sexta-feira, 8 de maio de 2015

Amar e permanecer no amor

6° DOMINGO DA PÁSCOA (Jo 15,9-17)
10 de Maio: Dia das Mães
Como o Pai me amou assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor

Frei Dorvalino Fassini, OFM

Chegando ao fim de suas aparições como ressuscitado, Jesus começa, aos poucos, a despedir-se dos seus, passando para eles a obra e a missão que o Pai lhe confiara. Por isso, suas palavras assumem um tom solene de testamento e de ordem: Como o Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor.

1 Como o Pai me amou

Na vida cotidiana, mais do que “o que” importa o “como” se faz, principalmente quando se trata de atos de grande importância como o do Evangelho de hoje: amar. Posso amar alguém a modo de criança porque me agrada, mas também, amar como mãe ou pai porque é de minha vocação e, por isso, também haverei de amar quando me é desagradável, custoso, difícil e sacrificante.

Jesus fala que nós devemos amar como o Pai O amou. Por isso, saber como o Pai ama é tudo para um cristão porque além de Ele ser a Perfeição do amor, nós sendo seus filhos não podemos viver e amar senão como Ele vive e ama. Mas, como saber como o Pai ama? Olhando para o modo como Jesus ama, uma vez que os dois são Um. E o modo de amar de Jesus é coisa inaudita, isto é, que nem se consegue dizer! Nunca vista! O amar de Cristo é coisa de outro mundo. Veja-se como Ele era atencioso, dedicado, misericordioso não apenas com seus amigos, os apóstolos, mas também com os doentes, os pobres e pecadores e com o próprio Judas, o traidor e com os que O levaram para a Cruz! Ele sim, de verdade ama de todo o coração, de toda a alma e com todas as forças.

2 Para que minha alegria esteja convosco e seja completa

Eis a Novidade, a Boa Nova que leva o discípulo de Jesus a experimentar uma Alegria nunca experimentada! Como, então, a modo de esposa que encontrou seu bem amado, não explodir de contentamento, felicidade, numa existência plenamente feliz e realizada mesmo em meio a dificuldades e até mesmo da própria morte!? Neste caso, o esposo (JC) se torna não apenas ícone, mas fonte de todo nosso viver. Viver nessa alegria estampada em nossos rostos, atos e atitudes, conosco mesmos e com os outros, eis a nova evangelização proposta pelo Vaticano II e mais explicitamente pelo Papa Francisco.

Por isso, ao recordar e transmitir sua missão aos apóstolos Jesus passa a conferir-lhes também o caráter, a unção de missionários do Pai: a alegria, o vigor dessa Boa Nova: Eu vos disse isso para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja perfeita.

A Alegria da Cruz, do ressuscitado, da nova fonte da vida, capaz de revolucionar todas as relações humanas, a ponto de criar um novo Céu e uma nova Terra! A alegria de ter sido escolhido para ser discípulo do próprio Filho de Deus e não apenas de católico, praticante de uma Religião! A Alegria de um mundo, de uma humanidade que passa a se relacionar não mais à base do mando e demando, da lei ou da opressão, mas da experiência de ser amado, perdoado, reconciliado com o Pai e, através de seu Filho, reconciliado com todos os homens e com as criaturas, podendo amá-los como Deus os ama! Eis a Alegria que vem do escândalo da Cruz!

Jesus é, pois o máximo da experiência do amor, da fé, da bondade de Deus, realizada e semeada na Terra dos homens pela sua encarnação, cruz e ressurreição. Por isso, agora ao retornar para o Pai precisa garantir que essa sua missão (Boa Nova) permaneça para sempre. Eis porque ordena e unge seus discípulos de outrora como os de hoje, nós: Permanecei no meu amor... Isto é o que vos ordeno: que vos ameis uns aos outros”.

