Entrevista com John L. Allen Jr.
Há um ano, a Igreja Católica escolhia um
novo papa. O cardeal
Jorge Mario Bergolio
inaugurou uma nova era surpreendente para a Igreja – uma era que ele
introduziu ao escolher o seu nome papal, um de seus primeiros atos como
pontífice. Ele escolheu
Francisco, em honra ao santo italiano medieval dedicado à humildade e aos pobres.
A reportagem é da
Rádio Boston, 25-03-2014. A tradução é de
Moisés Sbardelotto.
Mais mudanças estavam por vir. Na Quinta-feira Santa do ano passado, o
Papa Francisco lavou os pés de 12 jovens detidos, incluindo duas mulheres e dois muçulmanos. Ele fez um
selfie
[autorretrato]. Ele se declarou como alguém não "de direita". E disse
que, se alguém é gay e busca ao Senhor e tem boa vontade, "quem sou eu
para julgar?".
A mudança radical no tom e no estilo fez de
Francisco
um papa surpreendentemente popular. Mas, no fim, a balança pendem mais
para o simbolismo ou para a substância? E o que o primeiro ano do Papa
Francisco significa para o futuro da Igreja Católica – uma instituição
em si mesma não propensa a mudanças radicais e repentinas?
Sobre isso, entrevistamos
John Allen Jr., autor de nove livros sobre a Igreja Católica e editor associado do jornal
The Boston Globe.
Eis trechos da entrevista concedida à Rádio Boston.
Sobre a eleição do papa Francisco:
Para ser honesto com você
minha primeira reação foi de frustração, porque eu estava em um estúdio da
CNN tentando contar essa história para o mundo e, quando o cardeal – o cardeal Jean
Louis Tauran – saiu para fazer o que chamamos de anúncio
Habemus papam
– isto é, o anúncio do novo nome do papa –, nós ficamos sem áudio.
Então, eu vi os lábios do cardeal em movimento, mas não tinha ideia de
que nome ele estava nos dizendo. Assim, por 30 segundos de agonia, eu
estava desesperadamente tentando descobrir quem era realmente o próximo
papa. Felizmente, havia uma equipe da TV mexicana atrás de nós que
estava gritando "Bergolio! Bergolio!". Então, eu tive uma ideia da
situação.
Depois disso, para ser honesto com você, eu fiquei chocado com a
escolha do nome. É preciso lembrar que a primeira decisão que qualquer
papa sempre faz é o que o nome pelo qual será chamado. A forma pela qual
isso funciona, dentro do conclave, é que, assim que um candidato
ultrapassa o mágico limiar dos dois terços, o cardeal mais idoso vai
abordá-lo e dizer-lhe: "Você aceita a sua eleição como Sumo Pontífice?".
No momento em que ele disser que sim, ele é o papa. A próxima pergunta
é: "Por qual nome você quer ser conhecido?". Por isso, essa é, por
definição, a primeira escolha que ele faz.
E vou ser honesto com você, eu entrevistei historiadores da Igreja ao
longo dos anos que disseram que nunca poderia haver um papa
Francisco, pelas mesmas razões que nunca poderia haver um
Papa Jesus ou um
Papa Pedro,
que eram figuras singulares e irrepetíveis na vida da Igreja. Mas, mais
do que isso, para ser honesto, eu fiquei espantado com a ousadia dele.
Porque o nome
Francisco é todo um programa de governo
em miniatura. Essa figura icônica no imaginário católico que desperta
essas imagens da antítese da Igreja institucional – ou seja, a liderança
carismática. Perto da terra, perto dos pobres, simplicidade, humildade.
Esse é uma enorme quantidade de peso para você colocar sobre os seus
ombros logo na saída do portão. Se você não estiver preparado para
colocar suas palavras em prática, então você vai estar em apuros de
verdade.
Francisco, no entanto, durante o seu primeiro ano, de forma convincente, colocou suas palavras em prática.
Sobre a adequação de Francisco para o mundo moderno:
Eu acho que uma das coisas marcantes é que não é como se o
Papa Francisco fosse o primeiro papa popular. Quero dizer, eu acompanhei
João Paulo II em todo o mundo. Eu estive com ele no
México, quando ele teve multidões em torno de 7 milhões de pessoas ao seu redor. Eu estive com ele em
Manila, nas
Filipinas, quando ele teve 5 milhões. Eu estive na missa do seu funeral em 2005, quando mais de 5 milhões apareceram. E
Bento XVI,
à sua maneira, em termos de alguém interno ao mundo católico,
certamente tem seguidores. Eu acho que o que é único em relação a
Francisco
é que, no mínimo, ele é ao menos tão popular e potencialmente ainda
mais popular fora da Igreja do que dentro dela. Quero dizer, ele é uma
figura que parece ideal para se engajar neste mundo secular pós-moderno
que não fala mais a linguagem religiosa e tem dificuldade para engolir
conceitos religiosos. Ele usa esse tipo de linguagem e, por causa das
percepções sobre a sua integridade pessoal, ele carrega uma espécie de
autoridade moral que, de algum modo, lhe permite transcender esses
limites e se tornar um parceiro de diálogo credível para o mundo
inteiro.
Sobre a crítica de que este primeiro ano foi mais sobre o estilo do que sobre a substância:
Depende de como você define substância. Se por substância você se
refere a mudar a doutrina da Igreja Católica, então é uma crítica
perfeitamente acurada, porque o papa não mudou uma única vírgula do
Catecismo da Igreja Católica,
que é o seu código oficial de ensino. E, sobre os temas quentes que
tendem a estimular a mente ocidental – coisas como sacerdotisas ou
aborto, casamento gay, contracepção –, ele deixou claro várias vezes que
não vai fazer quaisquer alterações.
Mas eu acho que o ponto é que você pode mudar a Igreja Católica
profundamente sem mudar o seu ensino oficial. De um lado, ele criou
muito mais espaço para a aplicação pastoral flexível da doutrina – isto
é, traduzindo aquele ensino oficial em prática no nível de varejo, nas
paróquias e assim por diante. A outra coisa que ele fez foi empurrar a
Igreja, chutando e gritando, na direção da verdadeira mudança estrutural
em questões como transparência, responsabilização e aquilo que se pode
chamar de bom governo.
Ele acabou de criar uma estrutura de finanças inteiramente nova no
Vaticano,
nomeou um cardeal duro como pedra para geri-la, alguém que tem a mente
de um teólogo e os instintos de um zagueiro. Esse homem é basicamente um
Brian Urlacher [jogador de futebol americano] de batina, certo? E ele vai pressionar por mudanças significativas. E tudo isso pode não ter o
sex appeal
de convidar três sem-teto para o café da manhã, mas, vou lhe dizer, não
há nenhuma forma para quebrar o domínio da velha guarda no Vaticano de
forma mais profunda do que tirando o seu poder e, com efeito, foi isso
que
Francisco fez. Então, se a sua definição de
substância é mudar o ensino da Igreja, então não, não houve mudança
substantiva. Se você entende que há um caminhão de formas para engendrar
mudanças estruturais na Igreja Católica sem mudar o ensino, então sim.
Esse é um agente de mudança estrutural historicamente significativo.