quinta-feira, 17 de junho de 2010

Trânsito de São Francisco

(Cada qual procure fazer as devidas adaptações)

Narrador I: Irmãos e irmãs,

Narrador I e II: Paz e Bem!

Narrador I: Daremos início agora à Celebração do Trânsito de São Francisco.

Narrador II: Ou seja, celebração de sua morte, ou melhor, de sua passagem desta vida para junto de seu amado e querido Pai do Céu.

Narrador I: Preparemo-nos cantando:

(Canto)

Narrador II: Transportemo-nos para Assis, há quase 800 anos. Três de outubro de 1226.

(Entra frei Elias)

Narrador I: Esse é Frei Elias de Cortona, então Ministro geral da Ordem dos Frades Menores.

(apagam-se as luzes, menos as do local de onde frei Elias vai fazer seu anúncio. Pode-se tb. iluminar o local só com velas).

Frei Elias: Eu, Frei Elias, pecador, saúdo os amados Ministros provinciais e Frades do mundo inteiro.

Antes de começar a falar suspiro e gemo, pois afastou-se de nós o Consolador. O Amado de Deus e dos homens, nosso seráfico pai Francisco, acaba de partir e de ser recepcionado nas mansões da luz divina. É uma perda comum para todos. Chorai comigo irmãos, porque sofro demasiada dor e choro convosco porque somos filhos sem pai e privados da luz de nossos olhos.

Mas, ao mesmo tempo, vos anuncio uma grane alegria e a novidade de um milagre. Não muito tempo antes de morrer nosso irmão e pai apareceu crucificado, carregando em seu corpo as cinco chagas que são verdadeiramente os estigmas de Cristo. Portanto, irmãos, bendizei o Deus do Céu e rezai por ele.

Nosso Pai e Irmão, Francisco, passou para Cristo na primeira hora da noite que precedeu o domingo, dia 4 de outubro e foi assim:

(Música)

Narrador I: Nos últimos dias de sua vida, Francisco, por causa da gravidade de suas enfermidades fora levado para a Casa do Bispo em Assis. (Música enquanto Francisco entra conduzido por frades).

Narrador II: A exemplo de seu Mestre, derrubado fisicamente de todos os lados, e interiormente atormentado por inúmeras provações e tentações diabólicas, pressentiu que seu fim aqui na terra estava próximo.

Narrador I: Para provar um pouco de alívio pediu, então, que alguns frades lhe entoassem o Cântico das criaturas que ele mesmo compusera dois anos antes para louvar e engrandecer seu Senhor.

(Declamação ou canto do Cântico do Irmão Sol)

Cantores (declamadores):

Altíssimo, onipotente, bom Senhor,
teus são os louvores, a glória e a honra
e toda a bênção.

Só a ti, Altíssimo, eles convêm,
e homem algum é digno
de te mencionar.

Louvado sejas, meu Senhor,
com todas as tuas criaturas,
especialmente, com o senhor irmão sol,
o qual é dia, e por ele nos alumias.

E ele é belo e radiante
com grande esplendor,
de ti, Altíssimo, é sinal.

Louvado sejas, meu Senhor,
pela irmã lua e as estrelas,
que no céu formaste claras,
preciosas e belas.

Louvado sejas, meu Senhor,
pelo irmão vento,
pelo ar e pelas nuvens,
pelo sereno e todo o tempo,
pelo qual às tuas criaturas dás sustento.

Louvado sejas, meu Senhor,
pela irmã água,
que é mui útil e humilde
e preciosa e casta.

Louvado sejas, meu Senhor,
pelo irmão fogo,
pelo qual iluminas a noite.
E ele é belo e jucundo
e robusto e forte.

Louvado sejas, meu Senhor,
pela nossa irmã a mãe terra,
que nos sustenta e governa,
e produz frutos diversos
e coloridas flores e ervas.

Louvado sejas, meu Senhor,
pelos que por teu amor perdoam,
e sustentam enfermidades e tribulações.

Bem-aventurados os que as sustentam em paz,
pois, por ti, Altíssimo, serão coroados.

Narrador: Neste momento, Francisco interrompe o Cântico e de improviso introduz mais um verso com essa surpreendente saudação:

Francisco:

Louvado sejas, meu Senhor,
por nossa irmã a morte corporal,
da qual homem algum pode escapar.

