova terra. Trata-se, agora, de uma ressurreição indissolúvel e definitiva.
Numa outra perspectiva, os Padres da Igreja fazem uma leitura alegórica-moral. O jovem representa o homem – Adão - morto pelo pecado. A viúva é a Igreja, pois o seu Esposo partiu para o céu. Cada cristão é um resgatado da morte do pecado, pelas lágrimas da Igreja, tornando-se assim um novo Adão.
Numa perspectiva anagógica-mística, porém, a ressurreição do filho da viúva significa a recuperação do entendimento pela alma. A alma, que perdeu o seu esposo, isto é, a Palavra divina, perde também o seu filho, isto é, o entendimento. Quando ela – a alma - se une novamente à Palavra divina o seu filho, isto é, o seu entendimento, ressuscita. Esta perspectiva, que é a de Teofilacto, é também retomada por Mestre Eckhart no 18º dos Sermões Alemães. Eckhart diz:
Era o filho de uma viúva. O marido estava morto e por isso também o filho estava morto. O único filho da alma é a vontade e todas as forças da alma; elas todas são Um no mais íntimo da mente. A mente é o marido, na alma. E uma vez que o marido está morto, também o filho está morto. É a esse filho morto que Nosso Senhor diz: “Jovem, eu te digo, levanta-te!”. A palavra eterna e viva, em que vivem todas as coisas e que todas as coisas conserva, proferiu a vida dentro do morto, “e ele se ergueu e começou a falar”. Quando a palavra fala nas almas e a alma responde na palavra viva, o filho ganha vida na alma (...). Que também nós, assim, cheguemos a responder na palavra eterna. Para isso, ajude-nos Deus. Amém.

Conclusão:
Dois pensamentos e atitudes poderíamos cultivar, principalmente nesta semana:
  1. O jovem do Evangelho de hoje sou eu. A mim, à minha alma, é que o Senhor diz: “Jovem eu te digo: ‘Levanta-te’”.
  2. “Francisco com humildade e ternura visitava as casas dos leprosos, distribuía-lhes generosas esmolas, beijava-lhes as mãos e a boca com grande sentimento de compaixão” (1B 1,6).
Fraternalmente,
Marcos Aurélio Fernandes e frei Dorvalino Fassini