3 Permanecei no meu amor

No vigor dessa Novidade (o modo de amar do Pai!) é que seus discípulos deverão permanecer sempre. Permanecer é uma das virtudes mais importantes do homem e do cristão. Sem ela não existe vida, muito menos amor. À semelhança do bom agricultor que, perseverando no cultivo de sua terrinha, anos e anos, vai criando raízes e pegando jeito, alma, forma e corpo de agricultor, também os apóstolos, permanecendo no vigor desse mandamento verão abrir-se a possibilidade de, aos poucos, crescerem numa compreensão viva, bem experimentada do que venha a ser ser discípulo de Jesus amando como o Pai ama. Neste caso, o amor de Deus deixará de ser uma ideia, teoria, para tornar-se corpo do seu corpo, alma de sua alma. Será, enfim, sua nova e sempre renovada existência, nova identidade, seu novo e próprio ser! Será sua nova pessoa, agora identificada com a pessoa de Jesus Cristo, o novo Adão, a Alegria do Pai e dos homens que, por sua vez, é identificação com o Pai que ama tanto os bons como os maus: o puro Amor. Aos poucos, os discípulos de Jesus de ontem e de hoje, vão se tornando cristificados, deificados e Ele, Deus, um do nossos, humanado! Ó “sacrum convívium”! (São Francisco: “Sacrum Commercium”!)

[Permanecer, aqui, não tem nada a ver com conservadorismo muito menos com fundamentalismo, mas tudo com empenho para enraizar-se cada vez mais nesse modo de ser inaugurado por Jesus Cristo pobre e crucificado.]

Nós franciscanos, como não ver aqui o famoso “Fioretti” chamado “Perfeita Alegria” (Cf. Fioretti, cap. 8, ou Atos do Bem-aventurado Francisco e dos seus Companheiros, cap. 7).

domingo, 26 de abril de 2015

Tendes algo para comer?

Frei Dorvalino Fassini, OFM

3° DOMINGO DA PÁSCOA
(Lc 24,35-48)

Introdução: Cada domingo da páscoa procura conduzir-nos sempre mais para as profundezas do mistério central de nossa vida cristã: a Ressurreição do Senhor. Na celebração desse domingo somos conduzidos para Jesus que aparece não apenas ressuscitado e vivo, mas também como Aquele que nos pede algo para comer. 

1. Jesus não é um fantasma 

Jesus aparece mais uma vez aos discípulos. Para provar que Ele não é um fantasma, uma invenção ou imaginação dos discípulos, como alguns estavam espalhando; que é o mesmo Jesus que convivera com eles e que morrera na Cruz pede-lhes algo coisa para comer. A Igreja primitiva sempre viu nesse milagre e nessa refeição uma referência muito clara do mistério da missa e, consequentemente, de como deve ser a vida de um cristão. Por isso meditando bem o que acontece nessa aparição podemos compreender bem o sacramento da Eucaristia em sua essência e de nossa missão, uma vez que missa significa missão.

2. Festa por causa da aparição de Jesus 

Em cada Missa acontece conosco o que aconteceu lá com os discípulos: Jesus em pessoa visita seus eleitos e amigos. Como lá também a nós ele se revela pela palavra, nos explica o sentido da sua Cruz e, acima de tudo quer comer com eles, como fizera outrora tantas vezes, principalmente na Última Ceia. Por isso, como lá também aqui uma grande Festa, uma grande alegria pelo reencontro. Festa tão grande que, tempos passados, se tocavam os sinos, se vestia a “roupa de domingo” e as pessoas se ajuntavam em grupos..., enfim, realmente, uma festa. Viver a Alegria Dessa Boa Nova (Reencontro com Jesus Cristo), eis nossa vocação e Missão, nos, lembra e exorta o papa Francisco com sua Exortação “Evangelii Gaudium”. 

3. A Refeição expressão do amor que é Deus 

O auge de uma festa é sempre o banquete, a refeição. O estranho aqui é que quem pede algo para comer é Jesus. Mas, como não é Ele que, a exemplo de seu Pai, dá e se dá em alimento, como fez na Última Ceia e na Cruz? 

Certamente, Deus é o grande doador. Há, porém, uma coisa que precisamos aprender sempre de novo. Nosso Deus, em vez de um Deus poderoso é um Deus pobre, tão pobre que nem sequer tem o poder de nos amar se nós não lhe dermos, também nós de nossa parte nosso amor. Eis o sentido, o porquê ele pede aos apóstolos algo para comer. Isso nos abre um novo horizonte acerca do amor cristão. 