Ai daqueles que morrem em pecados mortais:
bem-aventurados os que a morte encontrar
dentro de tuas santíssimas vontades,
porque a morte segunda não lhes fará mal.

Cantores (declamadores):

Louvai e bendizei a meu Senhor
e rendei-Lhe graças e servi-O com
grande humildade.

Narrador I: Terminado o canto, Francisco pede que o levem para a Porciúncula, pois queria entregar sua alma a Deus naquele igrejinha onde outrora ouvira Cristo enviar os Apóstolos pelo mundo para anunciar sua Boa Nova; lá onde tomara a decisão de seguir Jesus Cristo pobre e crucificado, exclamando: “É isto o que eu quero, é isto o que eu desejo, é isto que eu vou fazer com todas as minhas forças”. Terminado o pedido acrescentou:

Francisco: Irmãos meus, caríssimos! O altíssimo, onipotente, santíssimo e sumo Deus; Aquele que é todo o bem, o sumo bem, o bem inteiro, o único bem concedeu a mim a graça de seguir e imitar seu Filho Jesus Cristo, pobre e crucificado. Durante toda a minha vida fiz de sua vida a minha vida, de seu Evangelho a minha Boa Nova, de sua Paixão a minha paixão. Por sua graça, também, fiz a minha parte! Que o mesmo Senhor vos ensine a fazer a vossa.

Narrador: Acompanhado pelos frades e grande multidão de povo Francisco foi sendo conduzido para a Porciúncula.

(A procissão dirige-se à porta central da igreja. Durante a Procissão pode-se cantar).

Canto:

(Chegados no meio da igreja ou na porta central)

Narrador I: Quando estavam a meio caminho, no hospital dos crucíferos, onde cuidara dos leprosos e donde se pode visualizar todas as casas de Assis, pediu que o colocassem por terra.

Narrador II: Voltado para a cidade e dizendo-lhe adeus abençoou sua terra natal e todos as pessoas do mundo inteiro:

Francisco: Em nome do Senhor, do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

A todos os cristãos, religiosos, clérigos e leigos, homens e mulheres, a todos que habitam no mundo inteiro, Frei Francisco, seu servo e súdito, reverente saúda a todos com a verdadeira paz do Céu e a sincera caridade no Senhor. Como não posso visitar pessoalmente a cada um, por causa da enfermidade e debilidade do meu corpo, propus-me, dirigir-vos as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é o verbo do Pai, e as palavras do Espírito Santo, que são espírito e vida.

As autoridades, os governadores e os que estão constituídos em autoridade, exerçam suas funções com misericórdia, como gostariam de ser julgados por Deus com misericórdia...

Os religiosos em particular, que renunciaram ao mundo, são obrigados a fazer mais e melhores coisas que os simples cristãos: renunciar aos bens deste mundo e odiar os vícios e pecados da alma e do corpo.

Irmãos, não sejamos sábios e prudentes segundo a carne, mas simples, humildes e puros e nunca desejar estar acima dos outros, mas antes sermos submissos e obedecer a todos os homens e até mesmo a todas as criaturas.

Lembrai-vos todos que vosso dinheiro, vossos títulos, vossa ciência, tudo que acreditais possuir neste mundo vos será tirado. Eu, Frei Francisco, vosso servo menor, rogo e vos suplico na caridade, que é Deus, e com a vontade de beijar vossos pés que, com humildade e caridade recebais, opereis e observeis estas e as outras palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo. E todos aqueles e aquelas que as receberem benignamente, entenderem e nelas perseverarem até o fim, abençoe-os o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Amém.

Narrador I: Terminada a bênção continuaram a procissão;

(Durante a procissão, canto até retornarem ao presbitério em cujo centro foi colocada a réplica da Porciúncula:)

Canto:

Narrador II: Tendo descansado alguns dias no lugar que tanto amava e sabendo que sua hora estava chegando levantou as mãos para o céu, louvou a Cristo porque, livre de tudo, já estava indo ao seu encontro.

Narrador I: Querendo imitar seu Mestre até o fim, mandou que lhe trouxessem um pão. Tendo-o abençoado partiu-o e deu um pedacinho para cada um dos irmãos.