4. Amar mais que dar é receber 

Portanto, para compreender o primeiro dos nossos mandamentos, coração e essência da vida dos cristãos, não basta dizer que Deus é Amor é preciso olhar como Ele ama. A essência do Amor Dele é de receber-nos, acolher-nos, assim como somos (cf. Parábolas do Evangelho, principalmente a do filho pródigo). Ele nos ama, sim, mas a modo de crucificado, isto é, de alguém que em vez de ser um senhor poderoso, capaz de fazer-nos benefícios e acima de tudo de ter o poder de amar-nos vem e está conosco como escravo, servo que precisa e mendiga nosso pão, isto é, nosso amor. Por isso, o amor cristão inverte o valor do relacionamento humano: grande não é o que dá, mas o que recebe. Esse é o sentido maior da Missa e da missão do cristão: Um amor tão limpo, puro, inocente que é o próprio modo de ser de Deus: Aquele que recebe. Por isso, aprender a amar é aprender a bem receber, bem acolher. 

Esse modo de amar é tão originário que se constitui também no modo de ser das criaturas. O que é uma árvore, por exemplo, senão o acolhimento da seiva, a água senão o acolhimento das gotas, o rio senão o acolhimento das vertentes. O próprio mistério da encarnação só foi possível porque houve quem acolhesse o Verbo eterno do Pai: Maria. Grande, portanto não é o que dá mas o que recebe. Por isso é que Jesus pede algo para comer: Tendes algo para comer? Ou seja: Por favor me aceitem, me recebam como sou - todo chagado, ferido, sujo, crucificado. 

Ora, todos sabemos por experiência, como e quanto faz bem ser bem recebido, bem acolhido, visto, escutado! (Pastoral da colhida!) É a única força que realmente transforma as pessoas. Assim aconteceu com os apóstolos e acontece conosco em cada missa. Por sermos bem recebidos por Deus que nos acolhe assim como somos transformados em Cristo e Cristo, por sua vez se transforma em nós; Ele se identifica conosco e nós com Ele. Por isso São Francisco em vez de falar de “entrar na Ordem” fala em “ser recebido na Ordem”, em “receber benignamente os Irmãos”. 

5. Missa, missão 

O Evangelho termina exortando: “Vós sereis testemunhas de tudo isso”. 

O Evangelho termina convocando os Apóstolos a serem testemunhas da alegria que nasce dessa dupla recepção-acolhimento: Deus nos recebe em seu coração e nós tb. podemos acolhê-lo em nossa vida. Ele quer que nós sejamos semelhantes à sua e nossa origem, a SS. Trindade: Povo, Família, Igreja. Por isso a missa é sempre Comunhão dos filhos de Deus; de seu Povo cuja causa é o acolhimento que Deus faz de cada um de seus filhos, tornando-os seu Povo: Povo de Deus. Por isso o sentido maior da vida é sempre comunhão (céu), nunca isolamento (inferno), a festa e não o trabalho. 

Por isso, o cristão tem o dever de testemunhar que seus trabalhos, pastorais e a própria evangelização só tem sentido quando feitos e vividos a modo de Missa, isto é de um grande e reverente acolhimento do Outro e de todos os outros, sejam quem e como forem.

terça-feira, 21 de abril de 2015

domingo, 12 de abril de 2015

Tomé e o Domingo da Misericórdia

2° DOMINGO DA PÁSCOA
Domingo da  Misericórdia  (Jo 20,19-31)
“Põe o teu dedo nas minhas chagas, Tomé e não sejas incrédulo, mas fiel”

Frei Dorvalino Fassini, OFM

O Tempo da Páscoa – uma Festa de 50 dias ou sete semanas – tem como objetivo aprofundar-nos cada vez mais no mistério maior de nossa vida, inaugurado por Jesus Cristo no Presépio e consumado na Cruz. Hoje, através de Tomé, somos convidados a fazer um ato de fé nas chagas salvadoras de Jesus e assim curar-nos de todas as nossas chagas. 

Mistério, aqui, é mais que uma verdade, conceito ou doutrina. É o próprio Deus que se revela na Pessoa de seu Filho que vem ao nosso encontro, principalmente em sua Cruz e Ressurreição. Por isso, diz o Papa Francisco: no início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo (EG 7). Esse é o mistério de todos os mistérios. A maravilha... a grande Alegria que alegra e salva todos os homens.

Infelizmente, por vivermos mais na inflação das palavras, das doutrinas e teologias do que no vigor da fé essa Boa Nova tão simples, clara, concreta e profunda não diz quase mais nada ou muito pouco. Não nos leva para a gratuidade da doçura do encontro ou do reencontro (EG 3) com JC crucificado, o mais belo dos filhos dos homens. É como alguém que pega seu carro para passear. Mas, em vez de olhar e saborear a beleza da paisagem fica apenas olhando para o carro e para a estrada.  

Precisamos ser como santo Tomé: querer tocar nas chagas do Crucificado. 

Nós Franciscanos temos em nosso Seráfico pai exemplos maravilhosos. Foi tocando o leproso que teve a graça da conversão; foi tocando um leproso rebelde que conseguiu convertê-lo por dentro e por fora. Mas, para podermos entrar na graça curadora das nossas chagas é preciso, como ele, que imploremos a misericórdia do Senhor: Certo dia, não aguentando mais sua miséria, começou a implorar com maior fervor a misericórdia do Senhor... ( cf. LTC 13,1). 

Tocar não é só um ato externo, mas uma experiência de enamoramento, afeição e com-paixão e identificação (cf. como nossos fieis simples gostam de tocar nas imagens, no papa). 

Ora, o que são as chagas de Cristo senão sinais da máxima experiência do amor, da fé, na bondade, na misericórdia, na compaixão de Deus para conosco. Com sua vinda ao mundo, com sua morte e ressurreição, Cristo introduz na história um novo princípio de ser homem, de ser gente: o princípio, a regra da compaixão, da misericórdia. 

O tempo da Páscoa, isto é, o tempo que vai da Sexta feira da Paixão até a consumação dos séculos, é para apender a tocar com misericórdia nossas (minhas e dos outros) chagas. Chagas morais e espirituais, chagas pessoais e sociais, particulares e comunitárias.

Dentro desse mistério a sorte e a essência do homem não é nem desenvolvimento, nem santidade e nem mesmo felicidade, mas poder amar do jeito como o Pai nos ama; é amar como Cristo amou, num amor que persevera de modo alegre na graça de poder doar-se com toda confiança e dedicação Àquele que o abandonou. 

Eis a Boa Nova, a Alegria do Evangelho. O novo sentido do homem! 

Só nos resta fazer como Tomé: ajoelhar-nos diante desse Mistério e proclamar como ele: “Meu Senhor e meu Deus!”

domingo, 22 de março de 2015

São Francisco reencontrado

Frei Dorvalino Fassini, OFM

Ein Franziskus-Bild des kath. Friedensaktivisten,
Peter Bürger, aus Düsseldorf
Quando se pensava que a relação dos livros que compõem as atuais Fontes Franciscanas estivesse completa, eis que surge uma nova descoberta.

Segundo Sílvia Guidi, no artigo “São Francisco reencontrado”, no Osservatore Romano de 29 de janeiro de 2015, está sendo preparada a edição latina, bem como traduções em italiano, francês e inglês de uma nova “Vita” de São Francisco”. Trata-se de uma biografia escrita por Tomás de Celano entre os anos de 1232-1239. Nesse caso, temos agora desse mesmo biógrafo uma nova “Vida” entre a “Primeira”, escrita em 1227 e a “Segunda” em 1247.

O autor da descoberta é o medievista Jacques Dalarun. O mencionado artigo não esclarece, porém, como foi encontrado esse manuscrito. Em todo caso, segundo ele, a reflexão do próprio Tomás de Celano, depois da Primeira Vida, tornou-se mais profunda, sobretudo acerca da pobreza e do amor de Francisco pelas criaturas. Diz ele: Num certo sentido poder-se-ia dizer que o biógrafo com o passar dos anos, entende... que nada entendeu da mensagem de Francisco.

Em relação à pobreza, a nova Vita fala em “experiri paupetatem”, no sentido de experienciar no próprio corpo a pobreza de Cristo. Quanto à fraternidade universal, diz Jacques que Francisco não amava apenas os seres humanos, mas também os seres privados de razão e justifica: somos diversos mas irmãos porque todos descendem da paternidade do criador... Por isso, dizer que Francisco amava a natureza é um conceito pagão. Francisco amava os homens e os animais porque são filhos do mesmo Criador.

Outra novidade da nova Vita diz respeito à viagem de Francisco a Roma que, em vez de peregrino, segundo a Legenda dos Três Companheiros, teria sido em forma de comerciante, antes, portanto, de iniciar o processo de conversão.