(Francisco estende as mãos sobre o pão e os pãezinhos dos cestos. Traça sobre eles o sinal da Cruz. Reparte a pão grande com os frades. Logo em seguida alguns frades repartem os demais pães com o povo. Essa partilha poderia, também processar-se dessa forma: não entregar um pão para cada pessoa, mas um para duas ou três para que elas também o repartam entre si. Durante esta cena pode-se cantar).

Narrador II: Recordava assim, aquela sacratíssima Ceia que foi a última celebrada pelo Senhor com seus discípulos em sinal de seu eterno amor para com eles e para com todos os homens.

Narrador I: Naqueles dias, Francisco recebeu, também, a visita de um médico de Arezzo, conhecido e familiar seu chamado Bom João.

Narrador II: O Bem-aventurado Francisco interrogou-o:

Francisco: Que te parece irmão João? O que me dizes acerca dessa minha doença? Dize-me a verdade porque pela graça de Deus não sou covarde para temer a morte. Com a ajuda do Senhor e por sua misericórdia estou tão ligado a Ele que estou contente tanto com a morte como com a vida.

Médico: Pai, segundo nossa ciência, tua doença é incurável e pelos fins de setembro ou em poucos dias haverás de morrer.

Narrador I: O Bem-aventurado Francisco que estava deitado na cama, doente, abrindo os braços e as mãos para o Senhor exclamou:

Francisco: (com gratidão e alegria) Bem-vinda minha Irmã morte!

Narrador I: A seguir, ele mesmo o quanto pode entoou o Salmo 141:

Francisco:

- Em alta voz eu clamo ao Senhor + em alta voz eu suplico ao Senhor.

- Diante dele derramo a minha queixa + diante dele exponho minha angústia.

- Clamo a Ti, Senhor, dizendo: “Tu és meu refúgio + a minha parte na terra dos vivos”.

- Ensina-me a fazer tua vontade, pois tu és meu Deus + Teu bom espírito me guie por terra bem plana.
- Pela honra de teu nome, Senhor, tu me farás viver + por tua justiça me farás sair da angústia.

Narrador I: E voltando-se para os frades:

Francisco: Meus irmãos, quando perceberdes que cheguei ao fim, do jeito que me viste despido anteontem, assim me colocai no chão. Pois nu quero morrer também eu em memória daquele que nu por todos nós morreu na cruz.

Narrador II: Em seguida, um dos frades presentes, pelo qual o santo tinha a maior amizade e que era muito solícito por todos os Irmãos, vendo isso e sabendo que a morte do Santo estava próxima aproximou-se:

Frade: Ó Pai bondoso, teus filhos vão ficar sem Pai, vão ficar sem a verdadeira luz de seus olhos. Lembra-te dos órfãos que estás deixando, perdoa toda as nossas culpas e alegra-nos com tua santa bênção.

Narrador I: E Francisco, reunindo suas últimas forças disse:

Francisco: Filho, estou sendo chamado por Deus. A meus irmãos presentes como ausentes, atuais e futuros, perdôo todas as ofensas e culpas, e os absolvo quanto posso. A todos transmite essa bênção: Que o senhor vos abençoe e vos proteja! Vos mostre a sua face e se compadeça de vós! Volva para vós o seu olhar e vos dê a Paz! Que o Senhor vos abençoe!

Adeus, meus filhos, vivei sempre no temor do Senhor, porque as maiores provações vos ameaçam e a tribulação está às portas. Felizes os que perseverarem no que prometeram. Bem-vinda seja, minha irmã morte!

Narrador I e II: E assim, tendo percorrido em poucos anos todos os passos e todos os mistérios de seu amado Mestre aqui na terra, voou feliz para o seu Deus e seu Tudo, nosso Deus e nosso Tudo.

(Silêncio e música apropriada. Os frades e demais encenadores se ajoelham ao redor de Francisco).

Conclusão

(Entra o Presidente. Pede que se tragam e se exponham a Cruz de São Damião e o Evangelho, os dois sinais sagrados cujo mistério marcou e iluminou o início, o meio e o fim de toda a vida de Francisco e de todos os franciscanos de todos os tempos. Faz uma breve pregação acerca desse Carisma. Convida todos a manifestarem, num ato de reverência (beijo ou toque), o compromisso de, como irmãos e discípulos de Francisco, viver seu carisma, sua espiritualidade. Durante esse ato: canto. Conclui com o Pai Nosso – Oração e Bênção de São Francisco).

______

Texto: Frei Dorvalino Fassini, OFM

Ilustração: Death of St. Francis in Life of Francis of Assisi depicted in the series of chapels of the Sacro Monte di Orta in the comune of Orta San Giulio, Piedmont, Northern Italy / Mattana. 2009. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Sacro_Monte_di_Orta_040.JPG acesso em 17 jun. 2010.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Reunião de junho 2010


Paz e bem!

A nossa próxima reunião será:

05 jun. sábado
14 horas

Para os iniciantes e formandos:
9h30min

Venham e convidem amigos e conhecidos!

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Em Nome do Senhor Começa a Vida e a Regra Franciscana

Frei Dorvalino Fassini, OFM

Ao deparar-nos com os textos da diversas versões da Regra Franciscana em todas elas encontramos como início fórmulas como Em nome do Senhor ou Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.


Com essa invocação, na abertura da Regra, Francisco, certamente, atem-se a um dos mais queridos e apreciados costumes do povo cristão, principalmente na Idade Média: começar todo e qualquer obra ou trabalho em nome do Senhor!


Diferentemente de textos ou documentos de caráter meramente humano, nos quais, geralmente, em seu início, com a gravação do nome dos autores, explicita-se com clareza e insistência sua origem ou autoria, o texto da nossa Regra começa pura e simplesmente: Em nome do Senhor.


Essa maneira de iniciar a Regra, porém, parece dizer que sua origem não está em Francisco ou Clara nem em quem quer que seja, mas sim no mistério mais significativo e originário de todas as criaturas e de toda a vida cristã: o Senhor.


À semelhança da chave musical que, já desde o início, dá o tom que vai perpassar, conduzir e orientar a melodia de toda uma partitura musical, ou, melhor ainda, semelhantemente ao prólogo do Evangelho de São João, no qual, já de saída, se anuncia o princípio originário de toda a Boa Nova, isto é, o Verbo que se faz Carne, a expressão Em nome do Senhor evocada, aqui, na abertura do texto, torna-se como que a entoação de toda a Vida e de toda a Regra franciscana, ou seja: que nossa Vida e nossa Regra – nossa formação - em todos os seus capítulos, sempre nasce, cresce, amadurece e termina em nome do Senhor.


Mas o que significa começar, crescer e concluir a Vida e a Regra franciscana Em nome do Senhor!?


Vale observar, logo de saída, que o nome está sempre ligado ao fenômeno do som e da linguagem. Pois, o nome não é outra coisa senão o som próprio produzido pela ação da força que move constitui e distingue cada criatura em sua identidade. Em verdade, originariamente, o nome não é outra coisa senão o som do ser de cada coisa, captado pelo espírito do homem? Por isso, a pronunciação de um nome é, sempre e também, de certa forma, um ato evocador e criador dos seres. Assim, no Paraíso, ao ser incumbido de dar nome às criaturas, Adão foi constituído por Deus não em mero etiquetador, mas, acima de tudo, um seu co-criador e senhor do universo.


Por isso, pronunciar o nome de alguém, antes de mero sinal ou etiqueta de identificação, é tornar presente a própria pessoa, com sua identidade misteriosa e seu vigor edênico. Ora, se esse é o poder criativo na evocação de todo e qualquer nome, o que não dizer da evocação do nome do próprio Senhor de cada criatura, Daquele que é sua raiz, sua força originária, dAquele sem o qual nem eu e nenhuma outra criatura seríamos? Assim, começar a Vida e a Regra Em nome do Senhor, como o fazem Francisco e Clara, é fazer ressoar o advento e a presença retraída do vigor do mistério de sua própria origem e da origem de todas as criaturas e de todos os eventos[1].