Diz ainda Dalarun que o mistério está só no início. Quem tinha esse livro no bolso? Para quem foi feito? ... Quem poderia conhecer estes textos? Frei Leão...? E conclui que, em todo o caso, é um bom patrocínio por parte do primeiro Francisco para o atual Papa que precisamente agora está a preparar uma encíclica sobre o amor pela criação.

Concluímos: Quando se estuda São Francisco e, por isso, julga-se tê-lo entendido está enganado e enganando. Para conhecê-lo seria necessário uma nova graça divina que nos convertesse como a ele em “outro Cristo, pobre e crucificado”.

Em louvor de Cristo Amém!

quarta-feira, 4 de março de 2015

Quaresma para quê?

Frei Dorvalino Fassini, OFM


Iniciamos há poucos dias mais uma Quaresma. Tempo litúrgico que faz a memória dos quarenta dias de jejum, tentações e provações de Cristo no deserto. Mais que sua dimensão cronológica, Quaresma é, antes, o prelúdio, o princípio, o resumo de toda uma vida: a Dele, Cristo e de toda a Humanidade, de cada um de nós, enfim. 
No centro desse percurso está o fogo da paixão que Lhe incendiara o coração por ocasião da teofania durante seu Batismo no rio Jordão: Os céus se abriram, e Ele viu o Espírito de Deus descer em forma de pomba e pousar sobre Ele. E do céu veio uma voz que dizia: “Este é meu Filho muito amado, no qual ponho todo meu bem-querer (Mt 4,16-17). Testemunho que se repete mais adiante na teofania do Tabor. 
Ser declarado Filho de Deus, porém, não era fato mas convocação para vir-a-ser, um presente que devia ser amado com paixão e um futuro que devia ser abraçado com esperança mediante o percurso do caminho das limitações e fragilidades do humano. Aí estava, em resumo, o novo Céu e o novo Homem que, em nome de seu Pai, devia inaugurar em Si e, a partir de Si, para toda a humanidade.
 Esboçava-se, assim, sua batalha, sua grande aventura e angustiante busca: jamais sucumbir à tentação de ser e viver como filho de Deus, uma vez que Ele era, de fato, o Filho Unigênito do Pai. Mas, como esquecer-se de sua própria identidade? Como aniquilar a toda a hora seu EU mais profundo de Segunda Pessoa da Santíssima Trindade? Enfim, como não vangloriar-se de sua condição divina, ou, como, diríamos hoje, não usar dessa sua grandeza e poder em favor de Si e de sua missão, em favor e benefício de seus semelhantes tão necessitados e carentes de libertação? Não seria fugir do grande mandamento do Amor, da justiça e da paz? Eis sua grande, primeira e última tentação.
No entanto foi assim que viveu sua passagem entre nós: como filho do Homem.  Um filho do Homem tão apaixonado pelo nosso humano frágil e pecador que jamais quis desvencilhar-se dele. Uma loucura para os mundanos e gentios e opróbio, vergonha para os “religiosos”, os “puros”, os “justos“ e “santos”  judeus de ontem e de hoje (Cf. 1Cor 1,23). 
Por isso, O vemos toda hora afastar-se daqueles que o querem como “deus” e mandando para longe aqueles que, a exemplo de Pedro, O desejam como “rei”. Por isso, também, ama, deseja ardentemente “subir” para Jerusalém, porque lá estão seus maiores e melhores “amigos”: Judas, os sumos sacerdotes, as autoridades civis e a própria populaça, aqueles enfim que o ajudarão a concretizar sua paixão pela sua (nossa) “criaturidade” (ser criatura). 
Essa era, pois, sua missão: inaugurar o novo e definitivo caminho do Homem que Adão abandonara; dar uma nova origem (“genes”) ao homem: a paixão pela grandeza de sermos “simplesmente” criaturas e não “deuses”, filhos de um Pai que tem inveja dessa nossa condição e tanta que quis também Ele, vive-la através de seu Filho unigênito. Assim, não temos mais um Deus-Deus, mas um Deus-homem, humanado.
Segundo Marcos, só no fim, isto é, após ter bebido, saboreado a última gota do cálice de seu humano é que houve o reconhecimento do oficial romano: este homem é verdadeiramente filho de Deus (Mc 15,39). 
A encarnação, porém, proporciona a Cristo ser não apenas mais um  homem entre os milhões e milhões, mas o Homem de todos os homens. Por isso, a partir de então o homem que queira ser verdadeiramente homem tem que ser mais que homem. Ser mais que homem significa trabalhar apaixonadamente seu humano até que brilhe e venha para fora a pérola escondia e preciosa: a semente da filiação divina inaugurada por Cristo. Enfim, o sentido de nossa vida não é nenhum outro senão o trabalho, a aventura, a tarefa de dia após dia, buscar “ser quase Deus”, sendo cada vez e sempre mais homem.
Quem maravilhosamente compreendeu e encetou esse caminho foi São Francisco que, a partir do encontro com o Crucificado na igrejinha de São Damião, jamais deixou de conformar-se com Ele. Por isso, também ele tornou-se o homem mais humano e o mais angelical ou divino de todos os homens, o homem que todos os homens desejam ser, ou, quem sabe, o primeiro e último homem, o primeiro e último cristão, o segundo mais belo dentre os filhos dos homens. Isso porque, ele, como ninguém, depois do próprio Mestre e de Maria, aprendeu a chorar a Paixão do seu Senhor (LTC 14) e a fazer da sua Cruz a “Perfeita Alegria” (Cf. I Fioretti, capítulo 8º).
Em seu ardente desejo de conformar-se ao seu amado e doce Jesus e a fim de não desviar-se jamais desse seu propósito fez de toda a sua vida uma grande Quaresma. Por isso, além da Quaresma que vai de Quarta-feira das Cinzas até a Páscoa, inventou outras quatro que as celebrava com o mesmo fervor:
  • a do Advento;   
  • a da Epifania ou “bendita”;
  • a de São Miguel, e
  • a Quaresma que ia da Festa dos Apóstolos Pedro e Paulo até a Assunção.