Em, no latim in, indica movimento para o interior, o dentro, o âmago de... Assim, iniciar a Vida franciscana em nome do Senhor indica, antes de mais nada, a disposição de sempre e em todos os momentos da vida, deixar-se “im-portar” para, instruir e orientar pelo âmago da Autoridade do retraimento do mistério do próprio Deus que tocou Francisco, Clara e todo nós vocacionados à Vida franciscana.


Assim, iniciar a leitura da Regra na dinâmica do em nome do Senhor significa dispor-se a deixar-se conduzir como servo para o dentro, para o interior da esfera e da dimensão do encontro com a origem de nossa vocação. Nessa dinâmica, ler e estudar a Regra, em nome de quem ela foi escrita, será sempre exercício de disponibilidade, humilde e graciosa, para bem ouvir e bem acolher o toque desse mistério insondável com todas as suas exigências, colocando-se, benevolamente, em condições de bem segui-lo, imitá-lo e “copiá-lo”; é fazer ecoar, sempre de novo, o vigor da afeição originária que transforma os vocacionados a esta vida, de estranhos em amigos e irmãos, de indiferentes em discípulos e seguidores do próprio Senhor, seu único e verdadeiro mestre.


A importância de se estar em nome do Senhor, tanto na leitura da Regra bem como em todo o empenho de nossa formação aparece se recordarmos o significado originário de senhor.


Hoje em certos ambientes é fora de moda e por isso tido como cafona chamar alguém de senhor ou senhora. Acabou-se o tempo em que uma das primeiras coisas que se aprendia tratar reverentemente os pais, padrinhos e parentes e mesmo estranhos com a nobreza da palavra senhor, senhora.


Na Sagrada Escritura senhor é, certamente, a palavra mais empregada. Porém, mais significativo que constatar a profusão de sua presença é perceber a dinâmica de seu emprego, ou seja, verificar o como, o por que, a causa que leva alguém a referir-se ou relacionar-se com outra pessoa chamando-a de senhor.


Quase sempre senhor é palavra que irrompe da dinâmica do encantamento do encontro. É do vigor dessa dinâmica que Maria ao ser visitada pelo Anjo é levada a exclamar: Eis aqui a serva do Senhor. O mesmo se dá com cada um dos Apóstolos e, de uma ou de outra forma, com todos os vocacionados, como, por exemplo, com Francisco que, no famoso sonho de Espoleto, ao ser visitado em forma de sonho por uma pessoa misteriosa irrompe numa jubilosa, graciosa e benevolente exclamação: Senhor que queres que eu faça?


Senhor, é portanto, palavra que nasce da profunda experiência de ser amado, querido, eleito sem nenhum merecimento pessoal, mas por pura iniciativa daquele que nos amou por primeiro. Longe, portanto, dessa palavra, pelo menos em sua pureza originária, todo e qualquer conotação de poderio, prepotência, status, dominação, mando e desmando.


A riqueza da expressão em nome do senhor aparece, também, quando olhamos a palavra latina dominus que deu origem a palavra senhor. Dominus, contém a palavra domus que significa casa. Dominus, Senhor, portanto, indica o modo de ser de quem está em casa, isto é, na dinâmica do pai de família que, a exemplo de Adão, cuida para que cada membro ou criatura disponha de tudo o que precisa para vir-a-ser e crescer em sua identidade. Nesse sentido dominus ou senhor tem o mesmo modo de ser de servo, como muito bem explicita Jesus na Última Ceia.


O cuidado pelos seus familiares ou súditos é que levava os povos antigos a estabelecerem tronos para seus governantes, reis e soberanos. Assentados em níveis mais elevados tinham, esses, condições privilegiadas para melhor perceber e sentir as necessidades dos súditos e servos. Compreende-se, também, agora, porque a imagem de Jesus Cristo crucificado em nossas igrejas é sempre posta lugar elevado. Ele é o Senhor e ao mesmo tempo o servo bom e fiel colocado pelo Pai, à frente de seus para dar a cada um, a seu tempo, o alimento necessário.


A experiência do encontro, evocada aqui na Regra pelo em nome do Senhor, desperta no discípulo a dinâmica da obra do bem-fazer, prenhe de humildade graciosa e de gratuidade humilde, comprometida com o bem agir da própria origem, o Senhor-servo. A obra do servo, do discípulo ou filho, porém, não se dá, jamais, por mera decisão sua. Pois, agora, a modo de filho e servo, tudo o que empreende e realiza procede do vigor dessa afeição, da vontade e do ânimo do novo Senhor. Ora, o que se espera do discípulo e servo é apenas fidelidade; que, esteja onde estiver, faça o que fizer, jamais deixe de estar e de fazer no nome, isto é no vigor do seu Mestre e Senhor.


A reverência de Francisco e Clara ao mistério do em Senhor, revela, acima de tudo, a experiência de servos e discípulos. Por isso, aqui, como na Sagrada Escritura, Pai ou Senhor não tem nenhum significado de “criador”, “chefe”, “prior”, “superior”, ou “líder”. Não tem, portanto, conotação com dominação ou imposição, no estilo de senhor-escravo, patrão-empregado, superior-súdito, chefe-funcionário. Na Sagrada Escritura, Senhor é palavra chave do relacionamento e da reverência que vem de uma profunda e inefável intimidade originada do Mistério do Encontro no Amor. Conseqüentemente, quem não demonstra nenhuma forma de sensibilidade e reverência para com o mistério da vida, pulsante nos seus próximos, consangüíneos e demais criaturas, dificilmente vai entender o que significa, com precisão, estar na Vida e na Regra franciscana em nome do Senhor.


Em nome do Senhor em forma exclamativa não é, portanto, mera e piedosa lembrança ou descrição jornalística de nossa origem franciscana, mas evocação que brota da pertença ao princípio originário de nossa existência e participação “umbilical” do Mistério mais profundo do sentido da vida e de toda a humanidade, trazido a este mundo por Jesus Cristo, o Senhor dos senhores: sermos, com Ele e no seu Espírito, nós também, filhos queridos do Pai nosso que está nos céus. Assim, o núcleo central e real da Vida franciscana, a Regra com a qual sempre as Irmãs haverão de se medir, a inspiração que sempre deve iluminar os passos das seguidoras de Clara e Francisco será, tão só e unicamente, Jesus Cristo que, de mil e uma forma, em caminhos inefáveis, sempre de novo e de forma nova, se oferece aos seus eleitos para torná-los familiares e domésticos seus.


Ao escrever na abertura da Regra em nome do Senhor Francisco e Clara fazem ecoar o que já estava soando no mais profundo de seu coração, como fonte e origem de sua nova vida. Assim, o Senhor, compreendido como a suma Pobreza, revelação do mistério mais íntimo e profundo do próprio Deus, é quem vai iluminar e animar todas as dimensões da Vida franciscana apresentadas e desenvolvidas ao longo dos diversos capítulos da Regra.


Colocar o Senhor como princípio e fonte originária da Vida franciscana implica em determinar que todos os nossos afazeres diários não estão aí, soltos, ao deus dará, nem se movendo ao ritmo de qualquer outra melodia, Vida ou Regra, mas ligados e dançando sempre ao ritmo e ao sabor do amor, da luz e do vigor que emergem da pessoa de Jesus Cristo, o Senhor dos senhores.


Em nome do Senhor, enfim, indica que somos todos da mesma estirpe divina. Nesse sentido nossa Regra segue o princípio da grande tradição do Povo de Deus que, em vez de entender a História da Salvação como uma seqüência de fatos, considera-a, antes como História do Amor que nos amou por primeiro.


Assim, ler nossa Vida e nossa Regra não é outra coisa senão beber do manancial de água viva da nossa origem; é entrar no processo de conhecimento (leia-se: co-nascimento) e de proclamação do nome do Senhor em nossa vida; é tornar-se participante do novo céu e da nova terra, impregnados e conduzidos pelo Espírito do Senhor e seu santo modo de operar.


[1] Entre os diversos sentidos de mistério deve-se destacar: obra, operação, plano, desígnio e história ou aventura divina.

Ilustração: Saint Francis of Assisi Gave the Canon to Franciscan Orders / Niccolò Antonio Colantonio. Entre 1440-1470. Napoli : Museo di Capodimonte. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Colantonio_002.jpg acesso em 19 maio 2010.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A Maria de Francisco

Francisco é sempre surpreendente. Nos surpreende em seus atos, como, por exemplo quando nu diante do povo, do pai e do bispo se expropria de todos os seus bens exclamando: Entendam todos! A partir de hoje não direi mais: “Meu pai Pedro Bernardone, mas meu Pai do Céu”. Mas, nos surpreende, também com seus Escritos com seu pensamento e sua Espiritualidade, como, por exemplo, sua relação com Nossa Senhora.