Assim, para Francisco, Quaresma vai além da dimensão meramente cronológica. É o Tempo de todos os tempos porque nela fulgura a busca maior de cada um de nós e de cada homem que vem a este mundo: a glória da Cruz, do Crucificado, Daquele que não cabendo no Universo inteiro quis caber num simples e pobrezinho coxinho e, finalmente, nos braços de um madeiro, porque “aí” é Seu e nosso lugar.
Diante de uma Campanha da Fraternidade que deseja servir a Alegria do Evangelho à Sociedade, de uma sociedade que busca a todo custo, inclusive o custo de seu próprio humano, a fim de ser feliz, realizada, que busca nós, seguidores de Cristo, estamos lhe oferecendo?  É realmente a do Cristo crucificado, o mais belo dos filhos dos homens? (Sl 45,3) Em nossas celebrações e pregações como brilha esse mistério originário da nova Humanidade? Porque, por exemplo, a “usamos” tão pouco em nossas procissões de entrada na Missa, ela que é nosso símbolo maior? Até que ponto elas evocam em nós as lágrimas do Apóstolo porque, a exemplo dos antigos filipenses, nos comportamos como inimigos da Cruz de Cristo? (Cf. Fl 3,18). Porque em nossas missas lembramos muito a dimensão “festiva” e tão pouco a sacrifical? Não esquecemos que o maior e o mais conhecido de todos os sermões que Jesus fez é o da Sexta feira Santa? Um sermão sem palavras, do mais puro e eloquente silêncio? Não seria essa a razão de tanta fé e devoção por esse dia sagrado do nosso povo simples e fiel?  Veja-se, por exemplo, quanta importância os homens do mundo dão aos seus símbolos, suas marcas, suas bandeiras! Por que, então, não prevalecer-se mais e melhor esse símbolo vitorioso? E o que fazemos nós de nossa tão bela e expressiva oração de São Francisco Nós vos adoramos...”? Ou, não cremos mais que no coração de cada homem vigoram centelhas desse Mistério?  
Finalizando, segundo nosso atual papa, quando caminhamos sem a Cruz, edificamos sem a Cruz ou confessamos um Cristo sem Cruz, não somos discípulos do Senhor: somos mundanos, somos bispos, padres, cardeais, papas, mas não discípulos do Senhor (Carta “Alegrai-vos”, da Sagrada Congregação dos Consagrados, Paulinas, pag. 26).   
A todos uma santa e abençoada Quaresma!