Francisco vê Maria não apenas como a Mãe e protetora de sua Ordem, mas, também, como Aquela que, juntamente com seu Filho, quer imitar e seguir. Por isso, escreve: “Eu, Frei Francisco, pequenino, quero seguir a vida e a Pobreza de Nosso senhor Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe...


Mas, o que mais surpreende é a Saudação da Bem-aventurada Virgem Maria que ele faz e escreve:


Ave, ó Senhora, santa Rainha,

Santa Mãe de Deus, Maria,

que és virgem feita Igreja.


Eleita pelo santíssimo Pai do Céu,

a quem consagrou com seu santíssimo dileto Filho

e com o Espírito Santo Paráclito.


Em ti residiu e reside toda a plenitude da graça e todo o bem.


Ave, ó palácio do Senhor;

Ave, ó tabernáculo do Senhor;

Ave, ó casa do Senhor.


Ave, ó vestimenta do Senhor;

Ave, ó serva do Senhor.


Ave, ó mãe do Senhor

e ave, vós todas santas virtudes infusas,

pela graça e iluminação do Espírito Santo

nos corações dos fiéis, fazendo-os, de infiéis,

fiéis de Deus.


Chama-nos a atenção que Francisco escreve: Saudação da Bem-aventurada Virgem Maria e não à, como nós costumamos. Isso mostra que Francisco, não se vê distante e nem separado da Mãe de seu amado Senhor. Como criança no colo da mãe, vê-se um nela e com ela, esperançoso e desejoso de também ele ouvir de seus lábios o que o Menino Jesus ouvira de Maria: Meu querido filho!, e assim poder ele também experimentar e provar, um pouco, o que é ser, como Jesus, seu filho, alma de sua alma, espírito de seu espírito.


Ao contemplar a divina Mãe e a Mãe do Divino, ao admirar um encontro tão profundo, em que o Céu e a Terra se dão as mãos, em que o humano e o divino unem seus corações, palmilhando os passos da mesma aventura humana, Francisco só pode exclamar: Ave!... Ave!... Ave! ou seja: Quanta graça! Quanta vida! Quanta gratuidade! Quanta bênção! Quanta Boa vontade! Quanto Bem-querer ou Amor, podemos nós também dispor de tão admirável Senhora e de tão fecunda Virgem e Mãe.


Com um “Salve Maria!”, desejamos aos irmãos paroquianos um abençoado mês de Maria. Fraternalmente,


Frei Gabriel Brancher, Pároco e Frei Dorvalino Fassini.


Ilustração: Incoronazione della Vergine [óleo sobre tela] / Giulio Cesare Procaccini. 1604-1607. Los Angeles (Estados Unidos) : J. Paul Getty Museum. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Procacc1.jpg acesso em 19 abr. 2010.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Quaresma-Páscoa: Tempo da Paixão do Senhor

Frei Dorvalino Fassini, OFM*

Na Sagrada Escritura as palavras, os fatos, o tempo, etc. são realidades teológicas e não apenas históricas ou cronológicas. Isso significa que não estão na dinâmica das ocorrências (coisas que correm e passam), mas de Deus, ou seja: atrás de cada uma delas está (“é”) Deus atuando e falando. São tentativas infinitas e às vezes quase que “desesperadas” ou “loucas” de Deus para encontrar e amar o homem.

O mesmo acontece na Liturgia ou no ano litúrgico. Assim, no Tempo da Quaresma-Páscoa não estamos lembrando fatos, ocorrências do passado, mas celebrando sempre e de novo a experiência da grande Paixão de Deus para conosco. Em outras palavras, com esse Tempo se quer de novo e sempre melhor ver, conhecer e sentir a presença e a atuação na vida de cada um de nós e no mundo do insondável mistério da Paixão de Cristo.

Todos nós sabemos que paixão é coisa muito séria e forte. É uma força que pode tomar conta e dominar inteiramente a pessoa. Um apaixonado é capaz de matar e de morrer por causa da pessoa amada. É o que acontece com Jesus Cristo. Para ele somos tão queridos, tão amados, tão preciosos para seu Pai que viver e morrer na Cruz por Ele e por nós é sua glória, sua honra, sua alegria, seu júbilo e “prazer”: sua Paixão.

Por isso, também, nesse tempo de Quaresma-Páscoa, a Liturgia toda sempre nos convoca a que não fiquemos insensíveis a tão entranhada e inaudita Paixão, mas que a ela nos convertamos e por ela façamos penitência. Nesse sentido São Francisco é um exemplar número um. Pois, logo após o encontro com o Crucificado de São Damião, quando se sentiu profundamente tocado e comovido a ponto de chorar em alta voz, perguntado por que estava chorando, respondeu: Choro a Paixão do meu Senhor e não devo envergonhar-me de andar pelo mundo inteiro chorando em alta voz.

Esse episódio serve para compreendermos, também, o sentido da nossa penitência quaresmal ou cristã. A penitência que nós cristãos fazemos, principalmente na Quaresma, vem do Evangelho. Por isso não se restringe aos jejuns, às abstinências e demais sacrifícios corporais ou espirituais. Poderíamos dizer que sua essência, sem a qual todas essas práticas são de pouco ou nenhum valor, consiste numa certa dor que invade nosso coração quando nos damos conta do quanto somos insensíveis e grosseiros com Aquele que nos amou tanto, esquecidos Daquele que nos ama com tanta Paixão.

Sim “chorar”, interior e exteriormente, como Francisco, proclamando que Deus é tão bom, a ponto de nos dar seu Filho único até a morte e morte de Cruz eis a razão primeira e última de todo esse tempo da Quaresma e da Páscoa; eis o sentido desse tempo de penitência e conversão, bem como de todas as penitências ou sacrifícios de nossa vida de cristãos, inclusive e principalmente quando celebramos o Sacramento da Penitência.

É para esta penitência que a Igreja, através da Campanha da Fraternidade, nos convoca proclamando que não podemos servir a Deus e ao dinheiro e muito menos querer agradar a dois senhores. Certamente, se quisermos ser sinceros, aqui, neste ponto, temos muita penitência, muita conversão a fazer, muita dor a sentir em nossa alma. É só olhar como e o quanto estamos presos, amarrados e por vezes escravos, dos bens perecíveis, sem importância, e esquecidos dos bens que não perecem. Tanto faz se esses bens são materiais, morais ou espirituais, como comida, dinheiro, casa, carro, elogios, críticas, fama ou santidade, etc. Tudo isso passa, a única coisa que perdura é a Paixão do Senhor para conosco, ou como diz São Paulo, o Amor, a Caridade de Deus, ou que é Deus.

* Assistente Espiritual da Frat. N. Sª dos Anjos da Porciúncula

Foto: HeartBroken-Tears are the Baptism of Soul / honikum. 2006. Disponível em http://www.flickr.com/photos/87128018@N00/139136870 acesso em 7 abr. 2010.

sábado, 3 de abril de 2010

Admissão de Adelaide e Isaura

Hoje, Sábado Santo, em nossa reunião mensal realizamos o rito de admissão das nossas irmãs Adelaide e Isaura; também tivemos a graça da visita do irmão José Miguel da Frat. Santo Antônio do Rio de Janeiro (RJ).


Creative Commons License Fotos:
Admissão Adelaide e Isaura à OFS / Eugenio Hansen, OFS. 03 abr. 2010. is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 3.0 Brasil License.

Pastoral Vocacional Franciscana Secular

Tanto a Fraternidade Nacional como a Fraternidade Regional da OFS em seus capítulos eletivos definiram que uma de suas prioridades é a Pastoral Vocacional Franciscana Secular, aqui em nossa fraternidade foi conivdado (e aceitou) para coordenar esta importante atividade o Ir. Hugo que foi nosso primeiro Ministro eleito.








Creative Commons License Foto:
Ir. Hugo Melo, OFS / Eugenio Hansen, OFS. Porto Alegre, 03 abr. 2010. is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 3.0 Brasil License.